O círculo vicioso de um mundo MAD (parte 2)

Autor: Maj Lion
Quarta, 23 Setembro 2026
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Ensaio anterior publicado neste Eblog propôs a existência de três características atuais da dimensão humana que formam um triângulo de improsperidade que leva a um ciclo de desagregação contrário à prosperidade de grupos de todos os portes, desde agremiações até nações: mediocridade, ausência de visão coletiva e desonestidade. Chegou-se, então, a exemplo do realizado pelo Gen Richard Fernandez Nunes, em seu artigo sobre o mundo PSIC (Nunes, 2022), ao acrônimo MAD. A proposta deste ensaio, complementar ao anterior, é responder ao questionamento que restou daquela leitura, abordando de que forma as atitudes que caracterizam o mundo MAD afetam as possibilidades de desenvolvimento de uma comunidade.

A primeira letra do acrônimo refere-se à cultura de mediocridade. Esta faz com que os resultados mantenham-se baixos, no limiar do necessário, insuficientes para favorecer o surgimento de inovações, de avanços tecnológicos, de melhorias efetivas que conduzem ao desenvolvimento. A pessoa que deseja se destacar, sendo seguidamente desprezada em seus esforços e não encontrando uma quantidade adequada de outras pessoas que prossigam na mesma senda, que a motive e colabore com seu trabalho, tende a desistir da excelência ou, o que pode ser ainda pior, a abandonar sua comunidade para buscar outra em que a cultura valorize o seu esforço, tanto material quanto afetivamente. Com isso, perde-se a oportunidade de contar com o labor daqueles que poderiam fazer a diferença. Estas pessoas, nesse caso, podem passar a compor uma massa de insatisfeitos difusos, por não atingirem o seu verdadeiro potencial, ou uma massa de profissionais emigrantes, no fenômeno conhecido como fuga de cérebros.

A seguir, aborda-se a questão da ausência de visão coletiva. Àquelas pessoas que, estoicamente, não são afetadas pela cultura de mediocridade e labutam para fazer o seu melhor, esse tipo de atitude leva à exasperação. Encontrando, em contrapartida ao comportamento respeitoso de entrega de seu melhor potencial, uma sociedade que não se ampara no espírito comunitário e individualistas que o utilizam como oportunidade para auferir vantagem, o cidadão é levado a se endurecer na defesa de seus interesses, deixando de ser cortês com o próximo. No exemplo abordado no ensaio anterior, ao ser seguidamente ultrapassado pelo acostamento em engarrafamentos, perdendo mais tempo enquanto o individualista reduz a sua própria perda sem sofrer qualquer tipo de consequência, mais cedo ou mais tarde aflorará o sentimento negativo de estar sendo ingênuo, que pode sobrepujar o sentimento positivo de estar respeitando os demais, aumentando a tendência de agir de maneira similar. Afinal, por que dedicar seu trabalho em prol de uma sociedade que não demonstra senso de grupo, em que o bem que se faz aos outros não é correspondido? Ao agir em prol da coletividade, a percepção é, nesse caso, de que seu empenho será em vão, dissipado pela apatia e pela ausência da confluência de esforços do restante da comunidade.

Por fim, o acrônimo fala da desonestidade. Se, face à cultura da mediocridade, o indivíduo ainda assim buscar o atingimento de níveis elevados de desempenho, e face à falta de visão coletiva, permanecer firme em seu propósito de fazer as coisas da forma certa, escorado em sua ética pessoal, o desamparo derradeiro é encontrado na desonestidade diária. Ao encará-la, o sentimento é que, ao término de toda a cadeia de eventos, o esforço será dissipado pelo desvio de sua finalidade, não chegando a atingir a comunidade – pelo contrário, servindo apenas para locupletar o(s) agente(s) desonesto(s). A desonestidade retira, assim, o último alento para o serviço em prol do desenvolvimento da sociedade, pois faz com que não se enxergue nos demais o mesmo comprometimento e, pior do que isso, leve à certeza de que o objetivo final não é o bem comum, e sim a vantagem individual.

Em última análise, uma sociedade dominada pelo MAD em sua dimensão humana cria seu próprio ciclo de autodestruição, resumido na Figura 1: a mediocridade mantém o desempenho geral baixo; a ausência de visão coletiva endurece os pouco talentos e os leva ao egoísmo; e a desonestidade aniquila a esperança do otimista de que seu serviço resulte em bem comum. Dessa forma, dificilmente ela terá a têmpera necessária para livrar-se do círculo vicioso de subdesenvolvimento, gerando uma espécie de loucura coletiva autofágica que a leva a morder permanentemente a ponta da própria cauda, como na alegoria do mito da serpente. Por fim, ela faz com que se confirme a frase de Rui Barbosa proferida há quase oitenta anos: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os podêres nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto...” (Barbosa, 1946, p. 86, mantida a grafia da época).

FIGURA 1 – Círculo vicioso do mundo MAD.

Fonte: Elaborado pelo autor.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Rui. A falta de justiça, a fonte de todo o nosso descrédito. In: BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA. Obras Completas de Rui Barbosa: discursos parlamentares. Vol. XLI, 1914, Tomo III, p. 86-88. Rio de Janeiro, 1946. Disponível em: <https://www.stf.jus.br/bibliotecadigital/RuiBarbosa/16040_V41_T3/PDF/16040_V41_T3.pdf>. Acesso em: 08 OUT 2025.

NUNES, Richard Fernandez. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército. Blog do Exército Brasileiro. 2022. Disponível em: <https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito?p_l_back_url=%2Fsearch%3FcFilter%3D258981%26q%3Dpsic&p_l_back_url_title=Search>. Acesso em: 06 OUT 2025.

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