AGÊNCIA, ALTO ESCALÃO E STAKEHOLDERS: O QUE SÃO ESSAS LENTES?

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Quarta, 30 Setembro 2026
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As Organizações Militares (OM) contemporâneas enfrentam questões que ultrapassam a dimensão estritamente operacional. Decisões, responsabilidades, relações de autoridade e interação com públicos distintos compõem a rotina administrativa das Forças Armadas (FA). Por essa razão, alguns conceitos das Ciências da Administração podem contribuir para ampliar a compreensão sobre a governança militar. Entre eles estão a Teoria da Agência (Agency Theory), a Teoria do Alto Escalão (Upper Echelons Theory) e a Teoria dos Stakeholders. Cada uma dessas lentes (abordagens) permite observar a organização por um ângulo diferente.

Infográfico 1 – Interligação entre Agência, Alto Escalão e Stakeholders

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

A Teoria da Agência, desenvolvida por Jensen e Meckling (1976), parte da relação entre aquele que delega uma tarefa, o “principal”, e aquele que recebe a responsabilidade de executá-la, o “agente”. Um dos problemas associados a essa relação está na assimetria das informações, discutida por Eisenhardt (1989). Na administração contemporânea, mecanismos de controle interno e conformidade procuram reduzir esse tipo de dificuldade. A criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) oferece uma situação histórica que ajuda a visualizar o problema: havia necessidade de conceder autonomia técnica e logística às tropas empregadas no Teatro de Operações europeu, sem perder de vista o alinhamento com as orientações políticas do Estado. Neste artigo, portanto, considera-se o Estado e a Sociedade como principais, enquanto as Forças Armadas ocupam a posição de agente.

A relação de delegação, entretanto, não explica sozinha como uma OM toma suas decisões. Também importa observar quem está à frente dela e como suas experiências e valores interferem nas escolhas realizadas. É nesse ponto que a Teoria do Alto Escalão ganha espaço. Hambrick e Mason (1984) sustentam que as organizações refletem, em alguma medida, as características de seus principais dirigentes, incluindo aspectos cognitivos, valores e experiências.

No Exército Brasileiro (EB), essa perspectiva pode ser observada na influência exercida por determinados líderes sobre a formação e a evolução do pensamento militar. O marechal Humberto de Alencar Castello Branco, por exemplo, atuou na direção e no comando da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), onde participou da reformulação dos métodos de estudo e do desenvolvimento da doutrina, procurando adaptar o estado da arte militar às características brasileiras.

Esse caso ilustra como a formação e a experiência dos dirigentes podem repercutir sobre as escolhas e os rumos de uma organização. Dessa maneira, a atualização teórica proposta por Hambrick (2007) mantém essa preocupação com a influência da alta administração sobre as escolhas estratégicas e permite relacioná-las aos processos de inovação e modernização doutrinária.

Quadro 1 – Perfil dos líderes e impacto na doutrina

Elemento

Exemplo

Impacto

Formação acadêmica

Marechal Castello Branco

Reformas no ensino militar

Experiência de comando

Oficiais-generais contemporâneos

Modernização doutrinária

Valores pessoais

Visão estratégica da cúpula

Propensão à inovação

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

Ainda falta, porém, considerar que as decisões da cúpula não ocorrem em um ambiente isolado. A organização mantém relações permanentes com diferentes grupos, alguns dos quais podem apoiar, questionar ou sofrer diretamente os efeitos de suas ações. A Teoria dos Stakeholders (partes interessadas) associada ao trabalho de Freeman (1984) amplia justamente esse olhar. Em lugar de concentrar a atenção apenas nos acionistas, a abordagem considera os diversos grupos que influenciam ou são influenciados pela organização. A reedição da obra em 2010 demonstra a permanência desse debate na área de Administração.

Mitchell, Agle e Wood (1997) acrescentaram outra dimensão ao discutir a saliência dos stakeholders a partir de três atributos: poder, legitimidade e urgência. A aplicação dessa perspectiva ao ambiente militar é possível em situações como as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e o apoio a desastres naturais. Nessas circunstâncias, o Exército precisa se relacionar com Judiciário, órgãos de segurança pública, comunidades locais, imprensa e outros atores. A maneira como essas relações são conduzidas interfere na percepção de legitimidade da atuação militar e, consequentemente, no apoio social às atividades desenvolvidas.

Infográfico 2 - Diagrama de saliência: poder, legitimidade e urgência

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

A participação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) permite aproximar as três perspectivas em uma mesma experiência. Pela ótica da Agência, o Exército atuou na execução de uma política definida pelo Estado brasileiro, dentro de uma missão submetida à supervisão internacional. A perspectiva do Alto Escalão permite observar a influência da liderança dos comandantes brasileiros sobre a forma de atuação das tropas. Já a abordagem dos Stakeholders chama a atenção para a necessidade de coordenação com governo haitiano, organizações não-governamentais (ONGs) e população civil.

Quadro 2 - Integração das três lentes teóricas na MINUSTAH

Lente

Aplicação

Resultado

Agência

Exército como braço da política externa

Supervisão internacional

Alto Escalão

Liderança humanística dos comandantes

Abordagem de “mão amiga”

Stakeholders

Coordenação com governo haitiano, ONGs e civis

Legitimidade social

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

A experiência brasileira no Haiti evidencia essa articulação no cotidiano da missão. A atuação das tropas combinou o cumprimento das atribuições recebidas com a liderança dos contingentes e a interação permanente com diferentes atores locais. A Figura 1 busca ilustrar parte dessa experiência.

Figura 1 - Tropas brasileiras na MINUSTAH

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

A aproximação entre essas três teorias ajuda a compreender que a governança militar envolve questões diferentes, mas relacionadas. A Agência chama a atenção para a delegação, o controle e a prestação de contas. O Alto Escalão desloca o olhar para as características e experiências daqueles que ocupam posições de liderança. Os stakeholders, por sua vez, ampliam a análise para os grupos com os quais a organização se relaciona.

No caso do EB, essas perspectivas podem ser úteis tanto para interpretar situações já vivenciadas quanto para refletir sobre os desafios administrativos atuais. Eles não substituem a doutrina militar nem pretendem oferecer uma explicação única para a organização. Servem, antes, como lentes complementares para observar diferentes dimensões da atividade institucional. Dessa forma, o “Braço Forte” e a “Mão Amiga” podem ser compreendidos também a partir de questões relacionadas à gestão, à liderança e à relação da Força com a sociedade.

Quadro 3 - Síntese da Governança Militar

Agência

Alto Escalão

Stakeholders

Foco central: relação Estado/ FA

Foco central: perfil da liderança

Foco central: impacto social e legitimidade

Fricção: assimetria de informações

Fricção: tradução de valores em doutrina

Fricção: gestão de múltiplos interesses

Caso histórico: FEB na II Guerra Mundial

Caso histórico: reformas do marechal Castello Branco

Caso histórico: saliência em GLO e desastres

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

 

Referências

Eisenhardt, K. M. (1989). Agency theory: An assessment and review. Academy of Management Review, 14 (1), 57-74. https://doi.org/10.5465/amr.1989.4279003

Freeman, R. E. (1984). Strategic management: A stakeholder approach. Boston, MA: Pitman.

Freeman, R. E. (2010). Strategic management: A stakeholder approach. Cambridge University Press.

Hambrick, D. C., & Mason, P. A. (1984). Upper echelons: The organization as a reflection of its top managers. Academy of Management Review, 9 (2), 193-206. https://doi.org/10.2307/258434

Hambrick, D. C. (2007). Upper echelons theory: An update. Academy of Management Review, 32 (2), 334-343. https://doi.org/10.5465/AMR.2007.24345254

Jensen, M. C., & Meckling, W. H. (1976). Theory of the firm: Managerial behavior, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economics, 3 (4), 305-360. https://doi.org/10.1016/0304-405X(76)90026-X

Mitchell, R. K., Agle, B. R., & Wood, D. J. (1997). Toward a theory of stakeholder identification and salience: Defining the principle of who and what really counts. Academy of Management Review, 22 (4), 853-886. https://doi.org/10.2307/259247

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