A segunda metade do século XIX marcou profundamente a história do Brasil e impôs ao País enormes desafios e sacrifícios. Nesse contexto, a Guerra da Tríplice Aliança, ocorrida entre 1864 e 1870, se insere com particular destaque. Travada entre uma aliança liderada pelo Brasil e integrada pela Argentina e o Uruguai, contra o governo ditatorial do Marechal Solano Lopez, no Paraguai, fez verter na América do Sul uma torrente de sangue jamais vista ou imaginada, com repercussões duradouras.
O País participou com a maior parte das tropas e meios, protagonizado as mais decisivas vitórias, tanto por mar, como por terra. Trouxe à luz e consagrou lideranças militares e mobilizou a Nação em torno de um objetivo comum, despertando na população intenso sentimento de Defesa Nacional e patriotismo. Entretanto, o preço foi alto: cerca de meio milhão de brasileiros jamais regressou.
O então Império do Brasil foi arrastado para o conflito após a injustificável captura do vapor Marquês de Olinda, sem declaração prévia de guerra, quando a embarcação subia o Rio Paraguai, em missão oficial, transportando para a província do Mato Grosso o seu novo presidente. Da mesma forma, o território nacional foi covardemente invadido por tropas guaranis pelo oeste e pelo sul. O Governo brasileiro, indignado e impulsionado pelo clamor popular, não tardou em dar uma legítima resposta.
Imagem 1 – Pintura do vapor Marquês de Olinda. |
|
Fonte: https://artsandculture.google.com/asset/steamer-marquis-of-olinda-in-asunci%C3%B3n-edoardo-de-martino/0gEKee6V405GUA?hl=pt-br |
Na fase inicial do conflito, durante a Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1965, a Armada brasileira aniquilou a correspondente guarani. A partir daquela data, as águas passaram ao controle da Aliança e ficaram estabelecidas as condições ideais para o início da ofensiva terrestre. Em comemoração a este feito extraordinário, a Marinha do Brasil escolheu a Batalha Naval do Riachuelo como sua data magna. Dois heróis falecidos no combate tornaram-se ícones para as gerações de oficiais e praças da Armada brasileira: o Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh e o Marinheiro Marcílio Dias.
Imagem 2 – Pintura da Batalha Naval do Riachuelo. |
|
Fonte: https://www.marinha.mil.br/comemch/batalha-naval-do-riachuelo |
Imagem 3 – Guarda-Marinha João Guilherme Greenhalgh (esquerda) e o Marinheiro Marcílio Dias. |
|
|
|
Fonte: https://www.naval.com.br/blog/2024/06/11/11-de-junho-dia-da-batalha-naval-do-riachuelo/ |
|
A Batalha do Passo da Pátria, entre os dias 16 e 23 de abril de 1866, foi o início da campanha por terra. Sua vitória assegurou o ponto de apoio necessário para o prosseguimento das ações em direção a Assunção, capital do Paraguai. Naquele difícil embate, o Brasil perdeu o Tenente-Coronel Villagran Cabrita, um dos grandes arquitetos da vitória, que planejou e impulsionou a travessia do Rio Paraná. Por tudo que fez e representa, foi escolhido o Patrono da Arma de Engenharia do Exército Brasileiro.
Imagem 4 – Pintura “13º Batalhão de Caçadores na Guerra do Paraguai: Passo da Pátria”, do artista plástico Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia. |
|
Fonte: https://www.calameo.com/exercito-brasileiro/read/001238206eca23e48adb6 |
Imagem 5 – Tenente-Coronel Villagran Cabrita, Patrono da Arma de Engenharia do Exército Brasileiro. |
|
Fonte: https://www.eb.mil.br/patronos/engenharia |
Após alcançada a margem esquerda do Rio Paraná e vencidos alguns combates iniciais, como o de Estero Bellaco, em 2 de maio, os Aliados ocuparam, no dia 20 de maio, uma extensa área e estabeleceram sua base de operações. Segundo a descrição do célebre historiador, General Tasso Fragoso, o acampamento estava assim delimitado: ao norte, o Estero Rojas; ao sul, o Estero Bellaco; ao oeste, a Lagoa e o Potreiro Pires; ao leste, uma dilatada região pantanosa; e, ao centro, uma pequena elevação ou lomba, que dominava os arredores. Os argentinos se instalaram no setor leste. A oeste e ao centro, ficaram brasileiros e uruguaios. Mais ao norte da posição, havia uma lagoa denominada Tuiuti.
Figura 6 – Área de operações (acampamento de Tuiuti). |
|
Fonte: Esboço nº 1 do livro “Tuiuti é Osório; Osório é Tuiuti”, de Lobo Viana (1940), Biblioteca do Exército. |
Profundo conhecedor da geografia de seu país e disposto a infringir aos aliados uma devastadora derrota, Lopez selecionou suas melhores tropas e concebeu um potente ataque surpresa, por três diferentes direções de aproximação. A ação teria início nas primeiras horas de luz do dia 24 de maio de 1866, desencadeada mediante ordem e acionada por meio de um foguete, a ser respondido com um disparo de canhão.
O prussiano Clausewitz, teórico e estudioso dos conflitos na primeira metade do século XIX, ensina que a guerra é o reino das incertezas, na qual cada contendor tenta subjugar o oponente à sua própria vontade. Ressalta que as ações mais simples planejadas se tornam complexas quando postas em prática, sob o efeito implacável de diferentes fatores, como a “fricção do combate” e a “névoa da guerra”, que merecem aprofundamento e discussão em outra oportunidade.
Atacar o acampamento de Tuiuti, conforme concebido por Lopez, não seria uma tarefa simples. Para cumpri-la, havia a necessidade de uma refinada sincronização das ações. Do lado aliado, entretanto, igualmente existiam problemas. Os argentinos, ao leste, estavam demasiado isolados, formando uma espécie de saliente vulnerável. Ao oeste, na região da clareira do Potreiro Pires, os possíveis itinerários de infiltração pela mata não foram reconhecidos, tampouco vigiados. Do Potreiro Pires, o inimigo guarani facilmente acessaria a base pela retaguarda.
Figura 7 - Pintura “Em Tuiuti”, do artista plástico Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia. |
|
Fonte: https://www.calameo.com/exercito-brasileiro/read/001238206eca23e48adb6 |
O esquema de manobra de Lopez era ousado e privilegiava os Princípios de Guerra da Surpresa e da Manobra. Nele, havia uma adequada distribuição das forças, equilibrando harmonicamente os Princípios de Guerra da Massa e da Economia de Meios. Tratava-se de um duplo desbordamento, com uma fixação e penetração pelo centro. No entanto, para o início das ações, boa parte da tropa teria que vencer terrenos restritivos e, por vezes, impeditivo ao trânsito, inclusive a pé.
O General Barrios deveria abordar os aliados pelo oeste, infiltrando por diferentes itinerários na mata que desembocava na clareira no Potreiro Pires. Por leste, o General Resquim lançaria sua cavalaria no flanco argentino. O Coronel Dias e o Tenente-Coronel Marcó, pelo centro, fixariam parte da tropa oponente e penetrariam balizados pela estrada que cortava o acampamento de norte a sul.
Figura 8 – A Batalha de Tuiuti. |
|
Fonte: Esboço nº 2 do livro “Tuiuti é Osório; Osório é Tuiuti”, de Lobo Viana (1940), Biblioteca do Exército. |
O ataque, previsto para às 9 horas de 24 de maio, atrasou, em razão da demora do posicionamento das tropas, sobretudo as de Barrios. Desta feita, o início do combate se deu somente próximo ao meio-dia. Os contratempos permitiram que as forças aliadas preparassem melhor suas defesas. O Tenente-Coronel Mallet, por exemplo, mandou cavar um extenso e profundo fosso, próximo à estrada penetrante, medida que se mostrou extremamente proficiente, barrando as sucessivas cargas inimigas e entrando definitivamente para a história, em razão da sua influência no resultado da Batalha. “Eles que venham! Por aqui não passarão!”, profetizou, com competência e acerto, o futuro Patrono da Arma de Artilharia do Exército Brasileiro.
Figura 9 - Pintura “Trovões da glória”, do artista plástico Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia. |
|
Fonte: https://www.calameo.com/exercito-brasileiro/read/001238206eca23e48adb6 |
Figura 10 – A “Carga dos Encouraçados”, do artista plástico Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia. |
|
Fonte: https://www.calameo.com/exercito-brasileiro/read/001238206eca23e48adb6 |
No centro do dispositivo aliado, próximos a Mallet, a 6ª Divisão de Infantaria do General Vitorino Monteiro, os uruguaios do General Venâncio Flores e a 3ª Divisão de Infantaria (Encouraçada) do Brigadeiro Sampaio resistem como uma muralha o choque das tropas de Dias e Marcó. Sampaio, incansável, manda tamponar a todo custo as brechas abertas no dispositivo defensivo. Cada investida inimiga é rechaça com violência. Líder nato, corajoso e determinado, o futuro Patrono da Infantaria brasileira luta ombro a ombro com os seus soldados. Não raras vezes, ao logo de sua brilhante carreira, foi visto comandando na linha de frente e nos locais mais perigosos. Desta vez, não era diferente. O “Leão de Tuiuti”1 entende que sua presença inspira e multiplica o poder de combate da tropa. É gravemente ferido três vezes2, sangra, se contorce de dor e deixa a contragosto o campo de batalha, para falecer a bordo do vapor hospital Eponina, em 06 de julho de 1866.
Figura 10 - Pintura “Sampaio em Tuiuti”, do artista plástico Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia. |
|
Fonte: https://www.calameo.com/exercito-brasileiro/read/001238206eca23e48adb6 |
No flanco leste, Resquim cai como um raio sobre as forças argentinas que, na iminência da derrota, são reforçadas por tropas imperiais, sob as ordens de Osorio. A manobra de contingência funciona e o centauro gaúcho é ovacionado pelos platinos. Ao oeste, os paraguaios incidem sobre a Brigada Ligeira do General Neto. Osorio, onipresente, aciona o General Mena Barreto e o Coronel Tristão Pinto, que à frente das 2ª e 5ª Divisões de Infantaria, respectivamente, agem com total rapidez e precisão. Imprimem um novo contra-ataque exitoso e os paraguaios de Barrios terminam o entreveiro derrotados.
Por volta das 16h30, está encerrada a Batalha de Tuiuti. As perdas de ambos os lados impressionam: 4 mil aliados, de um total de 33 mil, e 12 mil paraguaios, dos 24 mil iniciais. É a maior e mais sangrenta batalha campal já travada na América do Sul. Apesar da derrota acachapante, Lopes manda informar ao seu povo que havia ganho a contenda. Por outro lado, Osorio, o Legendário, foi simplesmente a “estrela guia” dos aliados, merecendo a eloquente citação do historiador Lobo Viana: “Tuiuti é Osorio; Osorio é Tuiuti”.
A Guerra da Tríplice Aliança foi um vetor que fortaleceu a identidade nacional, consolidou o Brasil como liderança regional e contribuiu para a conscientização da importância das forças armadas na defesa da Pátria. No âmbito do Exército, aprimorou a doutrina, assegurou a modernização dos meios e fez surgir uma gigantesca massa crítica de veteranos, apta a colaborar com a preparação da Instituição para os desafios futuros.
Tuiuti, nos seus 160 anos, traz consigo singulares e importantes reflexões. O resultado da Batalha representou o ponto de partida para a vitória da Aliança na guerra contra o governo de Lopez. Consubstanciou o gênio militar do Duque de Caxias, dando vazão à vocação de chefe e líder militar incomparável. Rendeu à Nação inúmeros e anônimos heróis, imortalizando, também, nomes como Sampaio, Osorio, Mallet, e Severiano da Fonseca, que se tornariam Patronos de Armas e do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro.
Figura 11 – Patronos do Exército Brasileiro que combateram na Batalha de Tuiuti. |
|||
Brigadeiro Sampaio (Arma de Infantaria) |
Marechal Osorio (Arma de Cavalaria) |
Marechal Mallet (Arma de Artilharia) |
General de Brigada Severiano da Fonseca (Serviço de Saúde) |
|
|
|
|
Fonte: https://www.eb.mil.br/o-exercito/patronos |
|||
Em síntese, a “Batalha dos Patronos” foi sinônimo de grandeza para o soldado brasileiro. O mesmo combatente maiúsculo que, 75 anos depois, reafirmaria o seu valor nos campos gelados da Itália, lutando na 2ª Guerra Mundial como Força Expedicionária Brasileira e tornando o País partícipe do Dia da Vitória, de 08 de maio de 1945. É, também, o dedicado Soldado da Paz, que há décadas presta serviços valiosos em prol da estabilidade mundial, integrando missões sob a égide da Organização dos Estados Americanos e Organização das Nações Unidas, em todos os continentes. Enfim, trata-se de um cidadão para verdadeiramente se orgulhar.
1O termo “Leão” tem conotação de “bravo guerreiro” e aquilata o arquétipo do infante heroico! Está associado à percepção de “soldado valente”, transmitindo a imagem do combatente de linha de frente, situação que retrata, com precisão, a missão clássica do integrante da Arma de Infantaria.
2 As três estrelas vermelhas existente no anverso da Medalha Sangue do Brasil, destinada a contemplar os feridos em combate, e no Distintivo de Organização Militar (DOM) da 3ª Divisão de Exército – Divisão Encouraçada, com quartel-general em Santa Maria-RS, fazem alusão e justa homenagem aos três ferimentos sofridos pelo Brigadeiro Sampaio na Batalha de Tuiuti.
Comentarios