Desde o início do estabelecimento da colônia portuguesa na América do Sul, começaram a ser instalados pontos fortes ao longo da costa brasileira, para defender os habitantes e as riquezas aqui exploradas. Muitas das fortificações, como o forte São João, no Rio de Janeiro, existem até hoje, e são patrimônio cultural do País, com fundações que são um registro de mais de 500 anos da presença europeia na região.
Nesse diapasão, diversos aquartelamentos possuem suas instalações alicerçadas em antigas fortificações, sendo pontos turísticos de destaque. Outras instalações militares são modernas, e utilizam técnicas de estruturas pré-fabricadas, além de tecnologias inovadoras que economizam energia e insumos de construção. Assim, as edificações militares foram construídas em fases bem destacadas na história, com destaque para cerca de um século atrás, um período de intensas obras militares.
O principal projeto de construção dos quartéis do Brasil está relacionado à reorganização do Exército, no final do século XIX. Após a disputa pelo Acre, o confronto no Contestado, a Primeira Grande Guerra Mundial e a eclosão dos movimentos operários, a discussão acerca da modernização do Exército tornou-se um tema urgente.
Neste período, a discussão sobre o papel do Exército ultrapassou os limites das casernas e ganhou notoriedade entre os brasileiros. Em 1916, foi fundada a Liga da Defesa Nacional, organização civil criada por Olavo Bilac, Rui Barbosa e Miguel Calmon. Um dos objetivos desta organização foi iniciar campanhas sistemáticas a favor da regulamentação do serviço militar obrigatório e permitir a expansão do patriotismo (KUHLMANN, 2001).
Em 1916, ano da fundação da Liga e durante os confrontos da Guerra Mundial, o serviço militar obrigatório começou a vigorar no Brasil. O serviço militar obrigatório representou um aumento do efetivo para o Exército. Não obstante, ainda era muito precária a infraestrutura para o abrigo e treinamento dos jovens recrutados (COELHO, 1976).
Na primeira metade dos anos 20, ocorreram crises sucessivas. Duas revoltas emblemáticas aconteceram em 1922 e 1924, durante o governo de Arthur Bernardes. As revoltas tiveram ampla repercussão e deram origem ao movimento conhecido como “tenentismo. Neste ambiente instável, no qual o Exército passou a ocupar um lugar central na formulação de expectativas e questionamentos se desenvolveram em diversas obras de construção dos quartéis.
No texto de Simonsen, proprietário da principal construtora de quartéis à época, os quartéis aparecem descritos como lugar privilegiado para a educação do cidadão brasileiro. Dado o nosso atraso, até escolas para alfabetizar os sorteados têm que funcionar nos quartéis; pois os oficiais precisam ministrar lições de educação moral e cívica, e ainda os mais elementares preceitos de higiene. Nesta perspectiva, a ausência de uma infraestrutura militar adequada colocava em risco não apenas a proteção militar, mas a saúde, o civismo, a disciplina. A construção dos quartéis foi iniciativa do Ministro do Exército Pandiá Calógeras (SIMONSEN, 1931).
Calógeras era engenheiro formado na Faculdade de Minas em Ouro Preto. Em 1914, foi nomeado ministro da Agricultura, Indústria e Comércio. Durante o período em que esteve à frente deste Ministério, reorganizou os departamentos, regulamentou propriedade de minas, e fixou o crédito agrícola. Elaborou um relatório “Problemas de Administração‟ acerca das dificuldades da administração pública neste período. Parecia ser, pois, um engenheiro dedicado às formas de administração e organização do Estado.
Em 1918, Calógeras integrou a delegação brasileira do Congresso de Versalhes, ocasião em que conheceu Roberto Simonsen. De volta ao Brasil, em 1919, assumiu o Ministério da Guerra. Preocupava-se, sobretudo, com a formação técnica dos militares e, para isso, delineou um projeto de expansão e modernização do Exército com o auxílio de uma missão militar francesa. A construção de novos quartéis em todo o território brasileiro era, pois, parte deste projeto.
Assim, o então Ministro da Guerra Pandiá Calógeras constatou que a organização do serviço militar exigia a modernização e a expansão da infraestrutura dos quartéis, contratando para as obras a Companhia de Construção de Santos. No texto de Simonsen, presidente da construtora contratada, a construção dos quartéis, tal empreitada tinha uma função cívica e civilizadora. As obras eram uma oportunidade para desenvolver uma nova mentalidade, com impacto positivo sobre os municípios.
As construções representaram, em algumas cidades, estímulo ao comércio, valorização imobiliária, assim como desenvolvimento de melhores condições sanitárias e urbanas. Numerosos mestres e operários que trabalharam nas construções tornaram-se elementos produtivos nas regiões em que permaneceram. Nas cidades surgiram novas noções de urbanismo, por influência das obras nos aquartelamentos (SIMONSEN, 1931).
Para Simonsen, o Exército e sua empresa apareciam como instituições modeladoras da nação. No relatório da empresa, a construção dos quartéis aparece como resultado da união de uma comunidade de homens cordiais, trabalhadores, honestos, eficientes e patrióticos. (SIMONSEN, 1931)
Dessa forma, a empresa Construtora de Santos iniciou em 1920 a construção de 26 quartéis, simultaneamente, em 26 cidades e nove estados. A empresa, nos anos 1920, somente conseguiu esse feito graças à industrialização e à organização dos processos, revisão e adequação dos projetos e a racionalização do canteiro, com um sistema rústico de pré-fabricação. Os quartéis construídos seguiram seguindo de modelo para as obras posteriores, até para as novas construções pós-2ª Guerra Mundial.
Simonsen é considerado um dos principais nomes da indústria brasileira e seu nome está gravado no prédio da FIESP. O estilo de construção de diversos quartéis e edifícios militares é conhecido no país inteiro como “estilo Calógeras” até hoje, tamanha a quantidade de obras parecidas, com dois pavimentos, alongados, de planta retangular, e janelas altas.
Para empreender as obras, foi necessária a manutenção de quatro escritórios: em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Maria e Campo Grande. Na cidade de São Paulo, ficava o escritório central, responsável pela coordenação geral dos trabalhos. Um grupo de engenheiros inspetores fiscalizava as atividades nos canteiros. Havia ainda a fiscalização das obras, realizada pelo próprio Exército, que nomeava comissões especiais para este fim, fiscalizando o andamento da concorrência pública realizada, como exigia a lei à época.
Não obstante, segundo a versão de Simonsen, estas concorrências tinham vários entraves: as propostas apresentadas pelas empresas excediam a previsão orçamentária do Ministério e discordavam das cláusulas dos editais elaborados pela contabilidade pública. Entre as empresas, havia também a desconfiança, agravada pelas flutuações cambiais, de que o governo não seria pontual no pagamento.
A organização da empresa Construtora de Santos (CCS) permitiu a ‘fabricação industrial” de quartéis, em série. O processo de racionalização do trabalho e dos métodos para a construção permitiram uma enorme economia de tempo e dinheiro, tendo sido apontados como pontes fortes: o planejamento e cronograma meticuloso, a ‘padronização’ das construções que permitiu a compra de materiais por preços especiais e a centralização do sistema de contabilidade e registro de observações técnicas (BONATES, 2016)
Assim, a construtora conseguiu entregar 26 aquartelamentos, a maioria até hoje em utilização, o que evidencia a qualidade da obra realizada. Segundo a empresa, somente pelo meticuloso estudo foi possível economizar e entregar um produto de boa qualidade, pela análise de necessidades em cada canteiro de serviço, seleção da mão de obra e da disponibilidade de material em cada região e suas circunvizinhanças (SIMONSEN, 1931).
Finalmente, cumpre destacar a capacidade do Exército para conduzir a construção dos aquartelamentos há mais de cem anos . Percebe-se que já naquela época foi necessário superar os desafios licitatórios da época, a falta de fornecedores e as restrições de mão de obra, óbices que se fazem presentes até os dias atuais, em que pese os avanços dos transportes, comunicações e de diversas tecnologias.
Atualmente, o Exército Brasileiro possui sob sua responsabilidade uma grande área construída, com idade média das edificações, superior a 50 anos. Isso representa um grande desafio para a conservação dos diversos prédios, com investimento de recursos e mão de obra para que seja mantido o legado dos nossos antepassados. Ao mesmo tempo, adequar as estruturas antigas às novas necessidades operacionais é um permanente desafio, a fim de priorizar o empenho dos recursos existentes para manter nossa história e as condições de operacionalidade.
Um novo modelo arquitetônico vem sendo elaborado nas obras novas que nosso Exército conduz, aos moldes do que foi planejado para os quartéis recentemente construídos no estado do Paraná, como o 3º Regimento de Carros de Combate. Tais projetos incluem o posicionamento da Guarda dos aquartelamentos de modo a proporcionar a máxima segurança desta e das áreas sensíveis, e buscam utilizar as mais modernas tecnologias disponíveis, adequando-se às cada vez mais complexas exigências ambientais, de acessibilidade e sustentabilidade.
PALAVRAS-CHAVE: Fortes, Aquartelamentos, obras, Pandiá Calógeras, readequação.
BIBLIOGRAFIA
ARRUDA, Ângelo. Primeira obra de 2 andares assinada por arquiteto faz 84 anos na Afonso Pena. 2016. Disponível em https://www.campograndenews.com.br/lado-b/conversa-de-arquiteto/primeira-obra-de-2-andares-assinada-por-arquiteto-faz-84-anos-na-afonso-pena. Acesso em 10 Dez 2025.
BONATES, Maria filho. Taylorismo, indústria e a construção dos quartéis do Brasil na década de 1920: entre o discurso e a prática. UFCG. Revista brasileira da história da ciência. 2016.
BRASIL- A engenharia do exército na construção do desenvolvimento nacional; Washington Machado de Figueiredo [et.al]... -- Brasília: Departamento de Engenharia e Construção, 2014.
COELHO, Edmundo. (1976) Em busca da identidade: o exército e a política na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Forense Universitária
KULHMANN, Paulo Roberto. (2001) O serviço militar, democracia e defesa nacional: razões da permanência do modelo de recrutamento no Brasil. São Paulo: Dissertação de Mestrado, Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, 2001.
PEREIRA, Antônio Celso Alves. João Pandiá Calógeras e a construção do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 184, n. 493, p. 11–39, 2023. DOI: 10.23927/revihgb.v.184.n.493.2023.66. Disponível em: https://rihgb.emnuvens.com.br/revista/article/view/66. Acesso em: 15 dez. 2025.
SIMONSEN, Roberto. As crises no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1930. O trabalho moderno.
VIZEU, Fábio. Managment no Brasil sob a perspectiva histórica: o projeto IDORT nas décadas de 30 e 40. Tese de Doutorado em Administração de Empresas. Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, 2008
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