O ressurgimento da águia e do samurai na arena global

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Sexta, 31 Julho 2026
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O cenário internacional contemporâneo atravessa uma metamorfose profunda, marcada pelo que o chanceler alemão Olaf Scholz definiu como Zeitenwende, uma virada de era (Daehnhardt, 2022). Após quase oito décadas de pacifismo constitucional e de "cultura de contenção", a Alemanha e o Japão, as maiores potências derrotadas em 1945, quebram tabus históricos ao anunciar investimentos massivos em defesa.

Conforme apontam Sakaki et al., (2025), a invasão da Ucrânia pela Rússia teve um impacto dramático nas posturas de segurança e defesa da Alemanha e do Japão, aliados-chave dos Estados Unidos da América (EUA) com fortes tradições de política externa antimilitarista, baseadas em constituições pacifistas. Esse fenômeno marca o fim do "dividendo da paz", exigindo que potências geoeconômicas se convertam, novamente, em atores geoestratégicos ativos, frente à erosão da segurança global.

A analogia da Águia (Bundesadler) e do Samurai (Senshu Bōei) evoca a memória de nações que ditaram a história militar através de doutrinas de vanguarda. A Alemanha, herdeira de Clausewitz, consolidou-se como potência global, após vitórias fulminantes sobre a Dinamarca (1864), a Áustria (1866) e a França (1870), estabelecendo os pilares dos Três Reichs e alterando o equilíbrio europeu por gerações (Kissinger, 2014).

Figura 1 – Revisitando a águia e o samurai

Fonte: Adaptado de Kissinger (2014), Koda (2005), e Shimazu (2013).

 

No Oriente, o Japão demonstrou uma capacidade de mobilização industrial e bélica ímpar. Diferente das resistências do Afeganistão, que derrotou o Reino Unido em 1921; ou do Vietnã, que venceu a França em 1954 e os EUA em 1975; o Japão notabilizou-se pela alta intensidade, sendo a primeira nação asiática a derrotar uma potência europeia na modernidade, a Rússia em 1905, na guerra russo-japonesa (Koda, 2005; Shimazu, 2013).

Na primeira metade do século XX, o império japonês projetou-se sobre Manchúria, Coreias e o Sudeste Asiático, mostrando uma capacidade que hoje se reconfigura em bases democráticas. Destaca-se que o Japão e a Alemanha cultivam o pacifismo desde a II Guerra Mundial (II GM) e tais inversões são destinadas para ações defensivas, como regem suas constituições (Sakaki et al., 2025).

Nesse sentido, este artigo visa discutir esse ressurgimento do investimento dessas duas potências econômicas e tecnológicas em defesa militar. Os dados e informações que sustentam a análise são públicos e estão disponíveis em bases internacionais, como o Statista e o SIPRI (Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo), com base no Produto Interno Bruto (PIB).

Sob a ótica da Ciência Econômica, o esforço de defesa nacional é aferido pela carga que o orçamento militar impõe sobre o seu PIB, representado no valor de mercado de todos os bens e serviços finais produzidos internamente. Para Mankiw (2024), a equação do PIB pela identidade fundamental da demanda (ótica da despesa) é expressa pela fórmula a seguir: Y = C + I + G + (X - M)

Em que Y representa o produto (Yield), C o consumo das famílias, I o investimento privado, G os gastos governamentais (onde se alocam as despesas de Defesa) e X-M as exportações líquidas (Exportações - Importações). Esta relação matemática é vital para entender casos como o da Guiana: nela, o componente de exportações líquidas, impulsionado pelo petróleo, elevou o produto nacional (Y) de forma tão exponencial que o gasto militar (G) permanece estatisticamente diluído. 

O caso da Guiana, de tensão com a Venezuela, e claro, da Alemanha e Japão, estão disponíveis na Tabela 1, bem como de outros países, inclusive o Brasil. Para essa relação entre riqueza e prontidão, apresenta-se a evolução do esforço de defesa para o quadriênio 2023-2026, organizada de forma decrescente pela projeção para 2026.

Tabela 1 - Esforço de Defesa global (% do PIB): série histórica 2023-2026

Nação

2023

(Exec.)

2024

(Exec.)

2025

(Aut.)

2026

(Proj.)

Motivação Estratégica Dominante

 

 

Ucrânia

36,5%

34,4%

34,8%

35,0%

Guerra total de sobrevivência

Israel

5,4%

8,8%

9,1%

9,2%

Conflito regional em várias frentes

Argélia

7,4%

8,0%

8,2%

8,1%

Rivalidade regional (Magreb)

Arábia Saudita

7,3%

7,3%

7,3%

7,5%

Liderança regional

Rússia

5,4%

7,1%

7,1%

7,1%

Economia de guerra

Mianmar

3,8%

6,8%

6,8%

6,8%

Guerra civil

Polônia

3,3%

4,1%

4,5%

4,7%

Liderança no Flanco Leste da OTAN

Jordânia

4,8%

4,8%

4,3%

4,2%

Estabilidade de fronteiras

Marrocos

3,6%

3,5%

4,1%

4,2%

Disputa territorial no Saara Ocidental

Paquistão

2,9%

2,7%

3,2%

3,7%

Dissuasão nuclear (Índia)

Estônia

3,0%

3,4%

3,4%

3,5%

Dissuasão russa direta no Báltico.

EUA

3,3%

3,4%

3,4%

3,4%

Manutenção de presença global

Coreia do Sul

2,6%

2,6%

2,6%

2,6%

Prontidão e exportação (BID).

Taiwan

2,1%

2,1%

2,3%

2,5%

Dissuasão contra invasão chinesa.

Dinamarca

2,0%

2,4%

2,4%

2,4%

Proteção da Groenlândia.

Finlândia

2,0%

2,3%

2,3%

2,4%

Nova fronteira da OTAN c/ Rússia.

Suécia

1,5%

2,0%

2,2%

2,4%

Consolidação na OTAN.

Alemanha

1,5%

1,9%

2,2%

2,4%

O retorno da Águia (Zeitenwende).

Romênia

1,6%

2,3%

2,3%

2,3%

Foco na Moldávia e Transnístria.

Noruega

1,8%

2,1%

2,2%

2,3%

Segurança no Ártico e flanco norte.

França

2,0%

2,1%

2,1%

2,1%

Autonomia estratégica europeia.

Japão

1,2%

1,4%

1,7%

2,0%

O retorno do Samurai (Senshu Bōei).

Egito

0,8%

0,7%

1,1%

1,4%

Estabilidade regional e Canal de Suez.

Brasil

1,0%

1,0%

1,1%

1,2%

Projetos Estratégicos e Entorno Sul.

Guiana

0,7%

0,9%

0,9%

0,9%

PIB elevado esconde investimento militar.

Fonte: Adaptado de SIPRI (2026) e Statista (2026).

 

A interpretação da Tabela 1 revela correlação entre a percepção de insegurança regional e a reorientação das contas públicas. Enquanto Polônia, Estônia, Finlândia e Suécia realizam transição acelerada para se tornarem pilares do Báltico e Ártico, outros atores, como a Ucrânia, exemplificam o esforço para evitar a fragmentação territorial.

Figura 2 – Projeção de orçamento militar para 2026


 

Fonte: Adaptado de SIPRI (2026) e Statista (2026).

 

Coreia do Norte, exemplo de regime fechado para o Ocidente, e Síria, devastada por guerra civil, não retornaram dados estatísticos no portal do SIPRI. Mesma situação ocorre com a Venezuela, que possivelmente tenha aumentado seus investimentos militares em razão dos exercícios para reincorporar áreas da Guiana (Essequibo). Entretanto, com a prisão de seu então presidente, Nicolás Maduro, seus dispêndios militares devem estar sendo rediscutidos pela Assembleia Nacional.

Figura 3 – Entorno estratégico sul-americano

Fonte: O autor (2026).

 

No Oriente Médio e Norte da África, países como Egito, Arábia Saudita e Argélia mantêm esforços voltados para a preservação de rotas comerciais e projeção de influência, muitas vezes competindo com investimentos estruturais civis. Mianmar, por outro lado, se encontra em conflito interno, pouco divulgado nas mídias, as quais se dedicam de forma mais engajada no entorno estratégico chinês.

É imperativo notar que o reinvestimento global foca primordialmente na Base Industrial de Defesa (BID) e na prontidão tecnológica de quinta geração. Para o Brasil, a manutenção de um patamar estável de gastos em torno de 1,1% a 1,3%, em contraste com a escalada nos flancos europeu e asiático, ressalta a necessidade de uma gestão pública da defesa que priorize a soberania tecnológica.

Esse cenário impõe que a dissuasão seja sustentável frente ao aumento global dos custos de aquisição e manutenção de sistemas avançados. Entende-se, dessa maneira, que o rearmamento da Alemanha e do Japão não é apenas uma mudança de cifras, mas uma alteração profunda em seus dispositivos para a "dissuasão ativa".

A Alemanha e o Japão, antigas potências do Eixo derrotadas por EUA, Reino Unido, URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e demais aliados na II GM, foram pivôs da Guerra Fria (Soller, 2022). Pelo destaque da águia e do samurai na arena global, é prudente a reestruturação perante o conflito na Ucrânia e tensões em Taiwan.

É verdade que a Tabela 1 apresenta dados mais acentuados com relação a outros países. Isso se justifica por estarem em áreas diretamente conflagradas, em conflitos de alta intensidade ou tensões regionais em que não se pode prever o início ou reinício das hostilidades. Outros casos são de conflitos intermitentes, no exemplo do Oriente Médio, em que Israel possui prontidão permanente.

Sob a ótica da economia de defesa, esse despertar impõe um desafio tecnológico sem precedentes. Para o Brasil, a conjuntura exige que a eficiência da gestão transforme cada recurso em real capacidade de defesa. O mundo de 2026, com tensões na América do Sul (Venezuela x Guiana), Ártico (EUA x Groenlândia/Dinamarca), Leste Europeu (Rússia x Ucrânia), Oriente Médio (entorno de Israel), Sudeste Asiático (Mianmar) e estreito de Taiwan (ameaça de invasão chinesa), não mais se tolera o hiato entre pujança econômica e fragilidade geoestratégica.

Figura 4 – O imperativo da dissuasão ativa e os focos de tensão no mundo

 

 


 

Fonte: O autor (2026).

 

Referências

Daehnhardt, P. (2022). Zeitenwende: a mudança na política de defesa da Alemanha. IDN Brief, 13 - 16. https://run.unl.pt/bitstream/10362/167812/1/IDN_brief_mar_o_2022.pdf

Kissinger, H. (2014) World Order. Penguin, New York.

Koda, Y. (2005). The Russo-Japanese War: Primary Causes of Japanese Success. Naval War College Review58 (2), 10-44. https://digital-commons.usnwc.edu/nwc-review/vol58/iss2/3/

Mankiw, N. G. (2024). Principles of economics (10th ed.). Cengage Learning.

NATO. (2025). Defense Expenditure of NATO Countries. Official NATO Documents.

Sakaki, A., Maull, H. W., Lukner, K., Krauss, E. S., & Berger, T. U. (2025). Germany and Japan: “Reluctant warriors” no more? Asian Journal of Comparative Politics10 (3), 286-308. https://doi.org/10.1177/20578911251326143

Shimazu, N. (2001). The Myth of the ‘Patriotic Soldier’: Japanese Attitudes Towards Death in the Russo - Japanese War. War & society19 (2), 69-89. https://doi.org/10.1179/072924701791201549

SIPRI. (2026). SIPRI Military Expenditure Database. https://milex.sipri.org/sipri

Soller, D. (2022). Os vencidos da Guerra: A Alemanha e o Japão no século XXI. https://ipri.unl.pt/images/media/2022/DS/DS_Observador_17122022.pdf

Statista. (2026). Total defense expenditure as a share of gross domestic product (GDP) in the European Union in 2023, by member state. https://www.statista.com/statistics/1393832/eu-military-defense-expenditure-share-gdp-member-state/

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