A guerra nunca foi estática, mas um fenômeno cuja natureza permanece enquanto sua forma se transforma, conforme o contexto tecnológico e social. Carl von Clausewitz (1832) já indicava que a guerra é a continuação da política por outros meios, e essa lógica permanece válida mesmo quando os meios passam a incluir infraestruturas digitais e ambientes virtuais. Nesse cenário, tecnologias como metaverso e blockchain não eliminam a guerra tradicional, mas ampliam seu espectro para dimensões informacionais e cognitivas.
O conceito contemporâneo de guerra híbrida demonstra que conflitos atuais combinam ações cinéticas, operações cibernéticas, influência informacional e disputas econômicas de maneira integrada (Hoffman, 2007). Isso significa que o campo de batalha não se limita mais ao espaço físico, mas inclui redes, dados e percepções, onde a informação se torna um ativo estratégico equivalente ao poder de fogo. Dessa forma, a digitalização do conflito passa a compor a própria arte militar contemporânea.
Figura 1 – “Da Guerra Cinética à Guerra Híbrida Digital”
Fonte: O autor (2026).
A confiança na informação é um fator crítico no ambiente operacional moderno, pois decisões estratégicas dependem da integridade dos dados disponíveis. O blockchain, definido por Satoshi Nakamoto (2008) como um sistema de registro distribuído baseado em consenso criptográfico, oferece imutabilidade e rastreabilidade, reduzindo vulnerabilidades associadas à manipulação de dados. Para a defesa, essa arquitetura pode fortalecer cadeias logísticas, registros operacionais e processos de auditoria, ampliando a resiliência informacional.
Figura 2 – Arquitetura centralizada e blockchain
Fonte: O autor (2026).
O metaverso, descrito como um conjunto de ambientes virtuais persistentes e interativos (Ball, 2022), ganha relevância militar ao permitir simulação avançada e treinamento imersivo. O Exército dos Estados Unidos desenvolve o Synthetic Training Environment (STE), ou Ambiente Sintético de Treinamento, que integra cenários virtuais complexos para preparação operacional conjunta (U.S. Army, 2024). Esse tipo de sistema reduz custos, amplia a repetibilidade de cenários e aprimora a tomada de decisão sob estresse.
Figura 3 – O metaverso militar: simulação e treinamento
Fonte: O autor (2026).
A adoção de tecnologias digitais também ocorre em nível institucional entre alianças militares. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) formalizou a Digital Transformation Implementation Strategy, ou Estratégia de Implementação da Transformação Digital, estabelecendo a integração de tecnologias digitais para melhorar interoperabilidade, consciência situacional e operações em múltiplos domínios (NATO, 2024). Essa orientação demonstra que a transformação digital é parte de políticas oficiais de defesa coletiva.
A discussão dessas tecnologias conecta-se ao paradigma da Indústria 5.0, definido pela Comissão Europeia como um modelo que coloca o ser humano no centro, promove sustentabilidade e fortalece a resiliência sistêmica (European Commission, 2021). Diferentemente da Indústria 4.0, focada, sobretudo em automação e eficiência, a Indústria 5.0 enfatiza o equilíbrio entre tecnologia e valores humanos (Breque et al., 2021), perspectiva especialmente relevante para o emprego militar responsável de sistemas digitais. Nesse sentido, o soldado deixa de ser mero operador de máquinas para atuar como decisor ampliado por tecnologias.
Figura 4 – A mudança de paradigma: da Indústria 4.0 para a 5.0 na Defesa
Fonte: O autor (2026).
A integração de metaverso e blockchain não representa o fim da guerra tradicional, mas sua expansão para um ecossistema sociotécnico mais complexo. Estudos sobre aplicações militares de tecnologias emergentes indicam que esses recursos ampliam consciência situacional, segurança informacional e capacidade de planejamento estratégico (Eloi, 2024; Eloi, 2025). A arte militar, portanto, incorpora novas camadas tecnológicas sem abandonar seus fundamentos estratégicos.
Figura 5 – Síntese: ecossistema sociotécnico de Defesa
Fonte: O autor (2026).
Conclui-se que o futuro dos conflitos envolve a convergência entre domínios físico e digital, exigindo preparo doutrinário, tecnológico e humano de forma simultânea. O desafio estratégico não é substituir o combatente pela tecnologia, mas integrar sistemas digitais de forma ética, resiliente e orientada ao ser humano, conforme propõe a lógica da Indústria 5.0. Assim, metaverso e blockchain não encerram a guerra tradicional, mas redefinem o espaço onde ela se manifesta.
Referências
Ball, M. (2022). The metaverse. Liveright.
Breque, M.; de Nul, L.; & Petridis, A. (2021). Industry 5.0: Towards a sustainable, human-centric and resilient European industry.
Clausewitz, C. P. G. von. (1832). Vom Kriege: Hinterlassene Werke des Generals Carl von Clausewitz über Krieg und Kriegsführung.
Eloi, J. C. R. (2024). Tecnologia Blockchain: potencialidades no setor de defesa. EBlog, Exército Brasileiro.
https://eblog.eb.mil.br/ca/w/tecnologia-blockchain-potencialidades-no-setor-de-defesa
Eloi, J. C. R. (2025). A manifestação do metaverso no setor militar, o battleverse. EBlog, Exército Brasileiro.
https://eblog.eb.mil.br/ca/w/a-manifesta%C3%A7%C3%A3o-do-metaverso-no-setor-militar-o-battleverse
European Commission. (2021). Industry 5.0: Towards a sustainable, human-centric and resilient European industry.
https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/468a892a-5097-11eb-b59f-01aa75ed71a1
Hoffman, F. G. (2007). Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Potomac Institute for Policy Studies. https://www.potomacinstitute.org/images/stories/publications/potomac_hybridwar_0108.pdf
Nakamoto, S. (2008). Bitcoin: A peer-to-peer electronic cash system.
https://bitcoin.org/bitcoin.pdf
NATO. (2024). NATO’s Digital Transformation Implementation Strategy.
https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2024/10/17/natos-digital-transformation-implementation-strategy
U.S. Army. (2024). Soldiers test new synthetic training environment.
https://www.army.mil/article/274266/soldiers_test_new_synthetic_training_environment
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