Herdeiras de Rondon: as pioneiras da Arma de Comunicações

Autores: Cad Lara Cad Camila
Segunda, 04 Maio 2026
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“Há homens que abrem estradas, e há aqueles que abrem caminhos para sempre.”- Atribuído ao Mar Rondon.

 

Em janeiro deste ano, na Academia Militar das Agulhas Negras, vivemos um dia que ficou marcado para sempre. Na escolha de arma, quadro ou serviço, nós, Cadetes Lara e Camila, tivemos a honra de escolher a Arma de Comunicações. No instante da escolha, o coração acelerou de um jeito difícil de explicar — foi um momento que parecia durar muito mais do que realmente durou. A partir dali, deixávamos de ser apenas duas cadetes da AMAN para nos tornarmos parte de algo maior: a primeira turma de futuras oficiais de Comunicações do segmento feminino.

Foi um dia intenso, simbólico e cheio de emoção. Logo após a escolha, participamos dos ritos de entrada na Arma e conhecemos mais de perto as tradições do Curso da Arma do Comando. O ambiente do Curso chamava atenção pelo peso da tradição e, ao mesmo tempo, pela energia dos mais antigos, que nos receberam com entusiasmo. Entre os símbolos, o busto de Marechal Rondon se destacou como uma presença marcante, referência inevitável para quem passa a fazer parte das Comunicações.

Na mesma data, também participamos de reportagens que registraram aquele momento histórico. Éramos 29 novos integrantes da Arma: 10 mulheres e 19 homens. Pela primeira vez, o segmento feminino passava a compor oficialmente a formação dos futuros oficiais de Comunicações da AMAN. Ainda naquela tarde, recebemos o vetorial em formatura solene e, depois, participamos da tradicional corrida da bobina, carregando um dos símbolos mais conhecidos da Arma: a histórica bobina EB11(BOB-202) com três quilômetros de fio. Já ali começávamos a perceber que estávamos entrando em uma Arma que exige disposição, rusticidade, espírito de corpo e, acima de tudo, vontade de superar limites.

Isso ficou ainda mais claro já na primeira semana de instrução no CCom, quando participamos do nosso primeiro “Manda Fio”. Para quem está chegando, o nome desperta curiosidade. Para quem o vive, ele ganha outro significado. Trata-se de uma atividade inopinada, exigente e marcante.

Recebemos a missão de transportar um ressuprimento de material de comunicações e material elétrico até um posto rádio isolado. Junto conosco seguiam um gerador pesado, cunhetes de até 70 quilos e galões de combustível. Era exatamente o mesmo tipo de missão recebida pela turma anterior, composta somente por homens. Desde o início, isso foi importante: as condições eram as mesmas, as exigências também.

O deslocamento começou e, logo nos primeiros momentos, veio uma chuva torrencial. O barulho da chuva batendo no capacete era constante, a lama prendia os coturnos a cada passo, e as mãos escorregavam no material molhado. O trajeto seguia em subida pelo Morro do Carrapicho, passava pelo Morro do Macuco e avançava pelo Campo de Instrução da AMAN. A respiração ficava pesada, a roupa encharcada aumentava o desconforto, e cada metro exigia esforço real.

Houve momentos em que o cansaço bateu forte. O terreno parecia piorar, o material pesar ainda mais, e o corpo começava a cobrar. De repente, no meio da dificuldade, alguém gritou: “Rondon!”. Foi um grito simples, espontâneo, carregado de significado. O efeito foi imediato. Como se todos tivessem entendido, sem precisar de explicação, o que aquilo representava. O passo acelerou, o ritmo mudou e, quando percebemos, estávamos correndo morro acima com o material. Em silêncio, o pelotão passou a funcionar quase como um só — alguém ajustava a carga do outro, uma palavra curta já bastava como incentivo. Naquele momento, entendemos que estávamos vivendo mais do que um exercício: era um verdadeiro rito de passagem.

Ao chegarmos ao ponto de entrega, deixamos o material e iniciamos o retorno. A chuva já havia parado, mas, como em toda boa instrução, ainda havia algo por vir. No caminho de volta, fomos surpreendidos por uma emboscada inimiga. Reagimos rapidamente e conseguimos nos retrair com sucesso. O exercício terminava do mesmo jeito que começara: exigindo atenção, resistência e trabalho em equipe até o último instante.

Ao final, recebemos a touca “manda fio”, símbolo da operacionalidade do cadete de Comunicações. Para nós do 2° Ano, aquele momento teve um peso especial. Mais do que o cansaço, veio uma sensação clara de conquista — orgulho, alívio e, principalmente, pertencimento. Era como se, ali, tivéssemos dado um passo definitivo para dentro da Arma.

Fomos as primeiras cadetes mulheres a participar de um inopinado na Arma do Comando, as primeiras a receber a touca do manda fio e as primeiras a viver experiências que, daqui para frente, passarão a fazer parte da rotina do Curso de Comunicações. Carregar esse pioneirismo é motivo de orgulho, mas também de responsabilidade.

Certamente, um dos aspectos mais positivos dessa trajetória foi a forma como fomos recebidas. A integração aconteceu com naturalidade. Em todas as atividades, fomos tratadas e cobradas de forma equânime por instrutores, cadetes mais antigos e pelos nossos próprios companheiros. Isso reforça, na prática, algo essencial à vida militar: o que define a confiança não é o gênero, mas a capacidade de cumprir as missões e contribuir com o grupo.

A experiência na Arma de Comunicações tem mostrado exatamente isso. Trata-se de um ambiente que exige raciocínio rápido, domínio técnico, resistência física, iniciativa e capacidade de liderança. É uma Arma que trabalha com tecnologia e integração de meios, mas que também exige rusticidade e prontidão. Assim, não basta entender sobre equipamentos: é preciso estar pronto para resolver problemas, manter a lucidez em situações difíceis e seguir em frente mesmo quando o cenário é complexo.

Portanto, a inserção do segmento feminino na Arma de Comunicações representa um marco importante não apenas pelo seu valor simbólico, mas pela forma concreta como aconteceu. Não se trata apenas de abrir novos espaços para as mulheres combatentes, mas, principalmente, de ocupá-lo com preparo, seriedade e compromisso. Cada desafio superado reforça uma certeza que foi ficando cada vez mais clara ao longo dessa trajetória: fizemos a escolha certa.

Quando olhamos para trás — para o dia da escolha, para a corrida da bobina, para o vetorial e para o primeiro manda fio debaixo de chuva — percebemos que essa etapa começou de verdade em cada esforço compartilhado e em cada missão cumprida ao lado dos nossos companheiros.

Estamos apenas no início da caminhada. Mas uma coisa já é certa: somos as primeiras de muitas que virão: Herdeiras de Rondon.

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