Guerras do Brasil: leitura comparada entre Donato e Barroso

Autores: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Segunda, 23 Fevereiro 2026
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1. REFERÊNCIAS

BARROSO, Gustavo. História militar do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2019.
DONATO, Hernâni.
Dicionário das batalhas brasileiras. São Paulo: IBRASA, 1987.

 

2. CREDENCIAIS DOS AUTORES

Hernâni Donato (1922–2012) consolidou-se como um dos mais importantes estudiosos da memória histórica do Brasil, não apenas pela variedade de sua produção, mas pela capacidade de transitar entre a narrativa literária e a pesquisa documental rigorosa. Como lexicógrafo, historiador e membro de diversas instituições dedicadas à preservação histórica, Donato desenvolveu sensibilidade especial para os registros de disputas que moldaram o território brasileiro. Seu Dicionário das batalhas brasileiras, fruto de décadas de pesquisa, nasce do reconhecimento de que a história militar do País estava fragmentada em fontes dispersas, muitas vezes negligenciadas pelo grande público e pouco exploradas pela historiografia tradicional. Sua motivação reside em preservar essa memória em sua totalidade, identificando tanto grandes campanhas quanto pequenos confrontos que, em conjunto, revelam a natureza conflitiva da formação nacional.

Gustavo Barroso (1888–1959), por sua vez, representa vertente distinta da historiografia militar. Ativo como diretor do Museu Histórico Nacional, acadêmico e pesquisador das tradições militares brasileiras, Barroso dedicou-se à construção de narrativa que compreende as Forças Armadas como eixos estruturantes da identidade e da coesão nacional. Seu livro História militar do Brasil reflete visão institucional e interpretativa, em que os conflitos são entendidos não apenas como episódios bélicos, mas como etapas essenciais na consolidação do Estado brasileiro, na modernização das estruturas defensivas e na formação simbólica da nacionalidade. Assim, Donato registra; Barroso interpreta. Ambos, entretanto, reconhecem que compreender o Brasil implica reconhecer a guerra como parte integrante de sua experiência histórica.

 

3. RESUMO

As duas obras analisadas oferecem perspectivas complementares sobre a história militar brasileira. Donato constrói repertório enciclopédico que cataloga de maneira sistemática um amplo conjunto de episódios, cobrindo desde confrontos indígenas, invasões estrangeiras e disputas internas coloniais até guerras internacionais, revoltas regionais do Império, lutas sertanejas da Primeira República e movimentos de guerrilha do século XX. Sua abordagem privilegia objetividade e síntese, permitindo visualizar padrões de enfrentamento que atravessam séculos e revelam que a construção do território foi, em larga medida, processo marcado por disputas contínuas.

Barroso, diferentemente, organiza sua interpretação segundo o desenvolvimento das instituições militares. Para ele, compreender a história militar implica compreender a história do Exército e da Marinha como estruturas que protegeram, organizaram e, em muitos casos, definiram o curso político do País. Embora reconheça a multiplicidade dos episódios, Barroso enfatiza grandes campanhas e marcos institucionais, como a Guerra do Paraguai, as crises da Primeira República, a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e a progressiva modernização das Forças Armadas.

A leitura conjunta das duas obras, portanto, não apenas amplia o repertório factual do leitor, mas permite interpretação complexa e integrada da guerra no Brasil. Donato fornece amplitude; Barroso, profundidade. Donato evidencia a diversidade dos episódios; Barroso explica sua articulação com o Estado. O resultado é visão abrangente e coerente da história militar brasileira.

 

3.1. FORMAÇÃO DO BRASIL E SEUS CONFLITOS

A história militar brasileira é longa e intrincada, começando muito antes da formação política do País e perpassando todos os seus períodos históricos. No período colonial, disputas envolvendo populações indígenas, colonizadores portugueses e potências europeias estabeleceram clima de tensão permanente. Donato registra episódios como a Guerra de Iguape, marcada por rivalidades entre portugueses e espanhóis; as invasões francesas no Rio de Janeiro e no Maranhão; e as invasões neerlandesas no Nordeste, que transformaram Pernambuco e Bahia em campos de disputa prolongados. Para Barroso, esses confrontos representam a gênese das primeiras estruturas militares do Brasil, definidas pela improvisação tática e pela necessidade de defesa do território em meio a disputas imperiais.

Além dos conflitos externos, o período colonial foi marcado por tensões internas. Conflitos como a Guerra dos Emboabas, motivada pela disputa pelo ouro entre paulistas e portugueses, e a Guerra dos Mascates, envolvendo comerciantes recifenses e senhores de engenho de Olinda, revelam como rivalidades econômicas e políticas geraram confrontos que exigiram mobilização militar. Donato registra ainda a Guerra Guaranítica, que expressa a disputa entre Portugal e Espanha pela definição de fronteiras no cone Sul. A resistência do Quilombo dos Palmares, por outro lado, evidencia dimensão social profunda da guerra, envolvendo populações escravizadas que buscavam autonomia territorial e liberdade.

A transição do período colonial para o Império intensificou instabilidades. Donato registra com precisão conflitos como a Revolta dos Mercenários, a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, movimentos que demonstraram dificuldades do governo imperial em assegurar unidade nacional. A Regência trouxe ciclo de revoltas regionais de grande impacto, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e o Levante dos Malês, todas caracterizadas por forte mobilização popular e repressão militar intensa. Barroso interpreta esse período como essencial para afirmação das instituições militares, que passaram a desempenhar papel decisivo na manutenção da ordem e da unidade territorial.

No plano internacional, a atuação do Brasil na Bacia do Prata alterou o equilíbrio regional. A Batalha de Caseros, em 1852, marca momento crucial na consolidação da hegemonia brasileira no continente, levando ao exílio de Juan Manuel de Rosas no Reino Unido e desestabilizando a estrutura política argentina. Donato destaca a dimensão tática e o impacto imediato do combate; Barroso enfatiza o significado político da vitória, compreendendo-a como marco da diplomacia brasileira e etapa fundamental na preparação para a Guerra do Paraguai.

O final do Império e a Primeira República testemunharam sequência de revoltas e guerras internas. Donato documenta episódios como a Guerra de Canudos, a Guerra do Contestado e a Revolta dos Muckers, evidenciando tensões sociais profundas no interior do país. Conflitos como a Revolta da Armada e a Revolução Federalista revelam fragilidades políticas e disputas entre facções militares e civis. Barroso lê esses episódios como sinais de crise institucional que exigiram progressiva reorganização das Forças Armadas.

O século XX inaugura fase de modernização militar, mas também de conflitos internos marcados por disputas políticas e ideológicas. A Revolta dos 18 do Forte, a Revolução Paulista de 1924 e a Coluna Prestes expressam insatisfação com a ordem oligárquica e papel crescente dos militares na política. A Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932 reconfiguraram o sistema político e reforçaram presença das Forças Armadas na vida nacional. Donato registra ainda participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, que Barroso entende como ponto de virada na inserção internacional do Brasil. No período do regime militar, guerrilhas como as do Caparaó, Vale do Ribeira e Araguaia revelam ambiente de disputa ideológica, complementando tensão histórico-militar que se prolonga até as missões contemporâneas de paz da ONU.

 

4. APRECIAÇÃO CRÍTICA DO RESENHISTA (COMPARAÇÕES INTEGRADAS)

A comparação entre Donato e Barroso permite compreender a história militar brasileira em múltiplas camadas. Donato opera com amplitude documental, registrando a totalidade dos conflitos e revelando que os embates organizados acompanham o Brasil desde sua origem. Sua obra expõe padrões de instabilidade interna, rivalidades internacionais, disputas sociais estruturais e resistências locais que, quando reunidos, demonstram que a formação do País foi profundamente conflitiva. Barroso, por outro lado, articula essas mesmas dinâmicas a partir da perspectiva institucional, priorizando coesão interna, evolução doutrinária e consolidação do Estado. Seu trabalho oferece interpretação sistemática dos grandes conflitos e identifica consequências de longo prazo para o fortalecimento do Exército e da Marinha.

Essa complementaridade metodológica faz com que o diálogo entre as duas obras seja particularmente fértil. Donato ilumina a magnitude dos eventos e recupera confrontos esquecidos; Barroso confere significado político e institucional a esses conflitos. Assim, a resenha evidencia que compreender a história militar do Brasil implica articular descrição e interpretação, fato e significado, evento e estrutura.

 

4.1. QUADRO COMPARATIVO – DIFERENÇAS METODOLÓGICAS

A obra de Donato caracteriza-se pela sistematização de eventos militares em ordem alfabética, destacando objetividade e pluralidade de fontes. Sua intenção é registrar, com máxima abrangência, os inúmeros episódios que compõem a experiência militar brasileira. Barroso, por sua vez, organiza sua narrativa a partir da lógica institucional, interpretando os conflitos como manifestações de crises políticas e momentos de reorganização das Forças Armadas. Donato reconstrói o mosaico dos confrontos, enquanto Barroso fornece o fio condutor que os integra ao processo de formação do Estado.

 

4.2. QUADRO COMPARATIVO – TIPOLOGIA DOS CONFLITOS

Donato utiliza uma tipologia que distingue batalhas, combates, campanhas, revoltas, revoluções, guerras e guerrilhas. Essa classificação facilita a compreensão da diversidade de confrontos e permite identificar padrões ao longo do tempo. Barroso, por outro lado, analisa essas categorias a partir de seu impacto institucional: batalhas e guerras são entendidas como momentos de reorganização militar; revoltas e revoluções como crises políticas; e guerrilhas como desafios ideológicos ao monopólio estatal da força. Essa diferença demonstra como Donato descreve os episódios e Barroso interpreta suas consequências.

 

4.3. QUADRO COMPARATIVO – FORMAÇÃO DO ESTADO

Para Donato, a formação do Brasil é um processo marcado por enfrentamentos armados contínuos, cuja catalogação expõe a frequência e a permanência das disputas. Para Barroso, o Estado se forma pela consolidação das instituições militares, que conferem coesão e unidade ao território. Juntos, os autores revelam que a história militar do Brasil é tanto factual quanto institucional, unindo descrição e interpretação em uma narrativa integrada.

 

5. LINHA DO TEMPO INTEGRADA DA HISTÓRIA MILITAR BRASILEIRA

A linha do tempo da história militar brasileira, quando articulada às perspectivas de Donato e Barroso, revela uma narrativa de longa duração. Nos séculos XVI a XVIII, predominam disputas coloniais externas e internas, definindo limites territoriais e dinâmicas de poder. No século XIX, revoltas sociais e campanhas internacionais moldam a política imperial e consolidam a inserção brasileira no Prata. No início da República, insurgências civis e militares testam a estabilidade institucional, enquanto no século XX, disputas ideológicas e participação internacional redefinem o papel das Forças Armadas. A história militar, assim compreendida, constitui processo contínuo que acompanha a evolução do Estado e da sociedade.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A leitura integrada de Donato e Barroso demonstra que a história militar brasileira não pode ser reduzida a uma simples enumeração de confrontos ou a uma interpretação institucional isolada. Donato revela a dimensão factual da guerra e suas múltiplas manifestações ao longo dos séculos, enquanto Barroso oferece uma visão que ordena esses episódios e identifica seus impactos na formação nacional. Juntas, as obras permitem compreender que os embates históricos não apenas acompanharam, mas moldaram estruturas políticas, territoriais e sociais do Brasil. Essa constatação reforça que a memória militar é parte inseparável da própria história nacional, pois evidencia como a defesa do território, a organização das forças e a construção da identidade caminharam lado a lado.

Ao recuperar os fatos e interpretá-los em sua dimensão institucional, Donato e Barroso contribuem para que se reconheça a centralidade das Forças Armadas na trajetória do País, não apenas como protagonistas de episódios decisivos, mas como guardiãs da coesão e da soberania. Assim, a resenha conclui que estudar a história militar é também valorizar a memória coletiva e compreender os fundamentos que sustentam a identidade brasileira, reafirmando o papel das instituições militares na preservação dessa herança e na projeção do Brasil no cenário internacional.

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História

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Excelente artigo 👏 👏 

 

Parabéns pelo texto e por contribuir de forma tão significativa para o debate de ideias!"

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