Guerra cognitiva - o sexto domínio: estamos em guerra?

Autores: Cap R1 Francisco Leonardo dos Santos Cavalcante
Quarta, 18 Março 2026
Compartilhar

A guerra cognitiva não é o meio pelo qual lutamos; é a luta em si. O cérebro é tanto o alvo quanto a arma na luta pela superioridade cognitiva - NORFOLK, VA. [tradução nossa]

Imagine uma guerra cujo Teatro de Operações (TO) apresenta uma porção do território que foge aos cinco domínios já estabelecidos – terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético – onde as ações estratégicas, táticas e operacionais têm sido desencadeadas de maneira síncrona ou assíncrona às ações que ocorrem nos modelos convencionais de conflito. Pense no espaço operacional em que os atores envolvidos – não necessariamente militares – atuam no ambiente subjetivo das percepções, das crenças, dos valores e das concepções de homem, mundo e sociedade não só de cada indivíduo, mas também, coletivamente.

Com efeito, o ambiente acima descrito adiciona um sexto domínio que vem sendo explorado de modo dissimulado, porém, bastante contundente do ponto de vista sistêmico de defesa das nações. Esse novo domínio é o que os especialistas nos estudos dos combates contemporâneos têm denominado de Cognitive Warfare (doravante chamado de Guerra Cognitiva – tradução livre), que utiliza áreas diversas do conhecimento – neurociência, neurotecnologia, Inteligência Artificial (IA), impulsionadas pelas novas tecnologias digitais de informação e comunicação (NTDIC) – em campanhas de desinformação, influência estratégica, produção e disseminação de notícias falsas para atacar um suposto adversário.

Partindo dessa ideia inicial, algumas perguntas surgem como fio condutor para ampliar a compreensão do arcabouço de sustentação da guerra cognitiva em curso, são elas: Como tem sido conceituada a guerra cognitiva? Em que espaço ela se situa? De quais ferramentas se vale? Quem são os principais protagonistas que disputam a primazia desse novo domínio no mundo globalmente interconectado? Quais ações podem ser empregadas para atenuar seus impactos?

Embora empolgante, o assunto ainda é pouco explorado do ponto de vista acadêmico, em especial nas escolas militares, o que leva a fomentar, mesmo de modo introdutório, a sua reflexão com o objetivo de despertar maior interesse por esse domínio e, consequentemente, motivar o aumento da produção literária no âmbito militar. Em uma pesquisa preliminar realizada por este autor em bases de dados nacionais, com a finalidade de encontrar produções científicas de militares ou civis vinculados a organizações militares (Escolas, Centro de Estudo, etc.), usando como descritores as palavras “Guerra Cognitiva”, “Cognitive Warfare” e “CogWar” trouxe como resultado apenas sete títulos, confirmando certa incipiência relacionada ao tema.

Do ponto de vista conceitual é possível verificar diferentes abordagens semânticas para guerra cognitiva, a depender dos referenciais teóricos acessados. No Caderno de Ensino Comunicação Estratégica (EB60-CE-11.001, 1ª Ed. 2023), por exemplo, encontra-se a seguinte concepção:

GUERRA COGNITIVA (Ambiente Acadêmico) - inclui atividades conduzidas em sincronização com outros Instrumentos de Poder, para afetar atitudes e comportamentos, influenciando, protegendo ou interrompendo a cognição individual, grupal ou populacional, para obter vantagem sobre um adversário. A Guerra Cognitiva se concentra em atacar e degradar a racionalidade, o que pode levar à exploração de vulnerabilidades e ao enfraquecimento sistêmico. (BRASIL, 2023, p.121)

Para Bernard e Du Cluzel (2022, p.2), a guerra cognitiva é a arte de usar a tecnologia para alterar a cognição de alvos humanos, que muitas vezes desconhecem tal tentativa, assim como aqueles encarregados de neutralizar, minimizar ou gerenciar seus resultados, cuja reação é muito lenta ou inadequada [tradução nossa].

Nascimento (2023, p.8) recorre a Dahl para firmar o entendimento de que a guerra cognitiva é uma estratégia para afetar o processo de tomada de decisão do inimigo, de forma a atingir uma ou mais fases do ciclo decisório: observação, orientação, decisão e ação (também chamado de ciclo OODA).

Amor (2025, p.5) referindo-se ao Relatório do Centro de Excelência no Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE) menciona que a guerra cognitiva é uma disputa por atenção e confiança, onde vitórias são medidas em minutos de engajamento e não em hectares. De acordo com Valente (2023, p.38), o conceito de guerra cognitiva está relacionado ao de guerra cibernética que usa ferramentas de controle de informação e visa alterar comportamentos ou atitudes.

A partir dessa polissemia conceitual é oportuno situar a guerra cognitiva dentro de um espaço contextual, vale dizer, onde ela se desenvolve. Não obstante, a literatura especializada sequenciar as guerras em razão das diferentes modalidades de conflitos no tempo e no espaço, para alguns estudiosos a guerra cognitiva ocupa a interseção entre os três conceitos de guerra cunhados pelos Estados Unidos, pela Rússia e pela China, atores que protagonizam a disputa por esse novo domínio, que seriam a guerra híbrida, a guerra de nova geração e a guerra irrestrita, respectivamente.

De acordo com Ambros (2024, p.155-156), os conceitos possuem muitas similaridades entre si, mas não são sinônimos, pois cada um incorpora as perspectivas teóricas e doutrinárias de cada país. Nesse viés, o autor assevera que a guerra híbrida é uma forma de guerra não convencional que se insere como categoria intersticial de estratégias de projeção de poder no cenário internacional à disposição dos Estados, posicionada entre a guerra convencional e meios brandos de influência, como diplomacia e cultura.

Já a guerra de nova geração seria o uso ampliado de meios políticos, econômicos, informacionais, humanitários e outros instrumentos não militares, apoiados pela desordem civil entre a população e a utilização de meios militares encobertos. Комлева (2025, p.57) usa o termo intervenções cognitivo-mentais (IMC) como sinônimo de guerra cognitiva, situando-as como uma ferramenta de guerra híbrida que visa transformar a consciência, a identidade e os padrões comportamentais da sociedade. [tradução nossa]

No tocante à guerra irrestrita, Ambros cita que a ideia teria entrado para a doutrina militar chinesa por meio do documento de 2003, “Diretrizes de Trabalho Político do Exército de Libertação Popular”, que implementou o uso do termo “três guerras” (san zhong Zhanfa). [...] a guerra psicológica[...], [...] a guerra de opinião[...], e [...]a guerra jurídica[...] (2025, p.158).

Pontuou-se até aqui o conceito de guerra cognitiva e o espaço em que ela se dá, porém, os instrumentos de que se vale para atingir seus objetivos ainda não foram devidamente explorados. Por se tratar de uma guerra onde o campo de ação possui especificidades que se distanciam do paradigma dos conflitos cinéticos é natural que as ferramentas (“armas” e “técnicas”) empregadas nesse tipo de “combate” sejam as mais variadas possíveis, abrangendo desde um simples smartphone propagador de fake news em redes sociais pelo influencer “Zézinho” de algum lugar do mundo até operações de grande envergadura, desencadeadas por perpetradores bem instruídos no uso de altas tecnologias como armas neurotecnológicas.

Nesse sentido, tanto a multiplicidade dos meios que podem ser usados quanto à diversidade do modus operandi dos atores – estatais e não-estatais – envolvidos na guerra cognitiva favorecem a sortida escolha para o desencadeamento dos ataques furtivos ou declarados contra seus oponentes. Essa singular condição aponta para a possibilidade de mesclar táticas como: […] sobrecarga informacional para causar poluição atencional e distração; geração de conflitos mediante a exploração de ambiguidades; a exploração de estereótipos para inibir as interações entre atores; a destruição da resiliência e da confiança na sociedade; e a demanda por respostas sem tempo para o processamento cognitivo (CLAVERIE, DANYK e BRIGGS apud NASCIMENTO, 2024, p.6).

A exposição cotidiana e massiva aos vetores da guerra cognitiva parece moldar vieses cognitivos. De acordo com Ambros (2024, p.17), vieses cognitivos são erros sistemáticos e repetitivos causados pelo processamento informacional heurístico, que utiliza atalhos mentais e estratégias de simplificação da informação. Esses atalhos mentais evitam esforços cognitivos mais profundos[...] evidenciando o comportamento chamado de “viés de confirmação”, que reforça crenças préexistentes e influencia o julgamento (EVANS, 2008 apud NICHOLS et al, 2023, p.108).

Superadas as questões conceituais, desvelados os campos de atuação, os protagonistas e as ferramentas que suportam a guerra cognitiva e encaminhando para o final, resta, pois, abordar questões prevalentes que equalizam todo o esforço reflexivo feito até aqui. Em que medida nações periféricas ou semiperiféricas têm-se preparado para fazer frente as ações diretas e/ou indiretas que modelam a guerra cognitiva, dado o atraso tecnológico e científico em que a maioria se encontra? Como atenuar os impactos de uma guerra complexa, porém, imperceptível aos olhos da população em geral?

No que se refere ao papel do Estado espera-se que sejam implementadas políticas e estratégias governamentais direcionadas a educar seus cidadãos desde os bancos escolares contra as investidas de uma guerra cujas ações não são explícitas (NASCIMENTO, 2024). Esse também parece ser o encaminhamento dado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), concentrar-se na construção de resiliência de orientação em todos os níveis, desde o treinamento e a educação individual até os processos organizacionais e o engajamento da comunidade civil, militar e de informação (CIVMIL). (DEMARCO, 2025, p.4). [tradução nossa]

Do ponto de vista militar, algumas iniciativas para fomentar o debate têm sido colocadas em prática, a exemplo do Seminário Internacional de Defesa Cognitiva promovido pela Escola Superior de Defesa (ESD) e a II Semana Acadêmica CEP/FDC realizada pelo Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias, eventos que procuraram tratar o assunto de forma objetiva e propositiva, ambos no corrente ano. Todavia, urge manter a impulsão sobre a relevância do tema no âmbito das Forças Armadas para que seus quadros possam estar permanentemente preparados e resilientes aos efeitos de uma guerra que atinge a todos, independentemente da posição que ocupam e das funções que desempenham dentro do ecossistema militar.

Referências:

AMBROS, Christiano Cruz. Guerra Cognitiva e militarização da neurociência: programas de pesquisa em neurotecnologias dos Estados Unidos e da China. Rev. Bras. Est. Def. v. 11, n. 1, jan./jun. 2024, p. 153–180.

AMOR, Frederico Chaves Saloés do. Guerra dos 12 dias: o conflito armado sem fricção entre Israel e Irã marcado pela surpresa, narrativas e fogos de precisão. Revista Eletrônica ANÁLISE – 03/2025.

BRASIL. Exército Brasileiro. Caderno de Ensino – Comunicação Estratégica - 1ª Ed, 2023.

BERNARD Claverie, FRANÇOIS Du Cluzel. Cognitive Warfare”: The Advent of the Concept of “Cognitics” in the Field of Warfare, 2022.

DEMARCO, J. William. The Dialectic of Deception: John Boyd and the Cognitive Battle. Perception. October 2025, Vol 1, Issue 2.

КОМЛЕВА, Валентина Вячеславовна. Когнитивно-ментальные интервенции как инструмент гибридных войн [Intervenções cognitivo-mentais como ferramenta de guerra híbrida], № 2 (15), июнь 2025.

NASCIMENTO, Mário Brasil do. O papel da inteligência estratégica no enfrentamento de guerras cognitivas contra o estado nacional. 2023. Trabalho de conclusão de curso apresentado à Escola Superior de Defesa, Brasília, 2023.

NICHOLS, Giselli Christina Leal et al. A Guerra Cognitiva nas Redes Sociais e suas Implicações para a Segurança dos Estados. Revista da Escola Superior de Guerra, v. 38, n. 82, p. 101-121, jan.-abr. 2023.

VALENTE, Lucas de Carvalho Alcântara. Guerra Psicológica: Difusão de mensagens e manipulação das massas. 2023.

CATEGORIAS:
Ciência e Tecnologia

Comentarios

Comentarios

Muito bom!! Um tema sempre atraente e nos quais rende muitos comentários, a utilização da tecnologia reversa, uma tese que vale a pena estudar. Dentro destes temas acima citados, é a bibliografia apresentada, demonstra que isto já está em prática fora do âmbito escolar, mas dentro dos lares através da comunicação social. 

Vontade de voltar a servir a pátria de novo saudades dos combatentes 

فئات الملاحة

Artigos Relacionados