Este artigo é distinto do que se costuma discutir a respeito dos assuntos de defesa, pois trará como lente teórica a filosofia da ciência, disciplina relacionada a procedimentos metodológicos em graduações de elite e programas de pós-graduação. Para os pesquisadores, discussões metodológicas são saudáveis para o desenvolvimento de seus projetos, de forma que Gaston Bachelard, Karl Popper, Thomas Kuhn, Imre Lakatos e Paul Feyerabend são autores “obrigatórios”. Assim, esta comunicação trará um framework com paralelo à esfera de defesa/soberania, razão de ser do EBlog, o blog do Exército Brasileiro.
Qualquer tentativa coerente de compreender os conflitos contemporâneos implica, inevitavelmente, na necessidade de romper com o senso comum das doutrinas puramente cinéticas. Segundo Bachelard (1993), o conhecimento acumulado pode se converter em um "obstáculo epistemológico", um tipo de lente viciada que nos impede de enxergar fenômenos disruptivos. Na era híbrida, a verdadeira prontidão começa pelo desapego ao que "sempre funcionou", sob o risco de sermos paralisados por uma ambiguidade manejada com maestria por adversários.
A crença na infalibilidade de um plano de campanha é, no fundo, uma armadilha que ignora o rigoroso critério de falseabilidade. Para Popper (2005), o progresso do conhecimento não vem da confirmação, mas do método de conjecturas audazes e engenhosas seguidas de tentativas rigorosas de refutá-las. Se transportarmos essa lógica para o domínio cognitivo, o planejamento estratégico deixa de ser uma peça estática para se tornar uma hipótese viva, que deve ser testada e adaptada conforme a volatilidade do campo de batalha digital se impõe.
Figura 1- A falseabilidade da Estratégia
Fonte: o autor (2026)
Essa urgência adaptativa sugere que não estamos apenas diante de novas armas, mas atravessando uma autêntica transição de paradigma no pensamento de defesa. Kuhn (1997) pontuou com precisão que as crises são um pré-requisito necessário para o surgimento de novas teorias, e o atual descompasso entre as instituições tradicionais e as ameaças invisíveis é o sintoma claro dessa crise. O velho paradigma da guerra industrial, focado no atrito físico, cede espaço à era da influência, onde a vitória real reside na preservação, ou na conquista, da integridade decisória do oponente.
Neste cenário de incertezas profundas, a rigidez metodológica pode ser o caminho mais curto para uma derrota institucional. Feyerabend (2020) provocou o mundo acadêmico ao afirmar que o único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale; uma máxima que descreve com perfeição o modus operandi da guerra híbrida. O adversário contemporâneo já é um "anarquista metodológico" por natureza: ele subverte leis, utiliza algoritmos como artilharia e opera em uma zona cinzenta onde as distinções entre paz e guerra simplesmente deixam de existir.
Figura 2 - O adversário como Anarquista Metodológico
Fonte: o autor (2026)
Para que essa fluidez não desintegre a estabilidade institucional, podemos buscar refúgio nos programas de pesquisa de Lakatos (2014). Ele propõe a existência de um "núcleo firme" (hard core) que permanece protegido por um "cinturão de hipóteses auxiliares", as quais absorvem os choques da realidade e evoluem sem comprometer a essência do sistema. Em contexto militar, implica manter os valores e a missão constitucional como o núcleo imutável, enquanto o cinturão de táticas de influência e defesa cognitiva deve ser flexível, experimental e pronto para o descarte.
Figura 3 – Aplicação do pensamento de Lakatos na esfera militar
Fonte: o autor (2026)
Essa transição exige, em última instância, de liderança que se sinta tão confortável no campo de provas quanto em uma sala de situação, atuando como um "soldado-estrategista do conhecimento". A ciência da guerra pós-moderna aposentou os manuais definitivos em favor de uma vigilância epistemológica constante sobre como a "verdade" é fabricada e distribuída. Atualmente, o domínio cognitivo não é um teatro de operações secundário; é a fronteira final da soberania em um mundo onde a informação é a munição que mais causa baixas estratégicas.
O alerta final vem de Harari (2019), ao prever que, no futuro, quem dominar os dados e os algoritmos não apenas entenderá os seres humanos, mas poderá hackeá-los e decidir por eles. Proteger o domínio cognitivo tornou-se a missão imperativa para assegurar que a autonomia decisória da nação não seja sequestrada por processos invisíveis. O grande desafio no século XXI, portanto, é garantir que o "algoritmo humano" brasileiro permaneça sob o controle e a vontade do seu próprio povo.
Figura 4 – O alvo final: o algoritmo humano
Fonte: o autor (2026)
Este artigo é distinto da produção intelectual anterior do autor, pois articula autores clássicos da filosofia da ciência, como o francês Gaston Bachelard, o austríaco Karl Popper, o estadunidense Thomas Kuhn, o húngaro Imre Lakatos, e o austríaco Paul Feyerabend. Adicionalmente, para as considerações finais, mencionou-se o historiador israelense Yuval Harari. Para finalizar, ao mesmo tempo em que se apresenta o modelo teórico analítico (framework), ressalta-se que a era híbrida exige romper os obstáculos epistemológicos do conhecimento acumulado, a fim de melhor compreender fenômenos disruptivos.
Figura 5 – Modelo Teórico Analítico da Soberania Cognitiva
Fonte: o autor (2026)
REFERÊNCIAS
Bachelard, G. (1993). La formation de l'esprit scientifique: Contribution à une psychanalyse de la connaissance objective. Vrin.
Feyerabend, P. (2020). Against method: Outline of an anarchistic theory of knowledge. Verso Books.
Harari, Y. N. (2019). 21 lessons for the 21st century. Randon House.
Kuhn, T. S. (1997). The structure of scientific revolutions (Vol. 962). Chicago: University of Chicago press.
Lakatos, I. (2014). Falsification and the methodology of scientific research programmes. In Philosophy, science, and history. Routledge.
Popper, K. (2005). The logic of scientific discovery. Routledge.
Comentarios