As Forças Armadas no Primeiro Reinado e a Revolta dos Mercenários de 1828

Autores: Sgt PMERJ Marcelo Mizurine
Segunda, 16 Março 2026
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Introdução

Após o rompimento com a Coroa Lusitana, o agora Imperador do Brasil, Dom Pedro I iniciou uma série de campanhas militares em regiões que resistiam em reconhecer a independência do Brasil e sua legitimidade como líder da nova nação. Para tentar manter a estabilidade do Império, Dom Pedro I enviou tropas do Exército para estas regiões como forma de reafirmar sua autoridade, alegando que qualquer região que tentasse alterar as fronteiras brasileiras se separando do Império sofreria retaliação.

O monarca brasileiro não contava com os interesses políticos das Províncias Unidas do Rio da Prata, atualmente Argentina, na região, e que estas resistiriam ao assédio do Império, tentando então consolidar seu domínio sobre a província Cisplatina e sua cidade mais importante, Montevidéu, em virtude daquela área, naquele momento, anexada pelo Brasil, teria feito parte do extinto Vice-Reino do Rio da Prata. O resultado desta disputa foi a criação de uma nova nação, a República Oriental do Uruguai em 1828, frustrando ambos planos de consolidação de poder na localidade.

Desde o início do Primeiro Reinado (1822-1831), Dom Pedro I enfrentou grandes desafios na manutenção territorial do novo Império. Diversas províncias se rebelaram contra a emancipação, desejando permanecer fiéis a Portugal. Pará, Maranhão e Bahia foram grandes resistências à autoridade do Imperador, gerando grande consumo em recursos materiais e humanos, visto que o Império do Brasil contava com um liliputiano exército. Em 1824, províncias do nordeste, sob a liderança de Pernambuco, rebelaram-se e se autoproclamaram a Confederação do Equador, uma nova nação com ideais liberais em oposição aos ideais absolutistas que Dom Pedro I propusera ao outorgar a primeira Constituição do Brasil. Para enfrentar este desafio, o Imperador solicitou apoio de militares mercenários à Inglaterra.

Os grandes proprietários ligados à D. Pedro I perceberam que o Brasil poderia repetir a América Espanhola e se repartir em inúmeros países. Mas no Brasil havia um centro de poder econômico, político e militar comparativamente muito forte, a capital, o Rio de Janeiro. Foi de lá que o Imperador pediu um empréstimo junto aos ingleses para comprar armas, navios e contratar mercenários britânicos. (SCHMIDT, 2005, p. 347).

A fórmula encontrada pelo monarca para resolução destes problemas em curto prazo, mostrou-se eficaz e favorável ao governo Imperial. As províncias rebeldes não foram capazes de resistir às batalhas contra militares profissionais, com melhores equipamentos, táticas e técnicas e, desta forma, a prática de contar com militares estrangeiros tornara-se usual.

Logo após debelar a Confederação do Equador, o Império se viu diante de outra importante frente de batalha: a Guerra da Cisplatina (1825-1828). Sem um exército regular com efetivo suficiente capaz de enfrentar os argentinos, o Brasil novamente usaria do expediente de contratação de mercenários estrangeiros para compor suas guarnições no combate do sul. Contingentes compostos por ingleses, franceses, portugueses, suíços e majoritariamente, alemães e irlandeses foram recrutados por agentes diplomáticos e comissários, com destaque para o Major alemão Georg Anton von Schaffer, que contratou cidadãos em Hamburgo, Bremen e Lubeck, e o Coronel Willian Cotter, encarregado de recrutar mão de obra em Cork e Dublin, na Irlanda.

A experiência com a chegada destes europeus mostrou-se aos poucos desastrosa. Os estrangeiros vieram para o Brasil com a promessa de bons soldos e terras após o serviço militar obrigatório, habitação e carreira militar estável, todavia, a realidade percebida foi diversa da prometida. Após a longa e desgastante viagem, muitos europeus chegaram doentes, debilitados e desnutridos. Ao desembarcarem, perceberam que o soldo prometido não existia, faltava alimentação e assistência médica, os alojamentos eram improvisados e insalubres, somados ao fato de não compreenderem a língua portuguesa, contribuindo assim para frustração crescente.

As deserções ocorriam em massa, mesmo antes de serem transportados para a Cisplatina. Problemas de indisciplina eram recorrentes, falta de conhecimento do armamento utilizado pelas tropas brasileiras e a questão da barreira linguística que causava confusão ao comando ordenado pelos oficiais, incapazes de lidar com este efetivo, impossibilitaram a utilização destas tropas nas principais frentes de batalha por total desconfiança em sua capacidade.

Em 1828, no centro do Rio de Janeiro, uma sublevação desses efetivos militares que se encontravam na corte teve início, gerando sérios transtornos ao governo. Insatisfeitos com as promessas não atendidas pelo Império, seria “questão de tempo” alguma revolta. Faltava o estopim, e ele aconteceu no dia 09 de junho de 1828.

O motim dos estrangeiros

Uma punição corporal aplicada a um soldado alemão do 2° Batalhão de Granadeiros, situado em São Cristóvão, motivada pela falta da devida continência da praça ao Alferes, na noite anterior, foi a fagulha iniciadora para a batalha campal de três dias, com destruição parcial da cidade e um saldo de pouco mais de duas dezenas de mortos e aproximadamente 50 feridos entre os amotinados. Segundo o periódico “O Censor Brasileiro” do dia 20 de junho de 1828, data posterior ao fato:

Há bastante tempo, que os soldados [grafia atualizada] alemães murmuravam, queixando-se de serem lesados pela administração do Corpo, e castigados com cruel arbitrariedade; porém estas murmurações nunca se formariam em motim, se um castigo repentino que julgaram bárbaro, a par de injusto, não os tivessem exasperado a ponto de esquecerem todas as Leis da subordinação, e disciplina.

(…) O Batalhão de Granadeiros Alemães aquartelado em São Cristóvão, à Parada da manhã, assistiu à punição de um soldado do mesmo Batalhão, camarada do Capitão de Engenheiros Pedro Pezerat, o qual o soldado na véspera à noite não tinha feito continência a um Alferes que rondava. O soldado sabendo, que o seu Capitão andava a pedir seu perdão quis ganhar tempo, recusando tirar as vestes, representando que depois do pôr do sol cessam as continências, além de que não devia haver castigo corporal sem prévio conselho de disciplina. Ele então é acusado de resistência, agarrado, despido, amarrado, e condenado ao quíntuplo da dose. Executada a sentença até se darem duzentas e dez chibatadas (momento em que um Capitão do mesmo Batalhão pediu ao Major, que se não acabasse de matar o infeliz) sobreveio o Capitão Pezerat. Conta-se que o Major dissera em tom irônico ao Capitão Pezerat “agora o seu camarada está perdoado”. (…) Neste momento os soldados romperam as fileiras com gritos, e ameaças contra o Major, correndo em bando à Imperial Quinta para se queixarem. S. M. I. não os quis ouvir, mandando dizer que tal ajuntamento tinha caráter sedicioso, mas atenderia suas queixas se fossem fundadas. (O CENSOR BRASILEIRO, 20 jun. 1828).

Diante desta quantidade colossal de chibatadas, e existir uma contraordem cancelando a punição, a tropa se amotina e inicia a depredação do quartel. Como relatado no jornal, a tropa segue para tentar uma audiência com Dom Pedro I, que não os recebe, mas promete analisar se são justas as causas reivindicadas: soldos pagos em dia, definição de tempo de serviço, fim de castigos corporais e tratamento igualitário entre alemães e irlandeses. Mesmo com a promessa de resolução das exigências, os militares estrangeiros, muitos sob efeito de bebidas alcoólicas, decidem não retornar ao aquartelamento e resolvem saquear a cidade.

Informados dos recentes acontecimentos, no dia 10 de junho de 1828, o 28° Batalhão de Caçadores, composto por irlandeses e localizado na Praia Vermelha, se subleva assassinando um major da unidade, conforme podemos observar em publicação de uma carta datada do dia 20 de junho, escrita pelo Sr. Francisco Cordeiro de Silva Torres, o Conde do Rio Pardo no “Diário Fluminense”, em edição de 26 de junho de 1828.

O resto deste dia se passou com a repetição de novos excessos, chegando estes a tal ponto, que [grafia atualizada] espancaram um Capitão, e o Alferes Ajudante, lançando também fogo aos trastes e portas das casas em que habitavam o Major, e alguns outros oficiais; e quando eram onze horas da noite recebi um ofício do Coronel Mac Gregor, Comandante do Batalhão 28 de Caçadores, estacionado na Praia Vermelha, no qual participava que alguns soldados do Batalhão, envolvidos com irlandeses amotinados, haviam matado o seu Major às sete horas da mesma noite, sem que todavia o Corpo pegasse em armas, depois do que ficara tudo em sossego. (DIÁRIO FLUMINENSE, 26 jun. 1828).

No dia 11 de junho, a revolta chega em sua fase mais crítica. Mais um batalhão se amotina, o 3° Batalhão de Granadeiros Irlandeses. Eles marcham em direção ao Palácio de São Cristóvão, mas são repelidos pela guarda palaciana composta por alemães fiéis ao Imperador. Na ação, cerca de 200 irlandeses são repelidos deixando um saldo de três mortos e alguns feridos. A morte de irlandeses por efetivo alemão gerou um efeito em cadeia após a divulgação deste fato. Às 15h15min militares irlandeses assassinaram um soldado alemão do 2º Batalhão de Granadeiros nas imediações do Campo da Aclamação (atual Campo de Santana) e “espancando e ferindo outros muitos” (DIÁRIO FLUMINENSE, 1828, p. 566).

Com a desordem instaurada, coube ao Conde do Rio Pardo organizar a resistência para debelar a situação de caos que se encontrava na corte. Os irlandeses motivados pela morte dos patrícios, por volta das 15h30min, saíram ao Campo da Aclamação, armados, atacando todos que passassem pela localidade. O Conde reuniu um grupo de oficiais para conter os amotinados, e ordenou aos Corpos de Artilharia de Posição, ao Esquadrão de Minas e ao Batalhão de Caçadores n° 24 que enfrentassem os revoltosos. O Conde solicitou apoio da Cavalaria da Guarda Real de Polícia, atual PMERJ, e a ordem era fazer os amotinados retraírem para suas Unidades. Os estrangeiros destruíam tudo pelo caminho, casas, comércios, concentrando as ações em maior parte na Rua Larga de São Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano. Com superioridade bélica, as Forças Armadas Imperiais conseguiram conduzir os revoltosos para os batalhões de origem. Em seguida, o Conde do Rio Pardo ordenou o corte das comunicações dos batalhões dos estrangeiros. Com a cidade retornando à normalidade, o comandante reorganizou os efetivos para dar maior sensação de segurança, posicionando duas peças de artilharia na ponte do Catete e movimentando tropas sob o comando do Brigadeiro Lima, pai do futuro Duque de Caxias, com a ordem de qualquer movimento dos estrangeiros na Praia Vermelha, deveria o oficial marchar com seus comandados para Botafogo com a finalidade de evitar que os revoltosos pudessem novamente ocupar o centro da cidade.

O Imperador ainda solicitou apoio de militares estacionados na Baía da Guanabara, o que foi prontamente atendido por franceses e britânicos, contudo, já não se faziam mais necessários, o último efetivo amotinado – o 3° Batalhão de Granadeiros – se rendeu no dia 12 de junho de 1828. Nos dias 13 e 14, os revoltosos foram organizados e embarcados com destino à Cisplatina.

Este evento mostrou a necessidade do Império do Brasil ter um exército permanente e sem depender de elementos externos para garantir sua soberania. Poucos anos depois foi criada a Comissão de Melhoramentos do Material do Exército (1849), o que contribuiu significativamente para sucessos nas campanhas futuras contra Oribe e Rosas (1851-1852) e a Guerra do Paraguai (1864-1870).

Referências Bibliográficas

DIÁRIO FLUMINENSE. [Título não informado]. Rio de Janeiro, 26 jun. 1828, p. 563. Disponível em: Hemeroteca Digital Brasileira. Acesso em: 02 dez 2025.

O CENSOR BRASILEIRO [Título não informado]. Rio de Janeiro, 20 jun. 1828, p. 1. [Disponível em: Hemeroteca Digital Brasileira. Acesso em: 02 dez 2025.

SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica: volume único. São Paulo: Nova Geração, 2005. p.347.

CATEGORIAS:
História

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