A visão de um Comandante de Organização Militar sobre o exercício do cargo de adjunto de comando

Autor: CORONEL R/1 PAULO CESAR BESSA NEVES JÚNIOR
Quarta, 22 Abril 2026
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1. Introdução

A experiência acumulada como Comandante da Escola de Instrução Especializada (EsIE), entre 2017 e 2018, permitiu-me compreender que o exercício do comando não se sustenta apenas na autoridade formal, mas, sobretudo, na capacidade de liderar pessoas, integrar esforços e transformar diretrizes em ações concretas. Nesse contexto, o cargo de Adjunto de Comando apresenta-se plenamente alinhado às Diretrizes do Comandante do Exército, especialmente no que se refere ao fortalecimento das ações voltadas ao bem-estar da Família Militar, à ampliação da coesão e da satisfação do público interno, bem como ao aperfeiçoamento da gestão do pessoal e à valorização do mérito profissional.

2. O papel organizacional do Adjunto de Comando

No âmbito da Organização Militar, o Adjunto de Comando atua como braço direito do comandante, funcionando como elo permanente entre o Comando e a tropa. Sua atuação vai além do assessoramento administrativo, assumindo caráter organizacional ao contribuir diretamente para a disciplina, a coesão, o ambiente organizacional e a eficiência dos processos internos.

Quando comandei a EsIE, contei com dois adjuntos cujas atuações se revelaram fundamentais para manter a unidade alinhada com os princípios e objetivos da Força. Suas características — visão institucional, capacidade de antecipar necessidades e habilidade de traduzir intenções em ações — foram decisivas na condução dos processos de instrução e ensino da Escola.

3. Alinhamento com o comandante e capacidade de liderança

Para que o Adjunto de Comando cumpra plenamente sua missão, é imprescindível que esteja em absoluto alinhamento com o comandante da Organização Militar. Tal alinhamento exige o conhecimento não apenas da intenção do comandante, mas também de sua forma de liderar e de sua personalidade, permitindo que o Adjunto de Comando atue com coerência, lealdade e unidade de pensamento.

A influência pelo exemplo sobre os subordinados demanda do Adjunto de Comando sólida capacidade de liderança. Para tanto, faz-se necessário o estudo contínuo da literatura especializada e a observância das orientações constantes na Diretriz Estratégica de Ética Profissional e de Liderança Militar do Exército Brasileiro 2024-2027

(EB20-D-01.096) e na Diretriz para a Sistematização das Ações Voltadas ao Fortalecimento da Ética Profissional e ao Desenvolvimento da Capacidade de Liderança Militar, no âmbito do Sistema de Educação e Cultura do Exército (EB60-D-05.007), 3ª Edição, 2025.

4. O Adjunto de Comando e o combate à desinformação

O ambiente informacional contemporâneo caracteriza-se pela velocidade, pelo volume e, muitas vezes, pela ausência de filtros na disseminação de conteúdos. Nesse contexto, a desinformação e as chamadas fake news passaram a representar não apenas um desafio social, mas também um risco concreto à coesão, à disciplina e à credibilidade das Organizações Militares.

Cabe ao Adjunto de Comando, em estreita coordenação com o comandante, exercer papel relevante na orientação da tropa quanto ao uso consciente da informação, atuando preventivamente para mitigar os efeitos da propagação de boatos, informações distorcidas ou conteúdos que possam gerar insegurança, desalinhamento institucional ou quebra da confiança interna.

Por sua proximidade com os diferentes escalões e, pelo elevado grau de credibilidade que deve ser construído junto aos praças, o Adjunto de Comando encontra-se em posição privilegiada para identificar sinais precoces de desinformação, compreender suas origens e avaliar seus possíveis impactos no ambiente organizacional. Essa atuação exige equilíbrio, discernimento e profundo senso institucional, evitando tanto a omissão quanto ações precipitadas que possam ampliar o problema.

Mais do que reprimir, o combate à desinformação demanda educação, esclarecimento e comunicação clara. Nesse sentido, o Adjunto de Comando deve estimular a verificação de fontes, reforçar os canais oficiais de comunicação da Força e orientar os militares sobre a responsabilidade individual no compartilhamento de informações, especialmente em ambientes digitais e redes sociais.

Ao atuar dessa forma, o Adjunto de Comando contribui diretamente para a preservação da disciplina consciente, para o fortalecimento da confiança no Comando e para a manutenção de um ambiente organizacional saudável. Assim, o enfrentamento da desinformação deixa de ser uma ação pontual e passa a integrar um esforço permanente de liderança, alinhado aos valores éticos, à cultura institucional e ao compromisso com a verdade.

5. Experiências pessoais e impactos identificados

a. Integração de processo e missão

Os Adjuntos de Comando com quem tive a honra de trabalhar demonstraram que a integração entre o planejamento e a execução é vital para o sucesso institucional. Eles foram capazes de interpretar as diretrizes estabelecidas, antecipar desafios e coordenar respostas efetivas, promovendo uma transição fluida entre o planejamento e a ação.

b. Comunicação eficaz

Um Adjunto de Comando eficiente atua como ponte na comunicação entre o comando e os subtenentes, sargentos, cabos e soldados. Dessa forma, informações complexas são transmitidas com clareza, evitando ruídos que comprometam a execução de ordens e instruções.

c. Liderança e influência

Além da competência técnica, os adjuntos apoiaram os processos de formação de sentido e motivação dos militares. Sua presença e postura contribuíram para uma atmosfera de profissionalismo, responsabilidade e coesão — alicerces para que a instrução militar se desenvolva com excelência.

d. Apoio à tomada de decisão

Nas situações que exigiram respostas rápidas, seu preparo permitiu análises criteriosas, sustentadas no conhecimento doutrinário e na compreensão prática da realidade da EsIE. Essa capacidade de apoiar, em todos os escalões, a tomada de decisão sob pressão constituiu diferencial fundamental.

6. Expectativas do comandante em relação ao Adjunto de Comando

Espera-se do Adjunto de Comando apoio efetivo à liderança, atuação como exemplo de disciplina e comportamento, comunicação eficaz, gestão do moral e do bem-estar da tropa, lealdade na transmissão das diretrizes do Comando, preservando integralmente a intenção do Comandante, fiscalização das normas, suporte logístico e administrativo, mediação de conflitos, apoio à instrução militar e às operações, bem como incentivo ao desenvolvimento profissional dos subordinados.

7. Conclusão

O Adjunto de Comando coopera para o correto entendimento e a execução de todas as ordens, diretrizes e orientações emanadas do comando da Organização Militar, contribuindo diretamente para o bem-estar, ampliando a coesão e a satisfação do público interno. Sua atuação qualificada representa fator decisivo para a eficácia do comando e para o fortalecimento institucional do Exército Brasileiro.

A atuação do Adjunto de Comando constitui verdadeira força multiplicadora de resultados, essencial para que o comandante possa exercer seu papel com maior efetividade e alcance. Os aprendizados colhidos ao longo da experiência na EsIE reforçam que investir no preparo e na valorização desses profissionais não é apenas uma questão de eficiência, mas de sustentação da capacidade de comando e liderança na Força Terrestre.

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