Estamos nos últimos dias do mês de abril de 1945. A saga da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial se aproxima do fim. Aquele 15 de setembro de 1944 já parece uma data distante, quando o batismo de fogo do pracinha marcou sua busca incessante pelo contato com o inimigo, ao longo do vale do Serchio, até alcançar as primeiras resistências da famosa Linha Gótica. Cada momento vivido no ardor do combate parece uma eternidade, dizia o soldado brasileiro, que estoico supera tudo, irradiando sua costumeira inventividade e bom humor para vencer os rigores de um inédito inverno europeu e ultrapassar os mais variados obstáculos.
Em 21 de fevereiro de 1945, o Monte Castello foi finalmente conquistado, após quatro tentativas, tornando-se o símbolo máximo da resiliência, da abnegação e da coragem do expedicionário na guerra. Quase dois meses depois, no dia 17 de abril, a Bandeira do Brasil tremulou vitoriosa no ponto mais alto de Montese. A mais sangrenta das batalhas da FEB sinalizava, igualmente, a ruptura completa da defesa ítalo-germânica nos Apeninos. A planície do Pó, a partir de então, se descortina para os Aliados e começa uma verdadeira corrida contra o tempo.
De acordo com a denominada Operação Grapeshot, coube ao 5° Exército Americano, maior escalão enquadrante do contingente brasileiro, a missão de barrar a retirada das tropas do Eixo, antes que pudessem se evadir da Itália, por meio do Passo de Brenner. A fase do aproveitamento do êxito na Itália seguia, pois, a pleno vapor. Ressalta-se que este tipo de operação ofensiva é desencadeada imediatamente após um ataque bem-sucedido, com o propósito de potencializar a desorganização do inimigo, evoluindo para a perseguição, cerco, destruição ou captura das forças adversárias. Especificamente neste caso, os germânicos, em flagrante debandada, rumavam principalmente para a Áustria.
Bologna, que de início era o objetivo aliado a ser conquistado “para o Natal de 1944”, só agora estava libertada. Seguiam sendo paulatinamente livradas das amarras nazifascistas outras importantes cidades: Verona, Pádua e Veneza, esta última no dia 21 de abril de 1945. Fruto do rápido avanço, os partisans italianos, membros da resistência e que operavam por meio de sabotagem, espionagem e ataques surpresa, desencadearam uma revolta generalizada no norte da Itália, retomando Gênova, no dia 25 do mesmo mês.
Neste momento, as tropas germânicas tronavam-se progressivamente isoladas em diferentes pontos da Planície do Pó, padecendo envoltas em um cerco cada vez mais estreito, seja pela falta de meios de transportes, seja pela carência de munição e outros problemas logísticos. O IV Corpo de Exército (IV C EX), pertencente ao 5º Exército e ao qual a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB (1ª DIE) estava diretamente subordinada, se deslocava acompanhando a costa italiana do mar da Ligúria. Dentro desta ideia de manobra, coube aos febianos realizar o movimento rumo à Turim, passando por Parma e suas cercanias (as localidades de Colecchio e Fornovo), o que ocorreu efetivamente a partir de 23 de abril.
A cidade de Parma dista cerca de 120 km de Montese, por estradas, havendo sido percorrida pela 1ª DIE no prazo impressionante de uma semana, algo inimaginável, não fosse a fase da guerra. Ao sul de Parma, estão as localidades de Colecchio e Fornovo, respectivamente a 22 e 38 km de distância, pela via SS 62. Informações obtidas por meio da Inteligência do IV C Ex davam conta da presença de milhares de combatentes e veículos blindados alemães nas cercanias de Parma, implicando a necessidade de uma rápida ação por parte do contingente brasileiro.
Imagem 1 - Esboço das operações da FEB na Itália, modificado pelo uso do Gemini.
Fonte: https://historiamilitaronline.com.br/index.php/2020/10/25/a-feb-e-a-sua-grande-atuacao-na-rendicao-alema-em-fornovo-di-taro/
Deste feita, o 6° Regimento de Infantaria (6º RI), que integrava a 1ª DIE, sob a competente liderança do seu Comandante, o Coronel Nelson de Melo, articulou-se para o emprego, da seguinte forma: o I Batalhão, atuando na direção de Montecchio; o II Batalhão, para agir em San Michelle; o III Batalhão, seguindo rumo a Bosconcello; e o Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Capitão Plínio Pitaluga, com a tarefa de realizar a flancoguarda oeste de todo o Regimento. No dia 26 de abril de 1945, os expedicionários estabeleceram o contato com o inimigo e os ataques se sucederam. No dia 28, os embates já se alastravam por toda a frente.
Ao final daquele mesmo dia, a presença do Major Kuhn no posto de comando do 6º RI marcava o início da rendição alemã aos febianos. A partir de então, foram estabelecidas as tratativas e as providências correspondentes, para que o inimigo fosse apresentando nos locais determinados. A maioria dos alemães capturados eram da 148ª Divisão de Infantaria e da 90ª Divisão Panzergrenadier (infantaria blindada). Os italianos, eram oriundos da Divisão Bersaglieri.
O contorno final da rendição foi dado por números realmente impactantes: quase 15.000 combatentes; 4.000 cavalos; 2.500 viaturas; e 80 obuses de diversos calibres. As atividades transcorreram sem intercorrências e os materiais foram entregues ordenadamente. Ao longo do processo, os adversários tiveram tratamento digno e lhes foram dispensados os cuidados necessários de saúde e bem-estar, característica ética e de nobreza sempre presente no combatente brasileiro, como sua marca registrada. O primeiro comandante a se entregar foi o General Mário Carloni, seguido pelo General Otto Fretter-Pico, que foram entregues ao General de Brigada Falconiére da Cunha, para serem conduzidos à presença do General de Divisão Mascarenhas de Moraes e seguirem destino para Florença. No dia 30 de abril, estava tudo encerrado.
Na fase final da Campanha da Itália, a FEB, mais uma vez, demonstrou sua capacidade de se adaptar e cooperar efetivamente com outros exércitos estrangeiros, a despeito de diferenças culturais e de idioma, em um ambiente de respeito e confiança mútuas. A Rendição de Colecchio-Fornovo, como passou para a história este memorável acontecimento, foi a maior ocorrida em todo o Teatro de Operações do Mediterrâneo, em termos de contingente.
A FEB, em realidade, colaborou de maneira significativa para a vitória aliada na fase final da campanha, conquistando paulatinamente a confiança dos escalões superiores, como expressão justa do reconhecimento ao mérito e ao esforço do soldado de Caxias. O orgulho refletido no olhar de cada veterano, o brilho das medalhas de bravura pendentes no peito e, sobretudo, a consciência tranquila de quem jamais economizou uma gota sequer de suor e de sangue, em prol da liberdade e da democracia, são as credenciais definitivas que escrevem na pedra o valor do combatente brasileiro. É dever cívico e militar lembrar a cada ano estes feitos maravilhosos da história do País. A cobra segue fumando e os heróis expedicionários jamais serão esquecidos.
Imagem 2 - General alemão Otto Fretter-Pico (cabeça baixa), Comandante da 148ª Divisão de Infantaria, se entregando ao General de Brigada febiano Falconiére.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Fornovo_di_Taro#/media/Ficheiro:For%C3%A7a_Expedicion%C3%A1ria_Brasileira_-_Aprisionamento_da_148%C2%AA_Divis%C3%A3o_Alem%C3%A3,_comandada_pelo_major_general_Otto_Fretter_Pico,_pela_For%C3%A7a_Expedicion%C3%A1ria_Brasileira_(3).jpg
Imagem 3 - Military Police (MP) brasileiro, da Companhia de Polícia Militar da FEB, na guarda de prisioneiros de guerra alemães, no final de abril de 1945.
Fonte: Bellisi, W. Batagglie sul Crinale, Golinelli Editore 2005.
Imagem 4 – Soldados alemães (alguns muito jovens), durante a rendição em Fornovo, juntos a um oficial da FEB, com o seu distintivo icônico da “Cobra Fumando” no braço esquerdo.
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