A LIDERANÇA PELO TREINAMENTO FÍSICO: VÁRIAS REALIDADES E UM OBJETIVO

Autor: TC Lima Júnior
Sexta, 03 Abril 2026
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Recentemente, em 2025, esteve estampada nas manchetes dos principais jornais do mundo a notícia sobre uma palestra do Secretário de Defesa ou Da Guerra dos EUA, o Sr. Pete Hegseth, na qual ele aborda diversos aspectos sobre a condição de saúde física dos militares americanos.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, criticou duramente os oficiais e afirmou que as iniciativas de diversidade nas Forças Armadas levaram a "décadas de decadência" em um discurso nesta terça-feira (30). (G1, 2025)

Em um encontro com quase 800 líderes de alta patente de todas as tropas americanas, na Base do Corpo de Fuzileiros Navais de Quântico, no estado da Virgínia, o secretário de Trump disse ainda que quem não apoiasse sua agenda deveria renunciar às patentes. (G1, 2025)

Anteriormente a essa atividade com sua tropa de oficiais do Alto Escalão das Forças Armadas dos EUA, o Sr. Pete Hegseth já aparecia em inúmeras Bases Militares, porta-aviões, navios e até submarinos realizando o treinamento físico com os militares, por todo os EUA e ainda no exterior. É nesse contexto, e após se apresentar como entusiasta e defensor do vigor físico, tão importante na carreira das armas, que ele veio a realizar tal declaração, um tanto quanto polêmica e agressiva, conforme a percepção de alguns.

No Brasil, os comandantes de diversos níveis, desde o mais alto (Cmt EB e Oficiais-Generais) até as menores frações do Exército Brasileiro, possuidores ou não de cursos operacionais, realizam suas inspeções e visitas às unidades militares por todo o território nacional, conduzindo seções de Treinamento Físico Militar (TFM) junto aos seus subordinados, conforme se pode visualizar em inúmeras publicações nas mídias sociais das OM do Brasil.

Os Comandantes militares, assim como o Secretário Sr. Pete Hegseth, que é militar da reserva ativa que serviu na Guarda Nacional do Exército dos EUA, com passagens pelo Iraque, Afeganistão e Guantánamo, são entusiastas da atividade física. Eles utilizam o Treinamento Físico como parte do desenvolvimento de atributos de liderança militar, permitindo que o exemplo, pela execução, possa servir como forma de cobrança para seus subordinados.

A liderança militar no Exército Brasileiro busca desenvolver capacidades de comando, decisão e exemplo pessoal e inabalável, referenciadas pelo Manual de Campanha C 20-10 – Liderança Militar, que disciplina princípios, valores e práticas de condução de tropas em contextos operacionais, administrativos e institucionais. Paralelamente, a educação física compõe um elemento essencial da formação do soldado de Caxias, como previsto no Manual de Campanha EB70-MC-10.375 – Treinamento Físico Militar (5ª ed., 2021), que padroniza a atividade e treinamento físico para manutenção da saúde, aptidão operacional e capacidade de tomada de decisões. Juntas, liderança e preparo físico contribuem para a prontidão, resiliência e eficácia dos militares, fortalecendo a coesão e o desempenho da Força Terrestre.

Segundo o nosso Manual de Liderança Militar, o C 20-10:

APTIDÃO FÍSICA

a. A aptidão física de um militar é o somatório da boa saúde e de um adequado preparo atlético.

b. Um comandante que não desfruta de boa aptidão física dificilmente conseguirá a confiança e a liderança de seus subordinados, porque não é um bom exemplo.

c. É amplamente reconhecido o valor do treinamento físico para a manutenção da boa forma do corpo e da mente. O treinamento físico militar, executado em conjunto com método e hábitos saudáveis, é o segredo para adquirir boa aptidão física, fundamental para uma liderança eficaz.

É nesse contexto que os Comandantes se amparam para exercer a sua liderança, pela execução de atividades físicas de TFM, nas Organizações Militares (OM) que visitam. Segundo o próprio Manual C 20-10, está claramente escrito que o militar, Cmt de qualquer fração, que não possui uma condição física boa, não será um bom exemplo para seus subordinados. Assim, buscam a manutenção de uma boa condição física diretamente relacionada à composição corporal, corpo atlético e capacidade de executar ações básicas e rotineiras de combate com a tropa.

Nesse sentido, os comandantes que possuem elevado condicionamento físico, em todos os níveis, destacam-se por uma liderança militar baseada no exemplo, na disciplina e na valorização da atividade física como basilar para a prontidão da tropa. Em visita às OM, ressaltaram que o condicionamento físico fortalece a coesão, a resiliência e a capacidade operacional das unidades, destacando a importância da presença do comandante junto aos militares, inclusive em relação aos Oficiais-Generais.

Ressalta-se que, por ocasião do dia 1º de setembro de 2025, foi publicado um outro artigo de opinião, também aqui no EBLOG, com o título "Atividade Física x Síndrome Metabólica: mitos e verdades nesse 1º de setembro", no qual foi reforçada uma espécie de "desmistificação" em relação a alguns métodos de treinamento, além de abordar a temática da Síndrome Metabólica, mal que assola a sociedade brasileira e, por analogia, nossos militares.

Naquele artigo, de 1º de setembro de 2025, Dia do Educador Físico no Brasil, louvamos a tradição dos nossos Educadores Físicos, formados na excelência da Escola de Educação Física do Exército, que muito contribuem para a manutenção das condições de saúde e o bem-estar físico dos militares do Exército Brasileiro. No referido artigo, foi questionado:

Mas, e o equilíbrio de tudo? Já combatemos os MITOS, mas indago para essa questão da VIDA EM EQUILÍBRIO! Saúde, bem-estar, atividades físicas, atividades pessoais, atividades profissionais estarão sempre entrelaçadas no conjunto maior que é VIVER BEM E FELIZ! Devemos buscar sempre qualidade de vida, saúde e longevidade, com a utilização de todos os instrumentos para esse fim!

Por fim, sejamos saudáveis em todos os aspectos da vida, utilizando a ATIVIDADE FÍSICA para vencer a SÍNDROME METABÓLICA e permitir que a SAÚDE seja o melhor remédio para todos nós militares e família militar!

Por sua vez, o Manual de Treinamento Físico Militar, o EB70-MC-10.375, reforça alguns aspectos importantes relacionados à liderança militar:

A RELAÇÃO ENTRE O ESTADO FÍSICO E A EFICIÊNCIA PROFISSIONAL DO MILITAR

O militar fisicamente apto estará constantemente preparado para suportar diferentes agentes estressores que, por vezes, são evidenciados durante o combate, sejam eles físicos, psicológicos, ambientais, nutricionais, entre outros.

O adequado condicionamento físico da tropa para o cumprimento da missão é de inteira responsabilidade do comandante.

Então, destaca-se o termo "militar fisicamente apto", que pode ser "traduzido" a partir do exposto em nossos regulamentos e na própria Portaria nº 850-EME, de 31 de agosto de 2022, que estabelece a Diretriz para a Avaliação Física do Exército Brasileiro, definindo os padrões de desempenho físico e os testes para a avaliação. Nesse sentido, é de obrigação dos comandantes dar todas as condições para o militar atingir o objetivo contido no termo "apto"; o que é diferente da menção obtida, relacionada à performance do militar. Dessa forma, dependendo da OM em que o militar esteja servindo, sendo PED, PAD ou PBD, o "apto", a suficiência, será, respectivamente, MB, "B" e "R". A liderança do comandante estará em proporcionar ao seus subordinados condições de estarem aptos e, até mesmo, em incentivá-los por meio da sua conquista.

Os seguintes Padrões de Aptidão Física são exigidos no EB (BRASIL, 2022):

- Padrão de Aptidão Física Inicial (PAFI);

- Padrão Básico de Desempenho Físico (PBD);

- Padrão Avançado de Desempenho Físico (PAD); e

- Padrão Especial de Desempenho Físico (PED).

Em relação à suficiência, o militar, conforme a peculiaridade de sua OM, terá o seguinte padrão mínimo (BRASIL, 2022):

O padrão mínimo para a suficiência no PBD será o limite inferior do conceito Regular (R), nas tabelas dos OII avaliados.

O padrão mínimo para a suficiência no PAD será o limite inferior do conceito Bom (B) nas tabelas dos OII avaliados.

O padrão mínimo para a suficiência no PED será o limite inferior do conceito Muito Bom (MB) nas tabelas dos OII avaliados.

A execução do TFM é uma das maneiras para desenvolver a liderança militar por parte dos Cmt OM e Cmt frações. Não é de se espantar o interesse dos comandantes pelo TFM, utilizando essa ferramenta para demonstrar o exemplo e, ainda, exigindo a melhor condição física por parte de seus subordinados junto às tropas. Literalmente, ele está executando ações previstas no Manual e levando a outro patamar a relação de Liderança Direta prevista no Manual de Liderança. Liderar pelo exemplo é uma virtude das mais louváveis e importantes para o verdadeiro LÍDER!

Até no ambiente corporativo, a atividade física está relacionada à capacidade de liderança. Em artigo com o título em inglês de "Is there a link between being a great leader and physical activity?", traduzido para "Existe alguma ligação entre ser um ótimo líder e praticar atividade física?", o Leadership Choice aborda a questão do desenvolvimento de atributos básicos de liderança relacionados à execução da atividade física. De acordo com o referido artigo:

Diversos estudos  exploraram a relação entre atividade física e desempenho de liderança. Os resultados indicam que a atividade física regular pode melhorar a concentração e o foco, reduzir o estresse e aumentar a autoestima. Todos esses atributos são essenciais para ser um líder eficaz. (Bosworth, 2023)

Além disso, o exercício físico proporciona aos líderes uma oportunidade de interação social — algo que pode ser difícil quando se trabalha em ambientes isolados, como escritórios corporativos ou locais remotos. A interação social permite que as pessoas compartilhem ideias, construam relacionamentos com colegas e obtenham insights sobre diferentes perspectivas. Isso pode ajudar os líderes a desenvolver melhores habilidades de resolução de problemas e tomada de decisões, essenciais para uma gestão bem-sucedida. (Bosworth, 2023)

O pesquisador, Coronel Marcus Aurélio de Albuquerque Pinto, em sua monografia de conclusão do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra, abordou alguns aspectos referentes à liderança em Grandes Comandos da Força Terrestre, no qual realizou a seguinte afirmação:

De igual maneira, quando o Cmt procura ocasiões onde possa estar mais próximo de seus comandados, como participar de um evento pitoresco, desde uma refeição, formatura, marcha a pé, treinamento físico ou qualquer outra atividade corriqueira, permite evidenciar esse cuidado, fortalecendo o vínculo de liderança para com os subordinados, em especial com aqueles sob sua liderança indireta.

Assim, fica evidente que este autor (PINTO, 2021) destaca o treinamento físico como uma forma de exercer a liderança direta sobre o Cmt subordinado e indireta sobre a tropa como um todo, assim como é executado pelos Comandantes em suas visitas de inspeção.

Já o Manual de Doutrina Militar Terrestre (DMT) reforça aspectos importantes acerca da condição física relacionada à liderança e à capacidade de execução de tarefas:

Comandantes competentes, informados e dotados de iniciativa e coragem física e moral são capazes de extrair o melhor resultado do pessoal e dos sistemas de combate colocados sob seu comando.

Sendo assim, o treinamento físico é uma das mais importante formas para um comandante exercer a sua liderança. Aliado a isso, líderes/gestores/comandantes como o Secretário de Defesa americano, os comandantes militares e CEO de empresa exercem tal atividade como forma de aproximação junto aos seus subordinados/colaboradores e de perpetuação de aspectos como a coragem física, resiliência, entre outros, impactando diretamente na moral da organização. Que esses exemplos de liderança perpetuem ainda mais na Força Terrestre, em todos os níveis, para a manutenção da saúde mental de todos.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Defesa. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Manual de Campanha C 20-10 – LIDERANÇA MILITAR, 2.ed. Brasília, DF: MD, 2011.

BRASIL. Ministério da Defesa. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Manual de Fundamentos EB20-MF-10.102 – Doutrina Militar Terrestre. Brasília, DF: MD, 2014.

BRASIL. ESTADO MAIOR DO EXÉRCITO. Manual de campanha EB70-MC-10.375: Treinamento Físico Militar, 2021.

BRASIL. ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO. PORTARIA – EME/C Ex Nº 850, de 31 de agosto de 2022. Ementa: Diretriz para a Avaliação Física do Exército Brasileiro (EB20-D-03.053), 2022.

PINTO, Marcus Aurélio de Albuquerque. Desenvolvendo a capacidade de liderança dos chefes militares no comando de grandes unidades do Exército Brasileiro: uma visão contemporânea. 2021.

https://www-leadershipchoice-com.translate.goog/link-between-being-a-great-leader-and-exercise/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc - PATRICK Bosworth, 2023

G1. Secretário de Defesa dos EUA critica “generais gordos” e iniciativas de diversidade nas Forças Armadas. G1, 30 jan. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com. Acesso em: 19 jan. 2026.

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Comentarios

Comentarios

Ele é um sujeito que valoriza a liderança direta, fruto da sua experiência como oficial subalterno na Guarda Nacional. Me parece que fica desconfortável com a liderança estratégica que seu cargo exige, que deve ser exercida de forma indireta por intermédio de seus subordinados uniformizados.

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