200 anos do início da Guerra da Cisplatina

Autores: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 09 Janeiro 2026
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O dia 10 de dezembro de 2025 marcou os 200 anos do início de um conflito que, até os dias atuais, gera rivalidades entre os partícipes: a Guerra da Cisplatina.

Antecedentes

As raízes remotas do antagonismo luso-espanhol na foz do rio da Prata datam de 1680. Naquele ano, mais precisamente no dia 28 de janeiro, Dom Manuel Lobo, cumprindo ordens do regente português Dom Pedro1, tomou posse de uma nesga de terra situada à margem esquerda do rio, em frente a Buenos Aires, denominando-a Colônia do Santíssimo Sacramento.

A partir de então, portugueses e espanhóis disputariam a região ao longo dos próximos séculos, gerando os Tratados de Utrecht (1715), Madri (1750), Pardo (1761), Santo Idelfonso (1777) e Badajoz (1801).

Ao termo do último acordo, a presença portuguesa havia sido varrida das margens da desembocadura do Prata. Naquele momento um personagem exógeno, de forma atravessada, reavivou as pretensões lusitanas: Napoleão, inconformado com a tíbia adesão de Portugal ao Bloqueio Continental imposto à Inglaterra, invadiu aquele país em 1807, ocasionando a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil.

De início, aliado aos soberanos espanhóis na tomada do reino português, o Imperador dos Franceses destronou o antigo coligado em maio de 18082 e pôs no trono da Espanha seu irmão José.

O efeito dessas convulsões ibéricas logo se fez sentir nas possessões americanas.

Nas colônias espanholas do Vice Reinado do Rio da Prata3, onde o separatismo andava adiantado, a ilegitimidade do novo monarca foi catalisador dos movimentos de independência, dividindo seus habitantes em realistas e revolucionários.

O conflito entre as facções espanholas serviu às ambições portuguesas: o Príncipe regente Dom João interveio na contenda sob a alegação de proteger os direitos dinásticos da esposa Carlota Joaquina em 1811. No ano seguinte, as tropas portuguesas se retirariam após a assinatura de um armistício.

Em 1814, Montevidéu caiu em mãos separatistas, contrárias à hegemonia de Buenos Aires, capital do Vice Reinado. A despeito disso, a anarquia continuou, no que corresponde hoje ao território uruguaio, com nenhum dos chefes revolucionários conseguindo se impor sobre os demais, destacando-se entre eles José Gervasio Artigas4.

Artigas tinha pretensões que envolviam Entre-Rios, Corrientes, Córdoba e Santa Fé na Argentina e os territórios das Missões orientais e o situado entre os rios Quaraí e Ibicuí no Brasil, criando animosidade com os dois principais atores regionais.

Diante disso Dom João VI ordenou nova intervenção na “Banda Oriental”, sob o comando de Carlos Frederico Lecor em 12 de junho de 1816.

Em pouco mais de oito meses, em 20 de janeiro de 1817, Lecor fazia sua entrada triunfal em Montevidéu, de onde as forças luso-brasileiras somente sairiam mais de uma década depois.

Durante aquele interregno, o Brasil de Reino Unido tornou-se Império, passando a denominar a sua ocupação de Província Cisplatina, assim como buscou consolidar sua presença na região, atraindo lideranças locais com cargos e títulos, bem como intensificando as trocas comerciais.

Na outra margem, ainda em 1816, o Vice Reinado do Rio da Prata dava lugar às Províncias Unidas en Sud América, atuais Argentina e Paraguai.

A Argentina sempre reivindicou a região do atual Uruguai, alegando seu direito de nascença sobre esta, sendo sistematicamente ignorada pelos governantes luso-brasileiros.


 

A reação uruguaia

Com a saída de cena de Artigas, um dos seus antigos comandados assumiu o encargo de manter acesa a luta pela emancipação uruguaia: Dom Juan Antonio Lavalleja.

Exilado em Buenos Aires, Lavalleja, buscou ajuda na novel república para sua causa, obtendo apenas um apoio velado.

Com esse apoio desembarcou, seguido de 32 companheiros, em 19 de abril de 1825 no Rincón de La Agraciada, ao norte de Colônia, naquilo que a historiografia uruguaia passou a denominar “Los Treinta y Tres Orientales,” e deu início à sublevação de toda província.

Uma vez em território oriental, a coluna de Lavalleja só fez engrossar: no dia 24 de abril, 200 homens da localidade de Soriano aderiram ao movimento. Cinco dias depois, Fructuoso Rivera, caudilho a serviço do Brasil e compadre do chefe rebelde, enviado para combatê-lo , aderiu à causa republicana. No dia seguinte, uma unidade inteira - o Regimento Dragones Orientales, acantonado em Durazno, passou aos rebeldes.

Diante de tudo isso, o Comando Imperial retraiu todas as tropas brasileiras para as praças fortes, deixando o interior ao inimigo.

Em 14 de junho, em Flórida, Lavalleja se sentiu forte suficiente para instalar um governo provisório que, no dia 25 de agosto, declarou-se independente do Brasil e unida às Províncias Unidas del rio de la Plata.

Quase um mês depois, a 24 de setembro, a sorte das armas favoreceu Fructuoso Rivera no combate de Rincón de las Gallinas.

O pior ainda estava por vir, a 12 de outubro, quando a despeito de opiniões contrárias dos seus subordinados, o Coronel Bento Manuel Ribeiro, tendo 1500 brasileiros sob seu comando, decidiu dar combate às tropas reunidas dos chefes uruguaios Rivera, Lavalleja e Oribe, em número de 2.400, às margens do arroio Sarandi.

A esperada derrota teve consequências devastadoras para o Império: em 24 de outubro, o Congresso Argentino decidiu aceitar o pedido da Banda Oriental para reincorporar-se às Províncias Unidas do Rio da Prata.

Até então os argentinos mantinham-se cautelosos. A vitória de Sarandi fez com que se tornassem atrevidos, a ponto de no dia 4 de novembro entregarem ao General Lecor em Montevidéu, documento informando a Reincorporación da Banda Oriental, solicitando seu envio para o Rio de Janeiro.

A resposta de Dom Pedro I veio no dia 10 de dezembro:

...Tendo o governo das Províncias Unidas do rio da Prata, executado atos de hostilidade contra este Império, sem ser provocado, e sem proceder declaração expressa de guerra...declaro, guerra contra as ditas Províncias e seu Governo.5

Pelos próximos 3 anos, a guerra enlutaria o Rio da Prata, iniciando rivalidades geopolíticas ainda presentes, mas fazendo surgir um novo país, um algodão entre cristais: o Uruguai.


 

REFERÊNCIAS

BEVERINA, Cel. Juan.La guerra contra el Imperio del Brasil. Biblioteca del Oficial, Gráfica de Luis Bernard, Buenos Aires, 1927

CARNEIRO, David. História da Guerra Cisplatina. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1946.

LEMOS, Juvêncio Saldanha. A Saga no Prata.Porto Alegre. Suliani Letra & Vida, 2009.

LIMA E SILVA, Marechal Luiz Manuel de. Guerra com as Províncias Unidas do Rio da Prata. Ed. BIBLIEX, 1956

1 D. Pedro II (Lisboa, 26 de abril de 1648Alcântara, 9 de dezembro de 1706), cognominado "o Pacífico", foi o Rei de Portugal e Algarves de 1683 até a sua morte em 1706, tendo anteriormente servido a nação, como regente do irmão, o rei Afonso VI, já a partir de 1668 até a ascensão ao trono

2 Napoleão destronou o rei espanhol Fernando VII em 1808, forçando a abdicação da coroa em favor de seu próprio irmão, José Bonaparte, como parte do que ficou conhecido como as Abdicações de Bayonne.

3 Abrangia principalmente os atuais territórios da Argentina, Paraguai e Uruguai, além de porções do Brasil e Bolívia

4 (Montevidéu, 19 de junho de 1764 — Ibiray, 23 de setembro de 1850)

5 LEMOS, Juvêncio Saldanha. A Saga no Prata.Porto Alegre. Suliani Letra & Vida, 2009,P105.

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História

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