Ilha da Redenção, Paraguai, em frente ao Forte Itapiru, 10 de abril de 1866, cerca de 13 horas.
A batalha findara-se com a vitória verde amarela.
O comandante brasileiro, o Tenente Coronel João Carlos de Villagran Cabrita, de uma chata1, transformada em Posto de Comando, redige sua parte de combate, dando ciência a seus superiores dos acontecimentos, tendo a companhia do Major Sampaio, seu amigo, o Tenente Francisco Antonio Carneiro da Cunha e o Alferes Carlos Luiz Woolf, ambos do Batalhão de Engenheiros, quando um tiro disparado do forte atinge a embarcação, despedaçando os dois oficiais superiores, amputando as pernas do alferes e ferindo gravemente o tenente.
O Exército ganhava um Herói e a Arma de Engenharia seu Patrono.
Antecedentes
Desde dezembro de 1864, a Guerra campeava na Bacia do Prata.
Iniciada por Solano López por meio da apreensão do navio brasileiro Marquês de Olinda, seguiram-se a invasão da Argentina, fruto da recusa do seu presidente, Bartolomeu Mitre em conceder trânsito livre por esta e do Brasil, esse em duas frentes: enquanto uma coluna paraguaia atuava na região sudoeste do Rio Grande do Sul, entre os Rios Paraná e Uruguai, outra avançava, quase sem oposição pelo Mato Grosso.
Em 1º de maio de 1865, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança contra o ditador Solano López.
A ofensiva guarani teve seu ponto de inflexão na Batalha Naval do Riachuelo em 11 de junho de 1865, oportunidade em que a Esquadra Imperial saiu vitoriosa, ganhando a superioridade sobre a Marinha Paraguaia.
A partir de então, as forças guaranis, no Teatro de Operações do Prata, só fizeram recuar: o General Estigarribia se rendeu em Uruguaiana, em 18 de setembro; as tropas paraguaias abandonam a província argentina de Corrientes, em 4 de novembro e em 29 de novembro, Solano López instalou seu QG no Passo da Pátria, às margens do rio Paraná, fronteira com a Argentina, em dispositivo de expectativa.
Em 22 de dezembro, os aliados acampam próximo ao Passo da Pátria.
O início do ano de 1866 foi marcado por preparativos de ambas as partes: López reforçou a guarnição do Forte Itapiru, e iniciou a Campanha das Chatas, incursões fluviais daquelas embarcações contra alvos aliados.
Os aliados se reuniram em Conselho de Guerra para decidir quando, onde e como levariam a guerra ao território inimigo, primeiramente, em 25 de fevereiro e, a partir de então, iniciaram reconhecimentos e o bombardeio da fortificação inimiga.
A tomada da Ilha
Enquanto se procediam aos reconhecimentos para o desembarque, vislumbrou-se a oportunidade de desgastar o citado forte, ocupando a ilha fronteira a este, localizada entre o talvegue do Rio Paraná e a margem paraguaia, ou seja, já em território guarani.
Em formato oval, contando com 457 metros em sua maior dimensão, plana, com solo arenoso e coberto de vegetação rasteira, além de muitas sarças, distante 548 metros do baluarte contrário 2, aquela que se tornaria mais tarde a ilha da Redenção era conhecida Banco do Purutuê.3
Nesse intuito, foram feitos dois reconhecimentos nos dias 29 e 30 de março por um grupo de oficiais e praças comandados pelo Tenente -Coronel Carlos de Carvalho, chefe da Comissão de Engenheiros.
Na noite do dia 5 de abril, sob a máxima disciplina de luzes e ruídos foi procedida a ocupação da Ilha e a organização do terreno, por 900 homens, divididos em 5 Organizações Militares, o 7º Batalhão de Voluntários da Pátria, comandado pelo Tenente-Coronel Francisco Joaquim Pinto Pacca, um contingente do 14º Batalhão de Infantaria de Linha, comandado pelo Major José Martini, a 1ª Bateria do 1º Batalhão de Artilharia a Pé, comandada pelo Capitão Francisco Antonio de Moura, um contingente do Batalhão de Engenheiros, comandado pelo Capitão Basílio de Amorim Bezerra e a Bateria de Morteiros comandada pelo Capitão Antonio Tibúrcio Ferreira de Souza, enfeixadas na 19ª Brigada, sob o comando do Tenente-Coronel João Carlos de Villagran Cabrita.
O amanhecer de 6 de abril foi marcado por um misto de surpresa e raiva por parte dos paraguaios ao avistarem a bandeira brasileira defronte do Forte Itapiru, iniciando imediatamente o bombardeio.
A artilharia brasileira em presença, 4 peças de artilharia La Hitte, calibre 12 e 4 morteiros de 22 cm, de pronto respondeu disparando 164 tiros naquele dia.
No dia seguinte, o duelo continuou, sendo disparados 54 tiros sobre o forte, o que ocasionou a destruição de todos seus merlões4 e de um canhão inglês de 68 libras.
No dia 8, os 46 tiros disparados pela artilharia brasileira abriram uma grande brecha no forte. No dia 9, os danos aumentaram com 54 tiros disparados.
Naquele dia, Osorio, comandante das Forças Imperiais em Operação, ciente do desgaste decorrente de 4 dias de canhoneio quase ininterruptos, quis substituir a tropa ocupante, mas a guarnição pediu para ficar.
López decidiu retomar a posição. Com esse intuito determinou ao Tenente-Coronel Diaz5, um dos seus melhores oficiais que desalojasse os brasileiros.
Diaz concebeu um ataque em 3 vagas, uma em reserva, cada uma com 400 homens, envolvendo a guarnição inimiga pelos flancos.
Às 03h00 horas da madrugada de 10 de abril, os atacantes iniciaram a travessia, cobertos pela escuridão. Uma hora depois, com a tropa em terra, as sentinelas brasileiras deram o alarme.
Os comandantes das canhoneiras brasileiras Henrique Martins, Greenhalgh e Chuí fundeadas no acampamento aliado, assim que ouviram os tiros, levantaram âncora e foram auxiliar na defesa da posição, impedindo que a reserva guarani fosse empregada
Percebendo que a munição escasseava, o comando brasileiro lançou mão de uma carga à baioneta sobre os atacantes, que os levou de roldão até as margens da ilha e decidiu a contenda, por volta das 07h00 horas da manhã.
O saldo da refrega foram 642 paraguaios mortos em terra, sem falar nos afogados que tentaram se evadir a nado, 62 prisioneiros, 700 armas de fogo e 14 canoas, 49 brasileiros mortos e 95 feridos6.
A despeito do alto preço, a conquista e a manutenção da Ilha da Redenção foram importantes para a manobra estratégica aliada, servindo como uma ação diversionária para o futuro desembarque.
REFERÊNCIAS
CASTRO REBELO, D. João Carlos de Vilagran Cabrita. A Defesa Nacional, v. 52, n. 605, 2020.
DE LYRA TAVARES, A. Vilagran Cabrita: No centenário de sua morte. A Defesa Nacional, v. 52, n. 608, 2020.
ROSTY, Cláudio Skora. 150 anos do Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3 2016.
SILVEIRA, Luciano Rocha. Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3 2016.
1 Embarcações de pequeno calado e fundo chato, armadas com canhões pesados.
2 SILVEIRA, Luciano Rocha. Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3.p64. 2016.
3 CASTRO REBELO, D. João Carlos de Vilagran Cabrita. A Defesa Nacional, v. 52, n. 605p 51 2020.
4 Blocos de pedra ou alvenaria sólidos e salientes que compõem a parte superior de muralhas, torres e parapeitos de fortificações
5 José Eduvigis Díaz Vera (1833–1867
6 SILVEIRA, Luciano Rocha. Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3, p 66 2016.
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