Manufatura Aditiva (impressão 3D) e seus usos militares

Autores: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Sexta, 13 Fevereiro 2026
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A Manufatura Aditiva (MA), amplamente conhecida como impressão 3D, consiste na formação de objetos tridimensionais por meio da deposição sucessiva de camadas de material, conforme descrito por Verboeket e Krikke (2019, citado em Dymyt & Wincewicz-Bosy, 2023). Embora sua aplicação tenha se consolidado inicialmente em setores civis, como a indústria automotiva, aeroespacial, médica e odontológica, seu uso vem crescendo de maneira significativa no campo militar. Esse avanço ocorre em razão da capacidade da tecnologia de oferecer rapidez, autonomia e flexibilidade, atributos especialmente relevantes em cenários de defesa. Neste artigo, busca-se apresentar uma análise introdutória das principais aplicações da MA no âmbito militar, destacando como essa tecnologia pode contribuir para operações, logística e capacidades estratégicas.

A pesquisa segue abordagem qualitativa, estruturada como revisão narrativa de literatura recente, nacional e internacional. O objetivo é identificar de que forma a impressão 3D tem sido empregada em ambientes militares e quais benefícios ou limitações essa tecnologia apresenta. Dias (2020) observa que o termo "manufatura aditiva" é amplamente utilizado como sinônimo de impressão 3D, enquanto de Assis (2021) detalha que o processo envolve a deposição sucessiva de camadas de material sobre uma mesa de impressão, conforme ilustrado na Figura 1. Essa tecnologia, criada em 1984, passou a ocupar espaço em atividades diversas, desde a engenharia civil até setores altamente especializados, como medicina e odontologia.

Figura 1 – processo de impressão 3D por depósito de material em 3 camadas

Fonte: de Assis (2021).

 

Embora amplamente utilizada em atividades civis, Dass (2024) ressalta que a impressão 3D também tem sido explorada por agentes estatais e paraestatais na fabricação de armamentos. Essa expansão tecnológica demonstra que a MA não se limita mais ao ambiente industrial tradicional. Nesse sentido, Dantas, de Souza, de Mendonça e Paulino (2017) apresentam experiências internacionais que comprovam ganhos logísticos importantes, como a produção de peças para os caças Tornado GR4 da Royal Air Force (RAF), o que resultou em redução de custos e maior autonomia no processo de manutenção.

Os autores ressaltam ainda que a MA pode ser empregada para a fabricação de componentes em navios de pequeno porte e em meios de apoio, especialmente em áreas que demandam reposição rápida de peças, como saúde, aviação naval e engenharia estrutural (Dantas et al., 2017). Um exemplo recente foi realizado pela empresa sueca Saab, que testou com sucesso uma peça impressa em 3D para reparo no caça Gripen, demonstrando a viabilidade da tecnologia em condições operacionais reais (Saab, 2021). Esses casos evidenciam que a impressão 3D já ultrapassa a esfera experimental e se integra gradualmente aos processos tradicionais das Forças Armadas.

No ambiente operacional, Dass (2024) classifica as aplicações da impressão 3D em dois grandes grupos: usos não ofensivos, como construção e aplicações médicas, e usos ofensivos, como a fabricação de armamento e munições. De Assis (2021) amplia essa discussão ao apresentar aplicações propostas para o Exército Brasileiro, incluindo a produção de pontes em apoio a calamidades públicas, a confecção de mensagens em QR Code, peças de reposição para equipamentos de rádio e até cartas topográficas. Esses exemplos demonstram a versatilidade da tecnologia, que pode apoiar tanto atividades de combate quanto ações subsidiárias.

As principais vantagens e limitações da impressão 3D em ambientes de combate, conforme adaptado de Dass (2024), são apresentadas no Quadro 1. A síntese destaca que, embora a tecnologia ofereça benefícios relevantes em termos de autonomia e rapidez, ainda enfrenta desafios relacionados à durabilidade e confiabilidade dos materiais utilizados.

Quadro 1 – Vantagens e limitações da impressão 3D em ambientes de combate

VANTAGENS

X

LIMITAÇÕES

1) Permite a produção rápida e local de armamentos, munições e drones, atuando como fonte alternativa em situações de escassez, como observado na Ucrânia e entre os PDFs de Mianmar; e

1) A durabilidade das peças tende a ser menor quando comparada às armas convencionais, devido ao uso predominante de polímeros; e

2) Possibilita a fabricação de componentes personalizados e sob demanda, aumentando a adaptabilidade da tropa e acelerando reparos em campo.

2) A confiabilidade operacional depende da qualidade do material e da habilidade do operador, restringindo seu emprego a funções emergenciais ou suplementares.

   
   

Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de Dass (2024).

 

Além das aplicações voltadas à produção de armamentos e munições, a impressão 3D também vem sendo utilizada no desenvolvimento de sistemas complexos, como drones, mísseis e motores de foguete. Nelson (2020), citado em Dymyt & Wincewicz-Bosy (2023), destaca que a tecnologia acelera a fabricação de componentes essenciais para esses sistemas, favorecendo respostas mais rápidas em cenários de conflito. Schrand (2016), citado em Dymyt & Wincewicz-Bosy (2023), acrescenta que a MA contribui para integrar diferentes domínios de operação ao possibilitar reparos imediatos, prototipagem rápida e personalização de equipamentos conforme as necessidades da missão.

No nível do combatente individual, a tecnologia oferece vantagens importantes ao permitir a produção de equipamentos personalizados, como capacetes, coletes e protetores auriculares, conforme apontado por Adeleke, Montero, Lottu, Ninduwezuor-Ehiobu e Ani (2024). A possibilidade de ajustar esses itens às características anatômicas dos militares representa ganho direto em conforto, proteção e capacidade operacional. Essa personalização, antes inviável em larga escala, torna-se viável com o uso da manufatura aditiva.

Embora existam menos estudos voltados especificamente ao emprego da MA em blindados, já há avanços relevantes nesse campo. Pesquisas relacionadas ao Challenger 3 e aos veículos Boxer, produzidos pela Rheinmetall BAE Systems Land, demonstram que componentes estruturais desses sistemas podem ser fabricados por impressão 3D (Tyrer-Jones, 2025, citado em Suckau, 2025). Esses desenvolvimentos evidenciam o potencial de expansão da tecnologia em setores tradicionalmente dependentes de metalurgia avançada. A cooperação entre setores civis e militares também se mostra essencial, como no caso da NASA, cujos projetos frequentemente beneficiam aplicações de defesa.

Quanto às perspectivas futuras, dos Santos (2016) aponta que a MA poderá viabilizar a produção de sensores biométricos e exoesqueletos, ampliando significativamente as capacidades físicas e cognitivas de militares em operação. Haleem, Javaid, Singh e Suman (2021) apresentam a impressão 4D como a evolução natural da impressão 3D, ao incorporar materiais inteligentes capazes de responder a estímulos externos. Tal avanço pode permitir, por exemplo, uniformes com camuflagem adaptativa ou sistemas capazes de alterar sua estrutura conforme variáveis ambientais, ampliando as possibilidades de proteção e desempenho.

Os exemplos apresentados demonstram que a manufatura aditiva oferece vantagens expressivas ao ambiente militar, especialmente em termos de redução de custos, rapidez na produção, autonomia logística e personalização de equipamentos. Esses benefícios se estendem à fabricação de armamentos, munições, peças sobressalentes, mapas, pontes, itens de comunicação e equipamentos individuais. Apesar das limitações observadas, a tecnologia já se integra às capacidades de diversas forças armadas, incluindo o Brasil. Suckau (2025) observa que fatores como segurança cibernética e sustentabilidade serão determinantes para a evolução da MA nas próximas décadas.

Em síntese, tanto a impressão 3D quanto a 4D tendem a evoluir em direção ao uso de materiais mais leves, resistentes e complexos, além da integração de elementos eletrônicos. Essa direção favorece a inovação, o desenvolvimento de novos conceitos de equipamentos e a ampliação das capacidades de prototipagem rápida na indústria de defesa, contribuindo diretamente para o aumento da autonomia e da eficiência operacional das forças militares.
 

Referências

Adeleke, A. K., Montero, D. J. P., Lottu, O. A., Ninduwezuor-Ehiobu, N., & Ani, E. C. (2024). 3D printing in aerospace and defense: A review of technological breakthroughs and applications. World Journal of Advanced Research and Reviews21 (2), 1149-1160. Disponível em: https://doi.org/10.30574/wjarr.2024.21.2.0558 . Acesso em: 12. nov. 2025.

Dantas, T. M.; de Souza, T. N. F.; de Mendonça, L. M. F.; Paulino, Y. Y. R. (2017). A impressora 3d como ferramenta logística na MB. Revista de Villegagnon, 12 (12), 53-57. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/sites/www.marinha.mil.br.en/files/upload/REVISTA_VILLEGAGNON_2017.pdf . Acesso em: 12. nov. 2025.

Dass, R. (2024). 3D-Printing in Conflict Zones: A Game-Changer? Disponível em: https://gnet-research.org/2024/10/14/3d-printing-in-conflict-zones-a-game-changer . Acesso em: 12 nov. 2025.

de Assis, S. G. (2021). Potenciais usos operacionais da impressão 3D para o Exército Brasileiro. Especialização em Ciências Militares. Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Rio de Janeiro. Disponível em: https://bdex.eb.mil.br/jspui/handle/123456789/10706 . Acesso em: 12 nov. 2025.

Dias, P. H. F. (2020). Processo de seleção de componentes aeronáuticos candidatos a impressão 3D para reparos de danos de combate em aeronaves. Dissertação (Mestrado Profissional em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade). Instituto Tecnológico de Aeronáutica. São José dos Campos. Disponível em: https://aerologlab.ita.br/static/documents/tese_pedro_fontelles.pdf . Acesso em: 12 nov. 2025.

dos Santos, S. L. B. (2016). Impressão 3D – perspectivas de adoção na indústria portuguesa. Dissertação (Mestrado em Gestão de Informação). Universidade Nova de Lisboa. Disponível em: https://run.unl.pt/bitstream/10362/19255/1/TGI0063.pdf . Acesso em: 12 nov. 2025.

Dymyt, M., & Wincewicz-Bosy, M. (2023). Civil-military cooperation in the field of additive manufacturing technologies in military logistics. Systemy Logistyczne Wojsk59 (2), 5-20. Disponível em: https://doi.org/10.37055/slw/186391 . Acesso em: 12 nov. 2025.

Haleem, A., Javaid, M., Singh, R. P., & Suman, R. (2021). Significant roles of 4D printing using smart materials in the field of manufacturing. Advanced Industrial and Engineering Polymer Research4 (4), 301-311. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.aiepr.2021.05.001 . Acesso em: 12 nov. 2025.

Saab. (2021). Saab testa peça de impressão 3D no Gripen para reparação de danos no Campo de Batalha. Disponível em: https://www.saab.com/globalassets/markets/brazil/1.-press-releases-and-news-from-saab/2021/saab-testa-peca-de-impressao-3d-no-gripen.pdf . Acesso em: 12 nov. 2025.

Suckau, L. (2025): Additive Manufacturing in the Military Technology Sector. Application and Proliferation of an Emerged Technology. PRIF Report, 3. Disponível em: https://doi.org/10.48809/prifrep2503 . Acesso em: 12 nov. 2025.

CATEGORIAS:
Ciência e Tecnologia

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