QUANDO A PAZ FOI TENTADA: 160 ANOS DA CONFERÊNCIA DE YATAYTI-CORÁ

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 25 Setembro 2026
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Durante o longo e sangrento conflito que colocou em lados opostos a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) e o Paraguai, houve um e somente um momento em que a paz foi tentada: Yatayti-Corá.

Os aliados se encontravam combatendo em território guarani desde abril de 1866. Em 24 de maio, foi travada a maior batalha campal da história sul-americana: Tuiuti, com vitória das forças invasoras. O revide paraguaio se deu ao longo de 3 (três) combates menores, mas sangrentos, as batalhas de Yataity-Corá, Sauce e Boquerón travados em julho daquele ano.

Agosto foi marcado por uma relativa tranquilidade, quebrada no início do mês seguinte, com a tomada de Curuzu pelo 2º Corpo de Exército Brasileiro, sob o comando do Visconde de Porto Alegre1no dia 3.

Preparavam-se os aliados para investir contra a posição de Curupaiti, quando, no dia 10 de setembro, um militar paraguaio, portando bandeira branca, tentou se aproximar das linhas avançadas argentinas, sendo repelido a tiros.

No dia seguinte, uma nova tentativa foi feita, dessa vez, com sucesso. O militar não era outro senão o capitão Francisco Martínez, ajudante de campo de Solano López.

Levado à presença do Comandante em Chefe da Aliança, o presidente Bartolomé Mitre fez entrega a este de uma mensagem, nos seguintes termos:

“Cuartel General en Paso-pucú, 11 de setiembre de 1866 – Al Excmo. Sr. Brigadier General D. Bartolomé Mitre, Presidente de la República Argentina, y General en Jefe del Ejército Aliado – Tengo el honor de invitar a V. E. a una entrevista personal entre nuestras líneas, el día y hora que V. E. señale. – Dios guarde a V. E. – Francisco S. López.”2

Incontinenti, Mitre deu conhecimento da nota aos demais chefes aliados, o presidente uruguaio Venâncio Flores e o General Polidoro, então comandante das forças brasileiras.

Todos foram acordes em ouvir a proposta do inimigo e em consequência foi dada a resposta:

“Cuartel General del Ejército Aliado, 11 de setiembre de 1866 – Al Excmo. Sr. Mariscal Don Francisco S. López, Presidente de la República del Paraguay, y General en Jefe de su Ejército – Tuve la honra de recibir la comunicación de V. E. fecha de hoy, invitándome a una entrevista personal entre nuestras líneas, el día y la hora que se conviniese; y, respondiendo, debo decir a V. E. que acepto la entrevista propuesta, y me hallaré mañana a las 9 de la mañana, en el punto de nuestras respectivas líneas, en el Paso de ‘Yataity Corá’, llevando una escolta de veinte hombres, que dejaré a la altura de mis avanzadas, adelantándome en persona en el terreno intermediario para el fin indicado, si V. E. se conforma con eso. – Dios guarde a V. E. muchos años – Bartolomé Mitre”.3

A resposta positiva de López foi imediata.

No dia seguinte, à hora e lugar acordados, reuniram-se os dois chefes.

López se fez acompanhar de seu cunhado, o general Barrios e de seus dois irmãos, Vicente e Benigno, todos apresentados a Mitre que, por sua vez, trouxe apenas oficiais de seu Estado-Maior.

Antes de iniciarem a conferência, López pediu que os dois outros chefes aliados tomassem parte desta. Flores aceitou, Polidoro recusou.

Assim que o presidente uruguaio chegou, López deu início a uma longa recriminação a ele, alegando que o Paraguai fora a guerra apenas para não permitir a escravização do Uruguai e que ele era “... el causante de la guerra que aniquilaba a las dos repúblicas en provecho del Brasil,...”4

Diante disso, o governante uruguaio se retirou, deixando a seu colega argentino o encargo das conversações.

Durante 5 (cinco) horas parlamentaram, acompanhados a distância por seus assistentes, ora de pé, ora sentados em cadeiras trazidas do QG paraguaio. Os dois fumaram durante todo o interregno.

Os relatos indicam que a conversa foi cordial e que López fez o possível para convencer Mitre a adotar uma solução pacífica para o conflito, tendo inclusive recordado o encontro que ambos tiveram 11 (onze) anos antes, quando retornou de sua estadia na Europa e fez escala em Buenos Aires5.

Mitre, por sua vez, deixou claro que qualquer negociação deveria ter por base a saída de López do governo, o que teria motivado deste a seguinte resposta:

“Isso me imporão na minha última trincheira nos confins do Paraguai.”6

Finda a conferência, López fez com que fosse redigido um memorando acerca desta, nos seguintes termos:

“S. Exa. Marechal López, Presidente da República do Paraguai, na sua entrevista de 12 de setembro, convidou S. Exa o Sr Presidente da República Argentina e General em Chefe do Exército Aliado, a procurar meios conciliadores e igualmente honrosos para todos os beligerantes, a fim de ver se o sangue até agora derramado não podia ser considerado suficiente para lavar os mútuos agravos, pondo termo à guerra mais sanguinolenta da América do Sul, por meio de satisfações mútuas, igualmente honrosas e equitativas, que garantissem um estado permanente de paz e sincera amizade entre os beligerantes.”7

Os dois presidentes, ao se despedirem, trocaram os chicotes que traziam consigo e brindaram com conhaque. López deu a Mitre alguns cigarros que costumava fumar.

Os governos aliados recusaram a proposta, não se dando ao trabalho de respondê-la, fundamentando-se no artigo 6º do Tratado da Tríplice Aliança:

“Os aliados se comprometem solenemente à não deporem as armas senão de comum acordo, e somente depois de derribada a autoridade do atual Governo do Paraguai;(..)”

A paz só viria pelas armas, quase 4 (quatro) anos depois.

REFERÊNCIAS

CHAVES, Julio César. La Conferencia de Yataity Corá. Portal 2026. Guarani. Disponível em https://www.portalguarani.com/381_julio_cesar_chaves/19964_la_conferencia_de_yataity_cora_1958__resumen_de_julio_cesar_chaves. Acesso em 4 de julho de 2026.

ENTREVISTA de Yataity Corá. Revisionistas: la outra historia de los argentinos,2008.Disponível em https://www.revisionistas.com.ar/?p=6990/ Acesso em 4 de julho de 2026.

FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai. Rio de Janeiro. BIBLIEx,2011.v 3.

VERON,Luis. Yataity Corá: 150 años.Revista ABC.2016.Disponível em www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/abc-revista/y. Acesso em 4 de julho de 2026.

1 Manoel Marques de Souza III(1804-1875).

2 ENTREVISTA de Yataity Corá. Revisionistas: la outra historia de los argentinos,2008.Disponível em https://www.revisionistas.com.ar/?p=6990/ Acesso em 4 de julho de 2026.

3 ibid

4 ibid

5 CHAVES, Julio César. La Conferencia de Yataity Corá. Portal 2026. Guarani. Disponível em https://www.portalguarani.com/381_julio_cesar_chaves/19964_la_conferencia_de_yataity_cora_1958__resumen_de_julio_cesar_chaves. Acesso em 4 de julho de 2026.

6 FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai. Rio de Janeiro. BIBLIEx,2011.v 3,p.114.

7 FRAGOSO, 2011, P115.

CATEGORIAS:
História

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