Ciências, inovação e o raciocínio crítico

Autor: Coronel R1 Luciano Hickert
Segunda, 07 Setembro 2026
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A evolução das tecnologias em diversas áreas do conhecimento humano revoluciona o modo como produzimos energia, obtemos alimentos e como submetemos a natureza, gerando riqueza e poder. Na arte da guerra, novos meios de combate e materiais substituem plataformas antigas, provocando mudanças que impactam diretamente nas capacidades operacionais, segurança e no poder de combate.

Nesse caminho de evolução, existem duas forças antagônicas que disputam os espaços. Os céticos, que desconfiam dos novos materiais e relutam em adotá-las, e os entusiastas, que abandonam de modo radial o que já existia e desconsideram riscos e vulnerabilidades dos novos materiais, minimizando suas possíveis falhas e riscos. Nesse escopo, ocorrem atrasos para a adoção de certas tecnologias, ou a adoção prematura, que pode provocar uma série de novos riscos.

Para exemplificação deste paradoxo, podemos citar a história da utilização do amianto como uma nova tecnologia de material civil (em telhados e fornos) e militar (compondo navios e carros de combate), até a sua proibição por seus colaterais sobre o corpo humano. Nesse mesmo sentido, outros produtos como herbicidas, como venenos secantes e agente laranja (NOVOTNY 2022) ou Teflon (panelas e material anticorrosivo em diversos produtos de emprego militar) apontaram ensinamentos acerca das vulnerabilidades na fabricação de novos materiais e seus resíduos (BILLOT 2019).

Para aprofundar um pouco em um desses materiais, pode-se destacar que o emprego das fibras de Asbesto (Amianto) tem registro na Idade Antiga, pelos gregos, para reforçar materiais e protegê-los do fogo. Desde a Antiguidade, essas fibras minerais que brotavam do solo destacavam-se pela sua capacidade de resistir às chamas e pelo aumento da resistência de materiais.

Durante o século XIX, a utilização do amianto popularizou-se nos Estados Unidos e em todo mundo, atingindo milhares de toneladas na Segunda Guerra Mundial. A utilização desta fibra mineral diminuiu os constantes incêndios nas cidades, protegeu áreas internas de navios e blindados de superaquecimentos, melhorando a durabilidade de diversos materiais.

Ao mesmo tempo, o emprego dessas fibras representou um risco para a saúde, desconhecido para grande parte da população até a década de 1980. O produto milagroso trazia consigo um perigo para quem extraía e manipulava o material, na produção do minério e na instalação dos compostos. As desvantagens da utilização do composto milagroso começaram a aparecer ainda em 1930, com diversos estudos apontando para os malefícios para a saúde provocado pela poeira contaminada com o material (VICARI, 2022).

Contudo, em um negócio já consolidado de milhões de dólares, as empresas produtoras buscaram questionar os dados científicos iniciais obtidos, patrocinando novas pesquisas e questionando os médicos que reuniram os dados. Tal prática, semelhante à adotada em casos famosos como da Monsanto (venenos agrícolas como Roundup e 2,4C) e Du Pont (fabricante de compostos de Teflon) atrasaram o avanço dos cuidados na manipulação dos produtos, pois as empresas organizaram e financiaram campanhas jurídicas e políticas para promover o emprego do material e evitar sua regulamentação(VILLIGUA 2025).

Tais ações desencadeadas por empresas interessadas na redução de custos e aumento de vendas são atualmente reconhecidas como uma das maiores fraudes científicas ocorridas, e apenas reforçam como a ciência está sujeita aos atores e interesses humanos (NOVOTNY, 2022).

Neste mesmo sentido, reforça por que na ciência não existem verdades inquestionáveis, especialmente quando existem interesses comerciais ou de poder envolvidos. Essas práticas não são exclusivas dos tempos de paz, se intensificam ainda mais em casos de crise ou conflito, quando o interesse do Estado e urgência para obter vantagem tecnológica pode afastar um adequado estudo dos riscos e desvantagens.

Atualmente, o emprego de Amianto (asbesto) é tido como altamente nocivo para a saúde, e responsável pela morte de milhares de vidas, sobretudo pela sua inalação e incapacidade do corpo em processá-la, aumentando riscos de câncer e outras doenças. A asbestose é uma doença que provocou vítimas não somente nas fábricas de telhas, como também nos estaleiros e fábricas das Forças Armadas dos EUA, durante e após a Segunda Guerra Mundial (INCA, 2024).

Atualmente, existem diversas críticas sobre a qualidade das telhas e caixa de água de fibra e cimento atuais, pois a durabilidade e capacidade impermeável das antigas que utilizavam os compostos de amianto proporcionava um produto de ótima qualidade e preço. Contudo, atualmente, tais materiais foram substituídos e são um desafio para o descarte correto, mesmo para instituições como as Forças Armadas, pelos riscos que esses materiais podem causar à saúde, que agora são conhecidos.

A ciência pode ser definida como qualquer sistema de conhecimento que se ocupa do mundo físico e seus fenômenos e que envolve observações imparciais e experimentação sistemática. Em geral, uma ciência envolve a busca por conhecimento que abranja verdades gerais ou o funcionamento de leis fundamentais (Britannica, 2026).

Contudo, ela não é fonte de dogmas e certezas, ela estabelece probabilidades e tendências. Em um mundo altamente interconectado, esses exemplos fornecidos pela história podem servir de estímulo para o desenvolvimento da visão crítica, sempre atenta aos limites das percepções humanas, visando à constante evolução tecnológica e à busca constante dos resultados mais adequados.

A implementação cada vez mais acelerada de drones e inteligência artificial no cotidiano das famílias e no campo de combate deve ser tema permanente de atenção e cuidado, de modo que os possíveis danos colaterais sejam bem medidos e minimizados (DOS SANTOS, 2023) Novas tecnologias, mesmo simples como as empregadas desde os gregos como o asbesto, merecem estar em constante análise, de modo que seus impactos sejam permanentemente medidos.

A liberdade de expressão para questionar a ciência, empregando o método científico pode proporcionar novos caminhos para a evolução, e deve preponderar sobre imposição de dogmas, pois para a ciência existem possibilidades, possíveis de serem confrontadas. Tais pesquisas devem ser independentes, afastadas de interesses comerciais ou mesmo de poder.

Tal raciocínio vale não somente para as ciências químicas ou físicas, podem se estender também para as ciências militares, cujos paradigmas estão em constante evolução e novos ambientes e tecnologias nos desafiam diariamente. Não se trata de reagir à adoção de novas tecnologias, compostos ou organizações, mas de adequá-las aos ambientes, verificar suas vantagens e buscar verificar os reflexos que estas provocarão no ambiente das futuras batalhas.

PALAVRAS-CHAVE: Tecnologia, inteligência artificial, visão crítica, independência científica, Amianto, Asbestose, Teflon e Roundup.

BIBLIOGRAFIA

C. Lyons. Stain-resistant, nonstick, waterproof, and lethal: The hidden dangers of C8, Westport, CT: Praeger, 2007.

Dos Santos, Damaceno, D. (2023). Inteligência artificial e ética: perigos, direitos e deveres. Caderno Progressus ,https://www.cadernosuninter.com/index.php/progressus/article/view/2577.

Enciclopédia Britannica, Definição de Ciência. https://www.britannica.com. Pesquisado em 10 Abril 2026.

Instituto Nacional de Câncer - INCA. STF mantém proibição do uso de amianto crisotila no Brasil - Fibra mineral está associada a diversas doenças, inclusive o câncer; 2023. Available from: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2023/stf-mantem-proibicao-do-uso-de-amianto-crisotila-no-brasil. 

M. Hawthorne, “Persistent farmer whose cows died from a mysterious disease helped unravel the origin of toxic chemicals.” Chicago Tribune. https://www.chicagotribune.com/news/environment/ct-pfas-history- 2022.

N. Rich, “The lawyer who became DuPont’s Worst NightmareNew York Times Magazine https://www.nytimes.com/2016/01/10/magazine/the-lawyer-who-became-duponts-worst-nightmare.html.

Novotny, E. Glyphosate, Roundup and the Failures of Regulatory Assessment. Toxics 2022, 10,321. https://doi.org/10.3390/ toxics10060321

R. Bilott, Exposure: Poisoned water, corporate greed, and one lawyer’s twenty-year battle against Dupont, New York: Atria Books, 2019.

Vicari K, Ribeiro IM, Aguiar BF, Brey C, Boller S, Miranda FMA. Occupational characterization of workers exposed to asbestos: an integrative review. Rev Bras Med Trab. 2022;20(4):650-658. http://dx.doi.org/10.47626/1679-4435-2022-733

Villigua Pesantes, S. M. (2025). Efectos carcinógenos del asbesto en los trabajadores de empresas de construcción. (Revisión sistemática). Universidad Laica Eloy Alfaro de Manabí, Manta, Equador.

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