Além de Sun Tzu: os sete clássicos militares chineses

Autor: Maj Vinícios Martins do Vale
Quarta, 26 Agosto 2026
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A obra “A Arte da Guerra”, do lendário militar chinês Sun-Tzu, dispensa apresentações. Seus ensinamentos são amplamente conhecidos e discutidos tanto no meio militar quanto no civil. Há diversas obras que abordam a validade da aplicação desses conhecimentos nas estratégias militares modernas e também no mundo empresarial. O fato pouco conhecido, porém, é que sua obra integra uma compilação oficial de sete tratados militares instituída na China há aproximadamente mil anos, denominada “Sete Clássicos Militares” (武经七书).

A compilação oficial foi determinada pelo imperador Shenzong, da dinastia Song, no ano de 1080 d.C. O estudo dessas obras era obrigatório para os oficiais do exército imperial, além de servirem de base para os exames de admissão aos postos da hierarquia militar chinesa. Durante séculos, a posse dessas obras por indivíduos não autorizados poderia ser caracterizada como traição e severamente punida, sendo que o controle de reprodução e acesso a elas era realizado pelas Bibliotecas Imperiais.

A ordem em que tradicionalmente são apresentadas as sete obras é a seguinte:

 

A Arte da Guerra

Wu-Tzu

Os métodos de Ssu-ma

Questionamentos e respostas entre T’ang T’ai-tsung e Li Wei-kung

Wei Liao-tzu

Três estratégias de Huang Shih- Kung

Os Seis Ensinamentos Secretos de T’ai Kung

 

A confecção delas, com apenas uma exceção, data de períodos anteriores à unificação da China, operada pela dinastia Qin em 221 a.C. Somente a obra “Questionamentos e respostas entre T’ang T’ai-tsung e Li Wei-kung” foi produzida após esse período, durante a dinastia Tang (618-906 d.C), consistindo na reprodução de diálogos entre o Imperador T’ai-tsung e seu talentoso General Li Wei-kung. O contexto social e militar em que esta obra foi produzida, também a diferencia em relação às demais, já que seu conteúdo se baseia em uma revisão de teorias e eventos militares ocorridos na China, durante aproximadamente mil anos após sua unificação.

Para um melhor entendimento do contexto militar em que as obras foram produzidas, é útil uma breve descrição da história militar chinesa.

 

Breve história militar da China

 

Dados mais consistentes sobre a história militar chinesa abarcam, inicialmente, o período da dinastia Shang (1.776 a.C a 1.045 a.C). Nele, os exércitos consistiam em dois tipos de unidades de combate: a infantaria e as bigas, estas últimas guarnecidas por integrantes da nobreza. O soberano comandava pessoalmente suas forças, não havendo um estamento profissional militar permanente. Os cavalos eram usados unicamente para mobiliar as bigas e, assim, tropas de cavalaria eram inexistentes.

As campanhas eram encerradas, geralmente, por meio de uma única batalha entre os centralizados exércitos dos contendores. Os principais objetivos dessas campanhas eram impor suserania/vassalagem a outros estados, pilhar riquezas e arrebanhar prisioneiros para trabalhos forçados, não havendo ocupação territorial. Os combates eram altamente ritualizados, limitados por estritos códigos de conduta em combate, observados principalmente pela nobreza.

Durante a dinastia Chou (1046 a.C a 256 a.C), a mais longeva na história chinesa, há grandes evoluções nos conflitos bélicos. A batalha de Mu-yeh, na qual a nova dinastia se impôs, já revela certa flexibilização nos rituais e na conduta em combate. As forças vitoriosas, apesar de numericamente inferiores, contavam com táticas e estratégias aperfeiçoadas pelo contato constante e conflitos com os chamados “povos bárbaros” que habitavam além das fronteiras chinesas.

Em um primeiro período, denominado Primavera e Outono (722 a.C a 481 a.C), há uma grande descentralização do poder, porém aumenta o controle governamental sobre a sociedade. Amplas reformas administrativas e a conversão de terras em bens privados e negociáveis fortalecem o poder dos camponeses, que passam a integrar em maior número os contingentes militares. A importância da nobreza nos combates decai, consequentemente, diminuindo a importância das formas ritualísticas de combate.

 

A profissionalização militar

 

Com o aumento da mobilidade social e os numerosos conflitos ocorridos entre pequenos estados autônomos, surge um estamento militar permanente, formado por oficiais recrutados com base em seus talentos, de forma meritocrática. O mesmo ocorre no âmbito civil da administração pública, que se desenvolve para uma burocracia profissional baseada no mérito e não em laços familiares.

Os exércitos profissionais e as teorias militares, porém, alcançam sua maturidade durante o período dos Reinos Combatentes (403 a.C a 221 a.C). Como revela o nome, são tempos de intensos combates entre sete estados principais, consolidados durante o período anterior. Com a evolução tecnológica do bronze para o ferro a agricultura prospera, gerando grande aumento populacional. As batalhas passam a contar, muitas vezes, com mais de um milhão de combatentes, e o material bélico, também aperfeiçoado pelo emprego do ferro, torna-se mais eficiente e letal.

As teorias militares passam a dar conta de técnicas de cerco a fortalezas, da construção destas e da defesa de posições, já que a conquista territorial torna-se o objetivo principal das ações militares. A construção de muralhas torna-se uma ferramenta de defesa comum. Grandes massas de infantaria desdobram-se agora no terreno, manobrando unidades equipadas com espadas e balestras.

A Cavalaria, considerada até então uma tropa “bárbara”, é finalmente adotada pelas forças chinesas por volta do século IV a.C, apesar de representarem então uma fração diminuta das unidades de combate. Ainda assim, sua influência compele os estrategistas militares a pensarem em termos de velocidade e mobilidade, atentando também para a maior possibilidade de explorar terrenos antes inacessíveis com o uso de bigas de combate.

Partindo desde panorama, percebe-se como a crescente complexidade dos conflitos bélicos passou a exigir oficiais profissionais, versados nas ciências militares, instruídos por meio de teorias que abordassem os desafios bélicos de sua época. Os clássicos militares são as principais obras que atenderam a essas necessidades.

A notável exceção, como já descrito, é a obra “Questionamentos e respostas entre T’ang T’ai-tsung e Li Wei-kung”, publicada durante a dinastia Tang (618 a 907 d.c). Ela se diferencia das outras por ser um compilado de teorias e de eventos bélicos ocorridos até o período de sua produção.

A dinastia Tang centralizou o poder político por meio de diversas batalhas contra reinos rebeldes e povos bárbaros que ameaçavam as fronteiras, alcançando sucesso por meio de um poderoso e adestrado contingente militar. As bigas e as armas de bronze já haviam desaparecido há tempos, assim como as batalhas de choque frontal entre exércitos. As principais preocupações expressas na obra são com a velocidade e manobras de flanqueamento dos adversários.

 

A influência das teorias militares chinesas

 

As obras clássicas chinesas não moldaram apenas a cultura da China, elas difundiram sua influência por toda a Ásia. O confucionismo, filosofia também surgida durante o período dos Reinos Combatentes, é a base histórica da cultura de inúmeros países daquele continente, como o Japão e a Coreia. Igualmente, os Sete Clássicos Militares fizeram-se essenciais na formação dos militares profissionais por toda a Ásia.

No ocidente, a obra Arte da Guerra se destacou das demais pela influência alcançada. A academia de West Point, EUA, escola de formação dos oficiais da maior potência militar do planeta, integra o livro como parte de seu currículo. Há incontáveis pensadores e autoridades empresariais que baseiam suas estratégias de negócios nos princípios expostos na obra de Sun Tzu.

Obras militares chinesas contemporâneas também são objeto de atenção para estudiosos dos conflitos modernos. O Tenente-Coronel Frank Hoffman, do corpo de fuzileiros navais dos EUA, popularizou por meio de seus estudos o termo “Guerra Híbrida”, no qual se destaca como importante referência. Em sua obra, o oficial alerta para a obra “Guerra Irrestrita”, produzida por dois coronéis das Forças Armadas chinesas que, já na década de 1990, prognosticaram o uso bélico de áreas encaradas normalmente como civis, como o sistema financeiro e o sistema midiático internacional.

O uso de meios não militares para atingir objetivos nacionais está em linha com a filosofia confucionista, que pretensamente enxerga com maus olhos o uso da violência. Ainda assim, conflitos militares marcaram a história chinesa e asiática, servindo de base empírica para as teorias militares desenvolvidas.

Dessa maneira, os clássicos militares chineses podem ser vistos como importantes fundações das teorias militares chinesas e asiáticas. Seu estudo é capaz de revelar importantes princípios no moderno desenvolvimento militar chinês, representativo da importância crescente do continente asiático na geopolítica mundial.

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