A Comunicação Estratégica como experimento doutrinário: a atuação da Central de Comunicação Estratégica na COP 30

Autor: Cel Cesar Augusto Lima Campos de Moura
Segunda, 29 Junho 2026
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A COP 30, em Belém, em novembro de 2025, representou mais do que um marco diplomático para o Brasil, o evento ambiental funcionou como um ambiente real de teste para um conjunto de premissas doutrinárias que, até então, vinham sendo consolidadas em documentos, diretrizes e planejamentos institucionais do Exército Brasileiro. Em outras palavras, a operação vinculada à segurança do evento não exigiu apenas capacidade logística, coordenação interagências e prontidão operacional: exigiu também a tradução prática da Comunicação Estratégica em uma capacidade efetiva de proteção da legitimidade institucional, de estabilização do ambiente informacional e de resposta a narrativas hostis.

O Comando Operacional Conjunto Marajoara reuniu a Marinha, o Exército e a Força Aérea em uma das maiores operações interagências do País em 2025, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30). Criado para atuar entre 23 de maio e 21 de novembro de 2025, o Comando integrou capacidades militares, estruturas de defesa, inteligência, comunicação estratégica e logística conjunta, formando um esforço coordenado de grande escala para assegurar a segurança e a estabilidade em Belém.

Como representante do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx), recebi a missão de fazer parte da Central de Comunicação Estratégica (C Com Estrt) como oficial de ligação. No desempenho daquela função, tive a oportunidade de acompanhar esse processo como observador executante, vivenciando, em tempo real, a transição entre a formulação doutrinária e sua operacionalização prática. A Central de Comunicação Estratégica do Comando Militar do Norte (CMN) tinha sob sua supervisão direta a 7ª Seção (Seção de Comunicação Social), a Seção de Relações Institucionais, a Assessoria Parlamentar, a Assessoria Cultural, o Núcleo de Estudos Estratégicos e, especialmente neste ano, a Assessoria Especial para a COP 30 (AECOP30). Essas áreas do Comando do CMN desempenham funções relacionadas ao ambiente informacional.

Durante toda a Operação Marajoara, a C Com Estrt atuou de forma transversal e matricial, integrando informações de praticamente todos os setores e seções dos Grandes Comandos (G Cmdo), do Comando Militar do Norte, da 8ª Região Militar, do Comando Conjunto Operacional (CCOp), das Grandes Unidades e das Organizações Militares Diretamente Subordinadas e Vinculadas (OMDS e OMV do CMN), abrangendo toda a área de responsabilidade do CMN em níveis operacional e não operacional.

É importante notar que, naquele contexto, a forte polarização ideológica no ambiente informacional, tanto no ambiente brasileiro quanto no internacional, influenciava diretamente o cenário político, econômico e social ao redor da COP 30, impactando também a imagem e a reputação do Exército Brasileiro perante públicos internos e externos. Diante de um ecossistema caracterizado por disputas de narrativas e pela rápida circulação de conteúdos, identificou-se um aumento de ações voltadas à disseminação sistemática de desinformação e à formação de enquadramentos negativos acerca da atuação das Forças Armadas.

Na prática, foi possível perceber que o desconhecimento, por parte de segmentos da sociedade, das ações institucionais do Exército em benefício da população ampliava a vulnerabilidade a conteúdos tendenciosos ou falsos, tornando a Instituição mais exposta a leituras hostis e ao desgaste de sua reputação. Essas tensões tornaram-se ainda mais evidentes durante a fase operativa da Operação Marajoara, especialmente devido às restrições informacionais impostas pelo cenário político delicado decorrente da Operação Contenção, no Rio de Janeiro, e às demandas pelo emprego das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) naquela região. Essa conjuntura desafiou significativamente a capacidade institucional de demonstrar transparência, neutralidade, legitimidade e confiança pública na atuação em Belém.

O laboratório doutrinário e a passagem da norma à operação

A implementação da Central de Comunicação Estratégica (C Com Estrt) não foi um detalhe organizacional nem um simples rearranjo burocrático. Essa ação estratégica representou a criação de um núcleo de convergência para integrar capacidades diversas em torno de um mesmo problema: como proteger a legitimidade institucional do Exército em um ambiente informacional complexo, sensível e potencialmente adverso. A partir dessa perspectiva, a C Com Estrt operou como um verdadeiro laboratório doutrinário, no qual princípios formulados em documentos estratégicos precisaram ser convertidos em mecanismos concretos de monitoramento, coordenação narrativa, produção de conteúdo e resposta rápida.

Essa transição da norma à operação é talvez uma das principais lições da experiência de emprego da Comunicação Estratégica na Operação Marajoara. A doutrina do Exército já apontava que a comunicação deveria ser compreendida como um processo contínuo, integrado e orientado à preservação da credibilidade institucional, alinhando, sincronizando e integrando todos os agentes em todos os níveis de atuação. Em Belém, essa orientação precisou ser colocada à prova diante de condições reais: pressão de tempo, multiplicidade de atores, exposição pública intensa, circulação de boatos, tensões políticas e expectativas divergentes entre públicos locais, nacionais e internacionais. A C Com Estrt nasceu para responder a uma exigência concreta: garantir a unidade interpretativa e a capacidade de ação no ambiente informacional.

Esse esforço exigiu a articulação entre vetores que, historicamente, tendiam a operar de forma mais compartimentada. Comunicação social, relações institucionais, monitoramento das diversas mídias, inteligência e leitura do ambiente digital passaram a compor uma mesma lógica operacional. Isso não significa que todas as tensões tenham sido eliminadas, mas houve uma tentativa institucional clara de superar a visão fragmentada da comunicação. A experiência mostrou que, em contextos críticos, a comunicação estratégica não se sustenta como função periférica, sua aplicação fornece uma arquitetura de coordenação e gestão, partindo do mais alto nível de comando da Força.

Nesse sentido, as matrizes de planejamento e os instrumentos internos utilizados na operação, como ferramentas de sistematização, documentos e procedimentos de análise de riscos narrativos, desempenharam papel decisivo na execução das ações do Comando Conjunto Marajoara. Essa documentação de planejamento permitiu organizar o fluxo informacional, mapear públicos, antecipar ataques reputacionais, prever contranarrativas e orientar a produção de conteúdos com maior aderência ao cenário. Tudo isso conferiu um olhar analítico sobre o ambiente informacional, permitindo aos integrantes da C Com Estrt uma condição específica de pesquisa insider, observando, com vantagens e riscos, tudo o que envolvia a operação. A principal vantagem foi o acesso imediato às engrenagens reais da operação. O principal risco esteve na necessidade permanente de vigilância metodológica para evitar naturalizações, vieses corporativos ou leitura acrítica do próprio objeto.

Por isso, a validade dessa observação não pode repousar apenas no testemunho individual do comandante ou de poucos decisores; é preciso que a metodologia empregada esteja sustentada por meio de triangulação de informações. No caso da Operação Marajoara, isso significou confrontar o que foi previsto nos documentos de planejamento com o que estava sendo executado e divulgado, ou seja, com os produtos gerados pela Agência Marajoara (braço executor da vertente Comunicação Social da C Com Estrt), bem como com os resultados agregados de percepção e visibilidade, associados à operação, provenientes dos mais diversos sensores integrantes do Comando Conjunto Marajoara. É essa triangulação que permite afirmar que a C Com Estrt operou, de fato, como experimento doutrinário: não apenas porque existiu formalmente, mas porque produziu efeitos verificáveis sobre a presença pública do Exército durante a COP 30.

Tensões éticas, acesso restrito e o problema da transparência

Na dimensão informacional, os instrumentos de monitoramento e análise do ecossistema digital constituíram um dos pilares mais sensíveis da Operação Marajoara. Em qualquer estratégia que envolva a observação de fluxos comunicacionais e o acompanhamento de tendências narrativas em larga escala, torna-se imperativo manter um compromisso inegociável com os princípios da proporcionalidade, impessoalidade e finalidade institucional. A coleta e o processamento de dados nas mídias sociais não visavam à vigilância, mas à construção de uma consciência situacional informacional robusta. A arquitetura forneceu leituras de alta precisão sobre os diversos atores envolvidos na COP 30.

Um ecossistema com diversos sensores bem calibrados, para atender aos objetivos de comunicação estabelecidos para o emprego da tropa, permitiu mapear com precisão o atingimento dos indicadores-chave para o sucesso da missão das Forças Armadas em cada fase da Operação Marajoara. Ao alinhar a tecnicidade do monitoramento algorítmico ao estrito cumprimento do dever legal e à proteção da sociedade, a Central de Comunicação Estratégica (C Com Estrt) demonstrou que a eficácia operacional é indissociável do respeito às fronteiras éticas.

Generalização, aprendizagem institucional e fronteiras tecnológicas

Embora a Operação Marajoara tenha ocorrido em um contexto muito específico, um megaevento internacional na Amazônia, sob elevada pressão política, diplomática e midiática, suas lições extrapolam o caso de Belém. A principal delas é que as organizações hierárquicas, especialmente as instituições públicas e militares, já não podem tratar a comunicação como uma função acessória. Em ecossistemas mediados por plataformas, algoritmos e dinâmicas de circulação acelerada, a disputa por legitimidade é contínua. Não se trata apenas de divulgar ações, mas de construir inteligibilidade pública sobre elas, reduzir vulnerabilidades narrativas e ocupar o espaço de interpretação antes que ele seja preenchido por versões distorcidas.

Nesse sentido, as conclusões do caso têm potencial de generalização analítica, ainda que não estatística; são transferíveis, sobretudo, para contextos em que instituições de Estado enfrentam operações de alta visibilidade, necessidade de coordenação interagências, presença digital intensa e risco de desinformação. O modelo de integração entre comunicação social, inteligência, monitoramento e leitura estratégica do ambiente informacional pode inspirar outras experiências, desde que seja adaptado às especificidades de cada instituição e missão. A generalização possível aqui não é a repetição mecânica do arranjo, mas o reconhecimento de um princípio: a comunicação estratégica precisa ser concebida como parte da governança operacional.

Outro aspecto relevante da experiência foi a demonstração de que a atuação bem-sucedida no ambiente informacional depende de capacidades técnicas cada vez mais refinadas. A Agência Marajoara, ao operar como núcleo de produção e circulação contínua de conteúdo, mostrou que a presença institucional eficaz exige agilidade, adequação de linguagem, compreensão das lógicas de plataforma e sensibilidade a formatos de alto compartilhamento. Isso aproxima a comunicação militar de debates contemporâneos sobre transmídia, espalhabilidade e ativismo narrativo. O que se observou em Belém foi o uso de conteúdos multicanais, curtos e de rápida circulação, como forma de disputar atenção, reduzir o ruído e refutar narrativas falsas de maneira mais eficiente do que seria possível apenas com comunicados formais.

Sob essa perspectiva, talvez a maior contribuição da Operação Marajoara para o pensamento comunicacional do Exército Brasileiro esteja menos em um conjunto fechado de respostas do que na abertura de uma agenda institucional. A experiência mostrou que a Comunicação Estratégica pode, de fato, funcionar como vetor de proteção da legitimidade, de fortalecimento da confiança e de defesa da missão. Mas também mostrou que isso exige autonomia técnica, doutrina amadurecida, sensibilidade ética e disposição para aprender com as próprias tensões do campo.

A experiência em Belém revelou que a Comunicação Estratégica, no contexto atual, não deve ser vista apenas como um complemento às operações ou como um conjunto de ações voltadas à visibilidade da Instituição. Nesse tipo de operação, comunicar significa criar condições de compreensão da presença do Exército no espaço público, reduzir incertezas, gerar confiança e, sobretudo, impedir que o ambiente informacional seja dominado por leituras parciais, desinformação ou atitudes hostis à imagem das Forças Armadas. O caso da COP 30 mostrou que a doutrina de Comunicação Estratégica só se fortalece de fato quando é testada na prática.

Como observador executante desse processo, considero que Belém marcou um ponto de inflexão. Ali, a Comunicação Estratégica deixou de aparecer apenas como formulação doutrinária ou promessa organizacional e passou a se manifestar como prática testada, tensionada e aperfeiçoada em situação real. A COP 30 impôs ao Exército Brasileiro uma prova complexa, e a resposta da Central de Comunicação Estratégica indicou que o futuro da comunicação institucional militar passa, necessariamente, por integração, inteligência, presença digital qualificada e compromisso público com a legitimidade. Esse foi, em essência, o experimento doutrinário vivido em campo.

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