A BATALHA NAVAL DO RIACHUELO

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 12 Junho 2026
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No dia 11 de junho de 1865, a sorte da Campanha da Tríplice Aliança foi jogada nas águas do Rio Paraná.

De um lado a forte Armada Imperial Brasileira, com seus navios de grande calado e sua experiência em águas azuis1.Do outro, a jovem Marinha Paraguaia, apoiada por artilharia terrestre, navios mais adequados à navegação em águas marrons2.

Antecedentes

Até então o conflito fora um canto de vitórias guaranis: a apreensão do navio Marquês de Olinda, a ocupação de partes do Mato Grosso, do sudoeste brasileiro e da província argentina de Corrientes.

Sentindo-se forte e confiante, López concebeu um plano que, se fosse vitorioso, decidiria a guerra: atacar de surpresa a força naval brasileira fundeada ao lado do Gran Chaco, a 25 km ao sul da cidade de Corrientes, a 3 km da margem esquerda, capturando seus navios.

A ousada manobra consistia em navegar na calada da noite e abordar os navios brasileiros ancorados, de forma a surpreender as tripulações.

A colocação de uma bateria de 22 canhões, foguetes à "Congreve" e 1200 atiradores comandados pelo Tenente-Coronel José María Bruguez em terra, próximo à foz do Arroio Riachuelo, local onde o rio Paraná se estreitava, abundavam os bancos de areia e ilhotas e a atração da esquadra brasileira para aquele sítio, onde esta seria submetida a fogos de terra, constituía uma variante da linha de ação mencionada.

A frota brasileira, comandada pelo Almirante Tamandaré, se dividia em 3 divisões navais3, uma estacionada na foz do Rio da Prata e duas operando no Rio Paraná, efetuando o bloqueio deste, assim constituídas:

A 2ª Divisão Naval sob o comando do Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, comandante-geral do bloqueio, com a seguinte composição: Fragata Amazonas, capitânia, corveta Parnaíba, e canhoneiras Mearim, Araguari e Iguatemi.

3ª Divisão Naval, comandada pelo Capitão de Mar e Guerra José Secundino de Gomensoro, constituída pelas seguintes belonaves: corvetas Jequitinhonha e Belmonte e canhoneiras Beberibe e Ipiranga.

Ao todo 9 navios de guerra, totalizando 59 canhões, contando com cerca de 2300 homens, sendo 1200 do Exército.

A armada guarani era chefiada pelo Comodoro4 Pedro Ignácio Meza e era composta da seguinte forma: Corvetas Tacuarí, capitânia e Paraguary, os vapores Ygureí, Marquês de Olinda (tomado ao Brasil), Salto Oriental, Yporá, Jejuy, Pirabebé e Rangel e Iberá, sendo que cada navio rebocava uma pequena embarcação denominada chata, que trazia um canhão com a possibilidade de fazer tiros à altura da linha d’água, totalizando 49 bocas de fogo.

Lutavam no lado paraguaio, entre marinheiro, soldados embarcados e tropas desdobradas em terra, cerca de 3000 homens.

1ª fase da batalha: a aproximação da Esquadra Paraguaia e primeiro combate.

Na madrugada de 11 de junho de 1865, logo após a meia-noite, a força-tarefa paraguaia zarpou de Humaitá, calculando atingir a frota brasileira pouco antes do amanhecer. Na altura de 3 Bocas, confluência dos Rios Paraguai e Paraná, o vapor Iberá apresentou problemas.

Após infrutíferas tentativas, o navio foi retirado da força de ataque, mas a atrasou..

Às 08h30, o vigia da Mearim deu o alarme:

- INIMIGO À VISTA!

Barroso mandou inçar as primeiras ordens do dia:

-PREPARAR PARA O COMBATE!

Em seguida:

-SAFA GERAL!

E, sem demora:

- DESPERTAR FOGOS!5

A partir das 09 horas, iniciou-se a troca de tiros. Começara a batalha.

O vapor Jejuy foi atingido e duas chatas afundadas e uma terceira avariada.

Perdida a surpresa, Meza lançou mão da variante, descendo o rio e se colocando próximo à foz do arroio que daria nome a batalha, onde se encontravam encobertas as forças terrestres guaranis.

2ª fase da batalha: o deslocamento da Esquadra Brasileira

Somente às 10h50, a força brasileira se pôs em movimento em fila indiana, com a corveta Belmonte à frente e a capitânia à retaguarda.

A Amazonas saiu de formação, buscando bloquear a fuga do inimigo, mas sua manobra não foi bem compreendida, fazendo com que a Jequitinhonha também deixasse a coluna.

Ao tentar retornar, acabou encalhando em um banco de areia, ficando à mercê das baterias de terra.

Toda força brasileira, com exceção da Belmonte, parou a progressão.

Barroso, percebendo o erro, tomou a frente da esquadra e buscou um local para manobrar rio abaixo, seguido pela Beberibe, Mearim, Araguari, Iguatemi e Ipiranga.

Nessa hora, foi inçado mais um sinal:

- O BRASIL ESPERA QUE CADA UM CUMPRA O SEU DEVER6.

3ª fase da batalha: o combate favorece os paraguaios

A Parnaíba, fechando a coluna, voltou para socorrer a Jequitinhonha e teve seu leme avariado, ficando à deriva, sendo logo cercada pelo Taquari, Salto e Paraguary.

Enquanto isso, a Belmonte prosseguia. Seu comandante decidiu fazer uma passagem de fogos completa, oportunidade em que sozinha trocou tiros com toda frota inimiga, sendo alvejada por esta e pelas baterias de terra, ficando seriamente avariada, restando-lhe dirigir-se ao banco de areia mais próximo, na ilha Cabral, onde encalhou para não ir a pique.

Por volta das 13 horas, a situação da batalha era a seguinte: a Jequitinhonha, encalhada sob fogo das baterias de terra, a Belmonte avariada e fora de combate, a Paranaíba triplamente cercada e o grosso da frota descendo rio em busca de um local para manobrar.

A despeito da Paraguary ter sido repelida, mais um navio paraguaio cercou a Parnaíba, o Marquês de Olinda, transformando o convés em uma arena, onde 575 os atacantes enfrentam 263 os defensores.

Lá se escreveu a lenda de Riachuelo: em defesa da Bandeira Nacional, se bateram até a morte o marinheiro Marcílio dias, o guarda-marinha Greenhalgh, e os oficiais do Exército Pedro Afonso e Andrade Maia.

Tudo parecia perdido, ao ponto do comandante da canhoneira, Aurélio Garcindo, se decidir por explodi-la para que não caísse em mãos inimigas.

Quando a ordem ia ser cumprida, vivas em língua portuguesa interromperam a ação: o restante da Esquadra Brasileira retornava, tendo a Amazonas à sua frente.

4ª fase da batalha: a vitória brasileira.

A Amazonas como um aríete passou a despedaçar as naves guaranis.

Barroso mandou inçar o último sinal do dia:

-SUSTENTAR O FOGO QUE A GLÓRIA E NOSSA!7

O primeiro a sentir o peso da capitânia brasileira foi o já avariado Jejuy, logo posto fora de combate. A seguir foi a vez do Marques de Olinda e do Salto Oriental serem abalroados, assim como 4 chatas.

Por volta das 17 horas, Meza, mortalmente ferido, reconhece a derrota e se retira com os navios que lhe sobraram, perseguido pela Araguari e Beberibe.

Conclusão

O saldo da batalha foi amplamente favorável ao Império do Brasil: 104 mortos, 142 feridos e 20 desaparecidos, contra 350 mortos e 567 feridos paraguaios. Os brasileiros perderam um navio, a corveta Jequitinhonha, enquanto o Paraguai, teve os já citados 4 navios e 6 chatas postos fora de combate.

A partir de então, o Brasil tornou-se senhor inconteste das águas da Bacia do Rio da Prata.

REFERÊNCIAS

ALVES DE ALMEIDA, Francisco Eduardo. Riachuelo: uma batalha de controvérsias. Navigator. Rio de Janeiro, V. 11, nº 21, p. 54-73 – 2015.

D’AGUIAR, Hernani. Batalha Naval do Riachuelo. A Defesa Nacional, [S. l.], v. 52, n. 607, 2020. Disponível em: https://www.ebrevistas.eb.mil.br/ADN/article/view/4995. Acesso em: 10 de abril de 2026.

MAIA, Prado. A Marinha de Guerra do Brasil na Colônia e no Império. José Olympio Ed. Rio de Janeiro. 1965

1 Refere-se à capacidade naval de atuar em alto-mar, longe da costa

2 É uma força naval focada em operações em águas interiores.

3 Unidade militar composta por dois a quatro navios de guerra, geralmente sob comando de um oficial superior ou almirante, agindo como subdivisão de uma frota ou esquadra.

4 É uma patente militar de oficial general (uma estrela) em muitas marinhas, situando-se acima de capitão de mar e guerra e abaixo de contra-almirante.

5 D’AGUIAR, Hernani. Batalha Naval do Riachuelo. A Defesa Nacional, Rio de Janeiro, v 52,nº607,p124,Mai/Jun 66

6 Op cit ,p126

7 Op cit 128

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História

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