Servir antes de comandar ainda é necessário? Liderança jovem em um ambiente de aceleração cognitiva

Autor: S Ten Sionir
Quarta, 09 Setembro 2026
Compartilhar

Entre a experiência vivida e a competência antecipada, a formação da liderança enfrenta novas tensões

Dentro de uma geração de jovens, temos homens e mulheres que cedo revelam o desejo e a aptidão para servir e liderar em qualquer uma das trilhas militares possíveis. Hábeis nos meios digitais, em poucos minutos, percorrem análises sobre liderança, geopolítica e estratégia produzidas por especialistas de diferentes países, comparam argumentos, identificam falhas e formam suas próprias conclusões. Destacam-se pela clareza ao se expressarem e pela segurança com que sustentam suas ideias. Para muitos, já demonstram traços de liderança. Ainda assim, nunca precisaram sustentar, por tempo prolongado, as consequências de uma decisão sob pressão, nem conduzir militares que dependem diretamente de suas escolhas em contextos de incerteza real.

É nesse ponto que, uma leitura platônica sobre ninguém ser capaz de comandar sem antes saber servir deixa de ser apenas um princípio abstrato e passa a operar como problema concreto para a formação militar. Em um ambiente marcado pela aceleração do acesso à informação, pela antecipação de competências e pela construção precoce de identidade, a trajetória tradicional que vinculava experiência prolongada à autoridade militar passa a ser tensionada por estes jovens líderes.

A questão que se impõe, portanto, não é se eles estão ou não preparados para liderar, mas se os critérios que tradicionalmente definiam essa preparação nas escolas militares ainda se sustentam sob novas condições cognitivas, sociais e temporais.

Ao observarmos estes jovens, torna-se evidente que o acesso à informação deixou de ser fator limitante na formação inicial. A capacidade de compreender conceitos complexos, comparar modelos e formular respostas rápidas já não depende exclusivamente de vivência prolongada. Ainda assim, compreender uma situação não é o mesmo que sustentá-la ao longo do tempo, especialmente quando ela envolve militares, riscos e consequências cumulativas.

É nesse ponto que a distinção entre conhecimento e internalização ganha relevância. Conforme argumenta Bandura (1986), indivíduos podem aprender por observação e modelagem, mas a consolidação de comportamentos depende da interação entre experiência, feedback e contexto. Aplicado à liderança militar, isso significa que a compreensão teórica de decisões complexas não garante a capacidade de executá-las sob pressão real, como em instrução de campo ou operações reais.

Paralelamente, o ambiente digital introduz um elemento adicional: a construção antecipada de identidade. Como observa Sherry Turkle (2011), indivíduos passam a elaborar versões de si mesmos mediadas por interação constante e validação simbólica. No caso da formação militar, isso permite que jovens desenvolvam não apenas competências cognitivas, mas também uma autoimagem de liderança antes de terem vivenciado plenamente suas exigências operacionais e morais.

Essa dinâmica ocorre em um contexto mais amplo de transformação social, descrito por Bauman (2021) como marcado pela fluidez e aceleração. A ideia de que a liderança militar deve ser precedida por etapas extensas de formação entra em tensão com uma cultura que valoriza agilidade e protagonismo precoce. Para o Exército, esperar pode ser interpretado não como atraso, mas como tempo necessário para calibrar julgamento.

Ainda assim, a ausência de experiência direta produz efeitos que nem sempre são imediatamente perceptíveis. Decidir envolve mais do que escolher entre alternativas plausíveis; implica lidar com incerteza, absorver erros e responder por impactos que se estendem no tempo. Sem essa vivência, a tendência é subestimar variáveis críticas, algo que a formação militar progressiva busca corrigir.

O problema, portanto, não reside no fato desses jovens desejarem liderar ou desenvolverem competências precocemente. A tensão emerge quando a velocidade de aquisição de conhecimento não é acompanhada pela mesma profundidade de experiência militar. Nesse descompasso, a liderança tende a se apoiar mais na confiança percebida do que na capacidade efetivamente testada.

Diante disso, a leitura platônica preserva sua relevância para a formação militar, mas exige reinterpretação. "Servir" deixa de ser apenas etapa hierárquica e passa a ser processo de exposição deliberada à realidade militar, no qual o indivíduo confronta limites, experimenta consequências e desenvolve responsabilidade progressiva, tanto técnica quanto moral. O comando, por sua vez, deixa de ser função atribuída e passa a ser capacidade sustentada ao longo do tempo.

Em última análise, a liderança militar contemporânea não elimina a necessidade de formação, mas altera seus desafios. O acesso à informação amplia possibilidades, acelera aprendizados e antecipa competências, mas não substitui integralmente a experiência que molda o julgamento sob pressão. Para estes jovens, o Exército oferece exatamente esse ambiente: onde potencial intelectual encontra a disciplina, a instrução e a responsabilidade que transformam aptidão em liderança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 13. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

BANDURA, Albert. Social foundations of thought and action: a social cognitive theory. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1986.

TURKLE, Sherry. Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Nova ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

Comentarios

Comentarios

カテゴリフィルター

Artigos Relacionados