Liderança de Pelotão em Operações Interagências na Amazônia: Desafios e aprendizados na atuação de um jovem oficial

Autores: 2º Ten José Felipe Zimer
Quarta, 18 Fevereiro 2026
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Introdução

As operações interagências na Amazônia representam um dos maiores desafios à liderança militar contemporânea. O ambiente hostil, o isolamento prolongado, a complexidade logística e a convivência com agentes de diferentes instituições impõem ao comandante de pequenas frações a necessidade de um preparo técnico e emocional que transcende o campo estritamente militar.

Neste contexto, a experiência de um jovem oficial de pelotão em operações recentes — como a Operação de Desintrusão da Terra Indígena Munduruku, em 2024, e a Operação Atlas, em 2025 — revela aspectos essenciais da liderança em ambiente de selva e contribui para o aprimoramento da doutrina do Exército Brasileiro.

O presente artigo busca refletir sobre esses desafios, tomando como base vivências reais em operações de campo na Amazônia, à luz da doutrina de liderança e dos valores institucionais da Força Terrestre.

  1. O início da trajetória e os primeiros desafios da liderança

O ingresso de um oficial recém-formado em uma Organização Militar Operacional de Selva é marcado por intensas demandas de adaptação. Apesar da sólida formação das escolas, o início da vida na tropa representa um choque de realidade: a transição da teoria para a prática do comando.

Ao assumir a função de Comandante de Pelotão, o jovem oficial deparou-se com a responsabilidade de liderar efetivamente militares em situação de prontidão constante. O desafio inicial residia na distribuição de missões e no entendimento do perfil individual de cada subordinado — tarefa que, segundo o Manual de Campanha C 20-10 – Liderança, “exige do comandante o conhecimento das capacidades, limitações e motivações de seus liderados, a fim de extrair deles o melhor desempenho em qualquer circunstância”.

Com o passar dos meses, a experiência prática aprimorou a capacidade de tomar decisões rápidas, comunicar-se com clareza e manter a coesão da fração, habilidades que se tornariam vitais nas operações futuras.

  1. Vivências e aprendizados nas operações de campo

    1. Operação de Desintrusão da Terra Indígena Munduruku

A primeira grande missão operacional foi a Operação de Desintrusão da Terra Indígena Munduruku, em dezembro de 2024. O oficial assumiu o comando do Pelotão de Segurança da Base, responsável pela proteção da área e pela integridade da tropa.

A rotina na Amazônia impôs severos desafios físicos e psicológicos. Longos deslocamentos em estradas de chão, ausência de comunicação externa e o isolamento do convívio civil tornaram-se parte da realidade cotidiana. O ambiente exigia resistência e, sobretudo, liderança moral.

Durante o período de aquartelamento prolongado, especialmente nas festividades de fim de ano, o comandante percebeu a importância de manter a moral da tropa elevada, mesmo diante da saudade e do cansaço. Conforme a doutrina registra, “o moral é a força espiritual que mantém a coesão da tropa em situações adversas” (C 20-10).

Um episódio simbólico ocorreu no retorno da missão, próximo à virada do ano. O ônibus que transportava o pelotão atolou em plena estrada amazônica, obrigando todos a pernoitar na posição sob chuva e sem previsão de resgate imediato. À noite, marcada pelo cansaço e pela frustração da possibilidade de passar mais um momento festivo longe da família, poderia facilmente degenerar em desânimo coletivo.

Entretanto, a postura do comandante, de serenidade e incentivo mútuo, é decisiva. Ao reforçar a ideia de que todos estavam juntos e que o êxito de um dependia do esforço de todos, conseguiu manter a unidade e a disciplina do grupo até a resolução do problema ao amanhecer. Situações como essa revelam que a liderança, em campo, é menos sobre autoridade formal e mais sobre exemplo, empatia e equilíbrio emocional.

 

2. Operação Atlas

No ano seguinte, o oficial participou da Operação Atlas. Embora a natureza da missão fosse distinta, voltada para a presença em área de interesse estratégico, novamente emergiram novos desafios.

Durante o período de operação, ocorreu o falecimento repentino de um soldado que havia permanecido no batalhão. A notícia chegou à tropa em meio à missão, impactando profundamente o moral do efetivo.

A liderança, naquele momento, assumiu papel essencialmente humano. O comandante percebeu que a fé, independentemente de credo, era um elemento fundamental para confortar os camaradas. Reuniões informais, conversas francas e a valorização da memória do militar falecido reforçaram o sentimento de coesão e de pertencimento.

  1. A liderança em ambiente interagência e o papel do oficial jovem

As operações interagências ampliam consideravelmente as exigências sobre os militares. Na Amazônia, o Exército Brasileiro atua em cooperação com diversos órgãos de segurança pública e ambientais.

Em tais contextos, o militar de pelotão deve possuir adaptabilidade, resiliência e capacidade de diálogo. Como destacado na Doutrina de Operações Interagências (MD33- M-03), “a coordenação entre instituições de diferentes naturezas requer flexibilidade, clareza de papéis e respeito mútuo às competências legais de cada agente”.

O jovem oficial aprendeu, na prática, que a diferença de cultura organizacional entre os militares e os agentes civis pode gerar tensões. O papel do comandante de pelotão é o de mediador, garantindo que o convívio na base ocorra de forma harmoniosa e produtiva.

Ao longo das missões, observou-se também que a disciplina e a hierarquia assumem matizes diferentes no ambiente de campanha prolongada. A convivência intensa faz com que o comandante se aproxime da tropa, muitas vezes tratando seus subordinados como parte de uma família. Isso, porém, não reduz a autoridade — pelo contrário, a proximidade gera confiança, e a confiança, por sua vez, reforça a obediência consciente.

Como destaca o C 100-5 – Operações: “o comando efetivo se fundamenta no respeito mútuo, na confiança e na capacidade do líder de inspirar seus subordinados”.

  1. A maturidade do comando e a importância do exemplo

Com o passar das experiências, o oficial percebeu que a liderança não se impõe, conquista-se. Aprendeu a motivar sua tropa apelando não ao medo, mas ao orgulho.

Com isso, reforçou-se uma verdade simples, porém vital: o subordinado precisa ver no comandante alguém em quem pode confiar, e não um superior distante. A credibilidade é construída no dia a dia, na coerência entre o discurso e a ação, e no apoio prestado nos momentos mais difíceis.

Como ensinamento duradouro, percebeu que a liderança eficaz é a ponte entre a autoridade e a humanidade.

  1. Reflexões finais

As experiências vividas nas Operações Munduruku e Atlas demonstram que o verdadeiro aprendizado da liderança ocorre fora da sala de aula — nas estradas lamacentas, nas bases isoladas e nas madrugadas chuvosas da selva.

O jovem oficial que chegou à tropa com pouca experiência saiu dessas missões com uma compreensão mais profunda do que significa comandar homens em situações reais. Aprendeu que a motivação nasce do exemplo, que a fé e a esperança são forças de combate invisíveis, e que o comandante de pelotão, ainda que jovem, é pilar de estabilidade moral e emocional para seus subordinados.

Ao refletir sobre sua trajetória, reconhece que a formação militar não visa apenas transmitir técnicas, mas desenvolver a capacidade de aprender e se adaptar rapidamente. Essa habilidade, aliada aos valores de lealdade, camaradagem e disciplina, é o que garante o êxito das operações e a perpetuação do espírito militar.

A liderança, no fim, é uma jornada contínua — e cada missão é um novo capítulo dessa aprendizagem que molda o caráter, fortalece o comando e honra o compromisso com a Pátria.

Referências

BRASIL. Exército Brasileiro. C 20-10 – Liderança. Brasília: EGGCF, 2011.

BRASIL. Exército Brasileiro. C 100-5 – Operações. Brasília: EME, 2014.

BRASIL. Ministério da Defesa. MD33-M-03 – Operações Interagências. Brasília: MD, 2017.

CATEGORIAS:
Operações

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