Quatorze anos antes da chegada da Missão Militar Francesa de Instrução no Brasil, contratada em 1919 pelo governo brasileiro para auxiliar na modernização do Exército, outra embaixada militar gaulesa se fez presente em território nacional: a Missão Francesa na Força Pública de São Paulo.
No contexto da Política do Café com Leite e com os permissivos que o Federalismo instituído pela Constituição de 1891 possibilitava, o então Presidente do Estado 1de São Paulo, Jorge Tibiriçá, decidiu modernizar a Força Pública2 do mais rico estado do Brasil, contratando uma missão de instrução junto ao Exército Francês.
Os integrantes da missão chegaram à capital paulista em 21 de março de 1906, desembarcando na Estação da Luz. Esperava-os um futuro presidente da república, o Secretário da Justiça e Segurança Pública, Dr. Washington Luiz Pereira de Souza.
Chefiava a missão o Cel Paul Balany, então comandante “De Bataillon Du 103 Regiment d`Infanterie, historiador, poliglota que falava, além de sua língua pátria, inglês, alemão, espanhol e tinha noções de russo, japonês, chinês e anamita.
Secundava-o dois outros militares, Raoul Negrel e André Honeix de La Brousse.
O contrato equiparava o chefe da missão ao comandante-geral da Força Pública, previa a duração de dois anos, com a possibilidade de prorrogação.
Não foram poucos os problemas e resistências enfrentados pelos gauleses no transcurso de seu trabalho, a começar pelo idioma, motivo de não poucas ironias por parte da imprensa da época:
“Um official francez instruindo um soldado de polícia:
— A La gauche!
O soldado estupefacto:
— Que gancho, seu tenente?
—E bien, á La droite!
— Aladroado, não, senhor, seu tenente, si V.S. pega nos insurtá eu arrequeiro bacha.
Veja lá como fala, “monsiú” (...)3
Além da deficiente instrução da tropa, havia a natural resistência de oficiais e sargentos, formados na antiga doutrina.
Para piorar, menos de 3 meses após a sua chegada, a missão perdia um dos seus componentes, no episódio que passou a história como a Tragédia do Quartel da Luz: no dia 11 de junho de 1906, Raoul Negrel, com o Alferes Manoel Moraes Magalhães da Força Pública, perdia a vida , baleado pelo 2º Sargento José Rodrigues de Melo, inconformado por ter sido chamado atenção por se apresentar alcoolizado para a instrução.
Com tudo e contra tudo, os missionários prosseguiram com seu trabalho.
Ainda em 1906, o chefe da missão elaborou e fez aprovar os regulamentos: “Escola do Soldado’,“Escola da Seção”,“Escola de Companhia”, todos de Infantaria e “Escola de Cavaleiro a pé”, “Escola de Cavaleiro a cavalo”,ambos de Cavalaria, fornecendo material de instrução à corporação4.
Na elaboração dos novos regulamentos, o Cel Balany teve o valioso concurso de Francisco Júlio César de Alfieri, militar da Força Pública, de origem italiana, fluente em francês.
Em 1910, juntou-se à missão, o jovem suboficial Delphin Balancier, formado pela Escola de Joinville Le Pont e ótimo esgrimista, o que levou seu comandante a colocá-lo como coordenador de instrução do curso de esgrima.
No mesmo ano, a Lei n. 1.244, de 27 de dezembro de 1910, elaborada com assessoramento do Cel Balany, reorganizou a Força Pública, criando a Companhia Escola para instrução de recrutas e de candidatos a cabo de todos os corpos a pé; o Curso Especial de Instrução Militar, obrigatório a todos os alunos que quisessem frequentar o Curso de Instrução Geral conhecido como CIG, para formar oficiais, origem remota da atual Academia de Polícia Militar do Barro Branco5, a Seção de Esgrima e Ginástica, embrião da atual Escola de Educação Física da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
Data dessa quadra a adoção do bailado de Joinville Le Pont, como forma de condicionamento físico da tropa 6
Em 1911, a chegada de dois novos oficiais completou o quadro de instrutores da 1ª fase da missão em terras brasileiras Adrien Delbos e Louis Lemaitre, o último, especialista em combate corporal.
Dois anos depois, sob inspiração francesa, foi criada a Esquadrilha de Aviação com sede no campo do Guapira (atual Parque Edu Chaves — bairro de São Paulo).
A deflagração da 1ª Guerra interrompeu a missão, uma vez que seus integrantes retornaram ao seu país de origem para defendê-lo.
Findo o conflito mundial, a missão retomou suas atividades no ano de 1921, agora sob a chefia do Coronel Frederic Nerél.
Ao contrário da 1ª fase, iniciada com resistência e desconfiança, a nova etapa nasceu cercada de entusiasmo: a França era a vencedora da 1ª Guerra, prova cabal da excelência de sua doutrina e da qualidade do seu armamento, o próprio Exército Brasileiro contratara uma missão de instrução e principalmente as melhorias na instrução e no preparo mostravam-se visíveis.
Os currículos foram melhorados com as lições aprendidas durante o conflito na Europa.
A grande contribuição daquele interregno foi a criação do Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, CAO, que teve como seu 1º Comandante, o agora Major Francisco Júlio César de Alfieri.
A despeito do encerramento da missão em 1924, sua influência nos elevados padrões de formação dos Recursos Humanos da Força Miliciana Paulista se manteve ao longo do tempo, fazendo com que esta, ainda hoje, se destaque no cenário nacional como uma das principais Forças Auxiliares.
Em tributo ao trabalho realizado pelos abnegados instrutores da França, o governo paulista, por ocasião do centenário da missão, instituiu por meio do Decreto nº 50.713 de 10 de abril de 2006, a Medalha Paul Balagny, outorgada a personalidades civis, militares e instituições “...que tenham se destacado por relevante contribuição às ciências, letras, artes e cultura, resultando em benefício da Polícia Militar do Estado de São Paulo, sendo dignas de especial homenagem pelos seus méritos”7.
REFERÊNCIAS
GÓIS JUNIOR. Edivaldo. Nacionalismo, Educação Física e a missão francesa na Força Pública de São Paulo: uma comunidade imaginada (1906-1913). Revista Brasileira de Educação Física Esporte. São Paulo. 2016. Out-Dez 1023-32.
LINHARES. Sandra Helena. Missão Militar Francesa na Força Pública de São Paulo. Inovações institucionais e a capacitação profissional implementada ao efetivo policial-militar. Revista do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro. v.155 .p.52-61.Set/2019.
SÃO PAULO. Lei n. 1.244, de 27 de dezembro de 1910 Dispõe sobre a organização da Força Publica e dá outras providencias. DO. 31 de dezembro de 1910. Disponível em Acesso em 1º de março de 2026.
SÃO PAULO. Lei n.1.951, de 26 de dezembro de 1923 Reorganiza a Força Publica do Estado D.O 1º de janeiro de 2024. Disponível emhttps://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/1923/lei-1951-26.12.1923.htmlAcesso em 1º de março de 2026.
SÃO PAULO. Decreto nº 50.713, de 10 de abril de 2006. Institui a Medalha Coronel Paul Balagny, por ocasião do centenário da Missão Militar Francesa de instrução da então Força Pública do Estado. DOE 11 de abril de 2006. Disponível em Acesso em 1] de março de 2026.
VASCONCELOS. Fernando de Medeiros. Academia de Polícia Militar do Barro Branco: a escola militar paulista. Revista do IGHMB Rio de Janeiro. nº 108. P51-57.2021.
30º aniversário da Missão Francesa na Força Pública. Correio Paulistano. São Paulo. 1º de abril de 1936. P6 e 11.Disponível em https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=090972_08&pagfis=11796Acesso em 1º de março de 2026.
1 O mesmo que governador.
2 Força Pública era a denominação utilizada até a promulgação da constituição de 1946 para as atuais polícias militares e corpos de bombeiros militares, subordinados aos Executivos Estaduais.
3 ANDRADE; CÂMARA, 1931 apud LINHARES. 2019.p 57
4 LINHARES. Sandra Helena. Missão Militar Francesa na Força Pública de São Paulo. Inovações institucionais e a capacitação profissional implementada ao efetivo policial-militar. Revista do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro. v.155 .p.58.Set/2019.
5 Escola de formação dos oficiais da PMESP.
6 Uma dança folclórica, originalmente extraída de uma dança camponesa do interior da França, posteriormente sistematizada pela Escola de Joinville Le Pont. Com o advento das Guerras Napoleônicas essa dança foi utilizada pelos comandantes franceses como forma de treinamento e entretenimento de seus soldados.
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