Operação “Voltando em Paz” – Relato do adido - Repatriação de brasileiros da Faixa de Gaza através do Egito, após o início da Guerra Israel X Hamas, em 2023

Autores: Cel R1 Mario de Carvalho Neto
Segunda, 26 Janeiro 2026
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Em 7 de outubro de 2023, o Adido de Defesa Naval e Exército do Brasil no Egito foi informado do ataque terrorista coordenado por militantes palestinos, liderados pelo Hamas, contra cidades israelenses. A notícia veio à tona logo após o ataque e despertou preocupações imediatas sobre a segurança na região e possíveis impactos no Egito. Uma das principais questões era a eventual participação do Egito no conflito, o que poderia desencadear uma necessidade urgente de evacuação da Embaixada do Brasil no país, bem como a retirada de cidadãos brasileiros.

Dois dias depois, em 9 de outubro, o Embaixador do Brasil no Egito, Paulino Franco de Carvalho Neto, solicitou ao adido assistência no planejamento da repatriação de brasileiros que residiam na Faixa de Gaza. A ideia inicial era realizar a evacuação por via terrestre, cruzando a fronteira de Rafah no norte da Península do Sinai, até o aeroporto de Alarixe, de onde os brasileiros seriam transportados para o Brasil. A princípio, a participação do adido limitava-se a oferecer assessoria. No entanto, com o passar do tempo e o aumento da complexidade da operação, seu papel se expandiu para coordenar a operação de evacuação.

O primeiro passo foi solicitar às autoridades militares egípcias apoio de segurança para a equipe consular que viajaria do Cairo a Rafah, um percurso de cerca de 375 km. Naquela época, havia moderada atividade de grupos terroristas na região, como o ISIS, o que tornava a viagem arriscada. O embaixador solicitou ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) que acionasse o Ministério da Defesa (MD), autorizando a participação mais ativa do adido nas operações de evacuação.

Entre os dias 9 e 10 de outubro, a Embaixada do Brasil no Cairo recebeu do posto do MRE em Ramalá a lista dos brasileiros a serem evacuados da Faixa de Gaza, que foi enviada ao governo egípcio visando à permissão para entrada no Egito. Essa lista inicial incluía cerca de 35 pessoas. No entanto, a situação logo se complicou, já que as autoridades egípcias e israelenses estavam concentradas em negociar cessar-fogo temporários e em viabilizar a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Em 14 de outubro, o Egito rejeitou formalmente a entrada de estrangeiros pela travessia de Rafah, condicionando a liberação à entrada de comboios humanitários.

No dia 18 de outubro, a Força Aérea Brasileira enviou uma aeronave VC-2 ao Egito com a missão de entregar ajuda humanitária e aguardar autorização para realizar a repatriação dos brasileiros. O avião pousou no Cairo, onde ficou à espera da evacuação. Cerca de duas semanas depois outro VC-2 substituiu o primeiro, e decolou até a cidade de Alarixe para entrega de doações. Durante esse período, o adido também estava encarregado de coordenar toda a logística de sobrevoo, pouso e entrega dos donativos às autoridades egípcias e ao Crescente Vermelho.

 

O adido manteve contato constante com outros países e organizações internacionais que também estavam tentando retirar seus cidadãos de Gaza. A troca de informações era feita por meio de grupos de WhatsApp, nos quais diplomatas e adidos de diferentes países compartilhavam informações sobre as negociações em andamento. A ausência de clareza sobre os critérios utilizados para a liberação de estrangeiros tornou o processo mais incerto e complexo. A passagem por Rafah era liberada em listas diárias divulgadas em um perfil do Facebook pelas autoridades palestinas, por volta das 23 h do dia anterior, e só então as equipes de resgate podiam se deslocar para a fronteira.

Finalmente, em 9 de novembro, o nome de brasileiros constou pela primeira vez na lista de estrangeiros autorizados a cruzar a fronteira. A equipe de resgate, composta pelo adido, um diplomata do setor consular e três funcionários locais, saiu do Cairo às 3 h da madrugada do dia 10 de novembro. Após uma longa viagem, que durou cerca de 10 horas devido aos postos de controle ao longo do caminho, a equipe chegou a Rafah. Porém, o posto estava fechado, pois Israel havia bloqueado a passagem de ajuda humanitária. A equipe precisou pernoitar na cidade de Alarixe até que o posto de fronteira fosse reaberto.

No dia 12 de novembro, a primeira leva de 34 brasileiros foi finalmente autorizada a cruzar a fronteira. O Adido e sua equipe organizaram o transporte e alimentação para os resgatados, muitos dos quais estavam exaustos e famintos após mais de um mês em uma zona de guerra. Após a travessia, o grupo foi levado para um hotel no Cairo, onde pernoitaram antes de embarcar para o Brasil no dia 13 de novembro.

Enquanto a primeira missão de repatriação estava sendo concluída, surgiram informações de que outros brasileiros também precisavam de assistência. Em 16 de novembro, a Embaixada do Brasil em Ramalá informou que havia 65 pessoas, incluindo brasileiros e palestinos, interessadas em deixar Gaza. Este grupo incluía 30 crianças, 19 mulheres e 16 homens, sendo oito deles idosos. Uma nova operação de resgate foi planejada, e a lista de nomes foi enviada às autoridades egípcias.

A segunda operação de resgate foi autorizada no início de dezembro e, no dia 8 de dezembro, a equipe brasileira se deslocou novamente para Rafah. No entanto, devido à escalada da guerra e à insegurança na região, apenas 47 dos 86 brasileiros e palestinos que estavam na lista original se sentiram seguros para se aproximar da fronteira e cruzar para o Egito. Eles foram levados ao Cairo e embarcaram para o Brasil em um avião KC-30 da Força Aérea Brasileira.

Durante o período de repatriação, a equipe do adido coordenou também a entrega de duas toneladas de alimentos doados enviados pelo Brasil, em um KC-390, ao Egito. O trabalho envolvia extensas negociações para obter autorizações de sobrevoo e pouso no aeroporto de Alarixe, que estava sobrecarregado com voos de ajuda humanitária de várias nações.

No dia 21 de dezembro, a terceira e última operação de repatriação foi iniciada. A equipe de resgate foi informada de que um dos brasileiros, um idoso que havia sofrido um AVC, precisava de cuidados médicos durante o transporte. Apesar do desafio, o idoso foi levado em segurança ao Cairo. Contudo, a operação enfrentou um contratempo emocional quando uma família de quatro membros, incluindo um filho autista, teve sua passagem comprometida. O pai não recebeu autorização para entrar no Egito, forçando a família a seguir sem ele.

No dia 22 de dezembro, a última leva de brasileiros embarcou para o Brasil em um KC-30 da Força Aérea Brasileira, concluindo a operação de repatriação que resgatou mais de 100 pessoas ao longo de três missões. O conflito entre Israel e Hamas continuou, mas o Brasil conseguiu retirar seus cidadãos da zona de guerra com sucesso.

A operação de repatriação de 2023 trouxe lições valiosas, destacando a importância da colaboração entre as missões diplomáticas e as aditâncias militares. A integração do adido na missão consular, a coordenação precisa entre as Forças Armadas Brasileiras e as autoridades diplomáticas, e a rápida adaptação a situações de incerteza foram fundamentais para o sucesso da missão.

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