Game of drones: uma nova dimensão na guerra moderna

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Segunda, 15 Junho 2026
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No contexto em que o combate a distância tem substituído crescentemente o combate corpo a corpo, nos exemplos de mísseis, armas químicas e ataques cibernéticos, surgiram os drones (Nunes, 2021). Nesse sentido, entende-se que os Estados Unidos foram os pioneiros na adoção de drones há mais de vinte anos em operações antiterroristas (Modebadze, 2021). Por outro lado, o Azerbaijão foi o primeiro país a empregá-los em fins militares, no conflito contra a Armênia.

Assim sendo, a tecnologia das Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARPs) ou Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs), os conhecidos drones, tem proliferado significativamente, emergindo como componente essencial nos conflitos armados pelo globo (Al-Garni, 2022; Davies, Pettersson & Öberg, 2022). A adoção de tais equipamentos tem se disseminado por todo o planeta desde 2001, com destaque para missões no Afeganistão, Iraque, Iêmen, Líbia, Paquistão, Síria, Somália, etc (Page & Williams, 2021). E não é novidade o emprego de drones em missões de combate no conflito entre a Rússia e a Ucrânia, sem olvidar o caso de Israel.

Os drones têm sido equipamentos relevantes não somente no domínio da defesa militar, mas também são empregados em atividades policiais, de vigilância, inteligência, e até mesmo em outras esferas, como a agricultura, entretenimento, logística, com exponencial interesse da comunidade científica internacional. Este artigo não pretende explorar todas as potencialidades dos drones, residindo o interesse em discutir seu emprego nos conflitos recentes.

Como elemento tático fundamental, os drones têm sido largamente postos em ação no conflito mais noticiado nos últimos anos, que é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (Faragó, 2023). Entretanto, o valor operativo dos drones foi verificado para alvejar líderes do Talibã no Afeganistão há mais de duas décadas (Al-Garni, 2022; Page & Williams, 2021). Como componente crucial do arsenal militar contemporâneo, os drones são utilizados em missões variadas, tais como: alerta antecipado, reconhecimento, espionagem, destruição de alvos terrestres e aéreos e coleta de informações (Al-Garni, 2022).

O uso de drones nos conflitos armados, tem variado de operações de inteligência, vigilância e reconhecimento para contra-ataques (Rafiq, 2022). Nessa linha de raciocínio, as ações com drones têm se dispersado desde 2019, entre um número significativamente maior de atores, mesmo com a redução do envolvimento dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, o que levou a uma diminuição das fatalidades relacionadas a esses equipamentos não tripulados (Davies, Pettersson & Öberg, 2022).

Na estatística de Davies, Pettersson e Öberg (2022), desde 2001, os drones foram empregados em 1.983 eventos letais em, pelo menos 46 conflitos distintos, localizados em, no mínimo, 26 países. A contar do primeiro ataque letal com drone registrado em outubro de 2001, no Afeganistão, a maioria parte dos demais ataques ocorreu no próprio Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Israel e Síria (Davies, Pettersson & Öberg, 2022).

Para Davies, Pettersson e Öberg (2022), as partes beligerantes em conflitos entre Estados dominam essa tendência, mas drones armados também têm sido usados em conflitos não estatais, inclusive como apoio secundário dos EUA a grupos como as Forças Democráticas da Síria (SDF) na Síria e as Forças de Hadi no Iêmen (o governo internacionalmente reconhecido). Segundo os mesmos pesquisadores, os ataques com drones armados resultaram em quase 15.000 mortes, das quais cerca de 4.000 eram civis ou vítimas de identidade desconhecida.

Nessa conjuntura, a maioria das vítimas civis residia no Afeganistão, Etiópia, Israel, Síria e Iêmen. Por seu turno, as fatalidades decorrentes de ataques não estatais mais que dobraram entre 2018 e 2021. A Figura 1 ilustra a distribuição geográfica das fatalidades causadas por ataques com drones, incluindo o uso de drones pela França em Burkina Faso, Mali e Níger, e o uso de drones pela Turquia na Líbia e na Síria, conforme investigação de Davies, Pettersson & Öberg, 2022:

Figura 1 – Distribuição geográfica das fatalidades relacionadas aos drones

Fonte: Davies, Pettersson e Öberg (2022).

Diversas partes envolvidas também utilizaram drones em seus conflitos: por exemplo, o Azerbaijão no conflito de Artsakh (Nagorno-Karabakh); os dois governos rivais na Líbia; nos ataques da Ucrânia contra a DPR e a LPR; nas ações de Israel contra grupos palestinos em Gaza; bem como contra as forças iranianas na Síria (Davies, Pettersson & Öberg, 2022). Por sua vez, atores não estatais também empregaram drones armados, notadamente o Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

É verdade que, desde o atentado de 11 de setembro de 2001, a guerra global contra o terror tornou o termo “ataque com drone” comum, porém controverso (Rafiq, 2022). Nesse diapasão, os EUA lançaram diversas operações antiterroristas nas quais utilizaram drones Predator para identificar e eliminar agentes do terrorismo. Esse emprego tem sido acompanhado do controle estatal sobre a pesquisa e desenvolvimento dos drones, no entanto, cabe assinalar o risco da adoção sistematizada dessas aeronaves não tripuladas por organizações terroristas.

As características fundamentais, o alcance e a escala dessa ameaça emergente são menos discutidos devido à indisponibilidade dos dados. Estatísticas contam que, desde 2016, os drones foram adotados em 76 ataques terroristas que mataram 50 pessoas, além de ferirem 132 (Rafiq, 2022). Desses 76 ataques, registra-se que 27 foram ataques individuais e 9 foram coordenados.

Em termos econômico-financeiros, em comparação com uma frota tradicional de caças, construir e manter uma frota de drones é fácil e de menor custo (Rafiq, 2022). Dessa maneira, é uma opção melhor para multiplicação de força em pequenos Estados, especialmente em conflitos limitados.

Essa decisão por equipamentos aéreos de baixo custo e até mesmo riscos tem sido levada a sério por líderes africanos (Allen, 2025). Com o avanço e a disseminação global de sistemas de armas não tripuladas, uma nova era da guerra autônoma teve início, como já abordado nos parágrafos anteriores.

Na Ucrânia, o cenário mundial mais avançado em operações com drones, estes foram responsáveis por 70% dos ferimentos ou mortes em campo de batalha em 2024, substituindo a artilharia (Allen, 2025). O desenvolvimento e o comércio de drones militares envolvem desde grandes potências até pequenos Estados, os quais estão numa corrida para adquirir e empregar sistemas não tripulados.

No continente africano, quatro tendências principais estão a moldar a guerra com drones na atualidade (Allen, 2025). Em primeiro lugar, destaca-se o ritmo crescente de aquisição e utilização de drones militares. Nas últimas duas décadas, pelo menos 31 países africanos adquiriram milhares de unidades (Figura 2).

Figura 2 – Aquisições, fornecedores e compradores de drones na África

Fonte: Allen (2025), com base Center for New American Security Drone Proliferation Dataset.

O ritmo de aquisições governamentais de drones militares na África está aumentando, com pelo menos 15 acordos bilaterais de aquisição (cada acordo envolvendo de vários a mais de uma dúzia de drones) por ano desde 2020 (Figura 2). Para Allen (2025), a proliferação de drones na África (Figura 3) é impulsionada por uma ampla gama de fatores, incluindo baixo custo, crescente disponibilidade, o desejo por maior capacidade de vigilância e a capacidade de projetar poder contra um adversário vulnerável com baixo risco para o usuário.

Figura 3 – Proliferação de drones militares no continente africano

Fonte: Allen (2025), adaptado de Center for New American Security Drone Proliferation Dataset.

Em segundo lugar, as potências médias, particularmente a Turquia, estão a expandir assimetricamente a sua influência na África, respondendo à crescente procura de drones no continente. A Turquia é o principal fornecedor africano, com um total de 32 acordos, 28 dos quais celebrados desde 2021. Do lado da procura, a Nigéria (18 aquisições), a Argélia (15), a Etiópia (12) e Marrocos (11) são os principais países africanos interessados em drones (Allen, 2025).

Em terceiro lugar, os africanos estão buscando nacionalizar suas capacidades de produção de drones, particularmente com a proliferação de pequenos modelos comerciais que estão sendo modificados e integrados em operações táticas. Empresas em nove países africanos (Argélia, Egito, Etiópia, Quênia, Marrocos, Nigéria, África do Sul, Sudão e Tunísia) agora produzem drones militares, fornecendo aproximadamente 12% do mercado total de drones da África. A África do Sul, o produtor destes equipamentos mais antigo do continente, desenvolve sistemas militares não tripulados desde a década de 1970 (Allen, 2025).

Em quarto lugar, destaca-se o aumento do uso dessas ferramentas por atores não estatais. A complexidade operacional dos drones de combate de média e alta altitude representava, até recentemente, uma barreira significativa à sua aquisição por esses atores. Um pacote típico de TB2, por exemplo, é comercializado em seis unidades individuais e incluem estações de controle terrestre, terminais de vídeo e equipamentos de apoio que exigem meses de treinamento para serem operados e utilizados com eficácia. A maior acessibilidade e o menor custo dos drones, contudo, reduziram essas barreiras (Allen, 2025).

Atualmente, atores armados não estatais em nove países africanos: Burkina Faso, República Democrática do Congo, Quênia, Líbia, Mali, Moçambique, Nigéria, Somália e Sudão, adquiriram e utilizam drones militares (Allen, 2025). Essa difusão generalizada no contexto africano tem sido acompanhada pelas nações de outros continentes, como os conflitos citados a partir da guerra contra o terror.

Comuns em setores civis, com aplicações na agricultura, mineração, fotografia aérea, entrega de encomendas, monitoramento ambiental e segurança pública, os drones têm desempenhado papel crucial nas operações militares, ampliando suas tarefas desde a vigilância até os ataques ofensivos (Arana & Romero, 2024). Inovações tecnológicas recentes, incluindo maior duração da bateria, materiais leves, capacidade de carga aprimorada e sensores avançados, com a drástica redução dos custos de produção, ampliaram significativamente as aplicações de drones para além da sua adoção militar inicial.

Os mais recentes recursos de inteligência artificial (IA) aprimorados também impulsionaram a autonomia dos drones, que varia da operação totalmente manual (nível 0) à autonomia completa (nível 5), conforme Arana e Romero (2024). No nível 5, os drones podem planejar e executar missões de forma independente, com a IA cuidando do planejamento de voo, desvio de obstáculos e adaptação às mudanças de condições sem intervenção humana, permitindo maior flexibilidade e eficiência operacional tanto em contextos comerciais quanto de defesa (Figura 4).

Figura 4 – Os cinco níveis de autonomia dos drones

Fonte: Arana e Romero (2024).

Embora esses avanços tenham possibilitado a adoção comercial e civil mais eficiente, a implantação generalizada de drones militares e de vigilância apresenta desafios de segurança crescentes: custos de produção mais baixos e maior capacidade de carga permitiram que organizações terroristas e atores não estatais adquirissem e implantassem essas tecnologias em zonas de guerra (Arana & Romero, 2024). Além disso, os recentes avanços em IA permitiram que os drones realizassem ações de forma autônoma, ampliando seu potencial destrutivo, reduzindo o nível de especialização necessário para operá-los e dificultando os esforços para rastrear a responsabilidade.

Este artigo discutiu o emprego dos drones nos conflitos modernos, nos termos que sua adoção generalizada é uma corrida num jogo em que não se conhece o final, o “game of drones”. O título do artigo é um trocadilho recorrente em matérias tecnológicas e militares com alusão à famosa série produzida pela HBO, inspirada na obra "A Song of Ice and Fire”, de George R. R. Martin.

Naturalmente, o jogo dos drones como nova dimensão na guerra moderna é liderado pela maior potência econômica e militar do planeta, os EUA, acompanhado de perto pela China. Entretanto, diversos episódios dessa série geopolítica são desenvolvidos nos cinco continentes, com destaque para: Leste Europeu (guerra entre Rússia e Ucrânia); Oriente Médio (ações em Israel, Síria, Palestina e Iêmen); programa de drones iraniano; assim como a crescente adoção na África.

Referências

Al-Garni, A. D. (2022). Drones in the Ukrainian War: Will They Be an Effective Weapon in Future Wars. International Institute for Iranian Studies (Rasanah), 3-5. https://rasanah-iiis.org/english/centre-for-researches-and-studies/drones-in-the-ukrainian-war-will-they-be-an-effective-weapon-in-future-wars%EF%BF%BC/

Allen, N. (2025). Military Drone Proliferation Marks Destabilizing Shift in Africa’s Armed Conflicts. African Centre for Strategic Studies21. https://africacenter.org/spotlight/drone-proliferation-africa-destabilizing/

Arana, G.; & Romero, J. (2024). Drone Warfare in Today’s World: 15 Policy Recommendations to Improve the European Union’s Defense Capabilities.

Davies, S., Pettersson, T., & Öberg, M. (2022). Organized violence 1989–2021 and drone warfare. Journal of Peace Research59 (4), 593-610. https://doi.org/10.1177/00223433221108428

Faragó, B. (2023). Drónok Harca: Az orosz–ukrán háborúban jelen lévő drónok felértékelődése, működésük taktikai és stratégiai vonatkozásai a megváltozó hadviselési környezetben. NEMZET ÉS BIZTONSÁG: BIZTONSÁGPOLITIKAI SZEMLE15 (2), 36-54. https://folyoirat.ludovika.hu/index.php/neb/article/view/6471/5401

Modebadze, V. (2021). The importance of drones in modern warfare and armed conflicts. KutBilim Sosyal Bilimler ve Sanat Dergisi1 (2), 89-98. https://dergipark.org.tr/en/download/article-file/2402115

Nunes, A. P. (2021). A utilização de Drones armados e o Direito Internacional Humanitário. Revista Jurídica Luso-Brasileira, 7 (6), 147-180. https://www.cidp.pt/revistas/rjlb/2021/6/2021_06_0147_0180.pdf

Page, J. M., & Williams, J. (2022). Drones, Afghanistan, and beyond: Towards analysis and assessment in context. European Journal of International Security7 (3), 283-303. https://doi.org/10.1017/eis.2021.19

Rafiq, A. (2022). Drone warfare in contemporary conflicts: five lessons to gen up. https://issi.org.pk/wp-content/uploads/2022/09/IB_Aamna_Sept_19_2022.pdf

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