Fortalecendo o básico: ensinamentos colhidos na Operação Punhos de Aço

Autores: Cap Pedro Albuquerque Coutinho de Andrade
Segunda, 19 Janeiro 2026
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O Manual de Fundamentos EB20-MF-07.101 - Conceito Operacional do Exército Brasileiro – Operações de Convergência 2040 levanta, em sua primeira página, o seguinte questionamento: Como a F Ter, inserida no contexto de operações conjuntas, combinadas e interagências, será empregada face aos desafios impostos pela complexidade que caracterizará o ambiente operacional futuro, no horizonte de 2040?

A utilização contínua do carro de combate, em um contexto de Força Tarefa Blindada, permeia este tema, uma vez que o emprego destas plataformas sempre acompanhou a evolução da guerra. Ainda assim, com o avanço das tecnologias “anti-tank” — como mísseis de precisão, drones e munições inteligentes — e diante da alta demanda de manutenção que esses meios impõem, abre-se espaço para que seja retomado um velho questionamento: o meio blindado continua relevante? A observação dos conflitos recentes demonstra que sim: não só continua relevante, como permanece como um instrumento fundamental no campo de batalha moderno.

Na Guerra do Golfo (1991), o binômio formado pelo M1A1 Abrams Main Battle Tank (MBT) e pelo M2 Bradley Infantry Fighting Vehicle (IFV) foi decisivo para a rápida vitória da coalizão, combinando mobilidade, proteção blindada, ação de choque e poder de fogo1. Em conflitos mais recentes, como nas operações conduzidas por Israel em Gaza e no sul do Líbano, o MBT Merkava e o IFV Namer mostraram a eficácia da integração entre carros de combate e infantaria blindada, especialmente em ambientes urbanos e assimétricos2. Já na Guerra da Ucrânia, mesmo sob a ameaça constante de drones e munições guiadas, os blindados continuam sendo empregados de forma decisiva e em larga escala3, desde que inseridos em um sistema que envolva, de forma sinérgica, todas as funções de combate.

O Exército Brasileiro, ciente da importância perene da tropa blindada no campo de batalha moderno, vem investindo no Programa Estratégico Forças Blindadas, que busca transformar suas Brigadas Blindadas e Mecanizadas por meio da obtenção coordenada de novos meios de combate sobre rodas e lagartas4. Contudo, reconhece-se que a simples modernização do material não garante o êxito de uma Força-Tarefa Blindada. Para alcançar a plena eficiência, é indispensável o adestramento contínuo das guarnições de carros de combate, que devem aprender com as lições dos conflitos contemporâneos, compreender as nuances do emprego atual dos blindados e adaptar-se às exigências do ambiente operacional.

Em uma tropa de carros de combate, este adestramento segue uma sequência lógica que tem como base a Diretriz de Blindados do Comando Militar do Sul. Durante o ano de instrução, os pelotões de carros de combate são certificados nos níveis individual, guarnição e pelotão, participam dos Programas de Adestramento Básico de Pelotão e Subunidade (PAB Pel e SU), e, por fim, coroam o ano de instrução em um exercício nível Grande Unidade que, no caso da 6ª Bda Inf Bld, é a Operação Punhos de Aço.

A Operação Punhos de Aço 2025, que ocorreu entre 6 e 10 de outubro, foi um excelente momento para colocar em prática, no terreno, tudo que foi aprendido durante o ano de instrução, bem como identificar boas práticas e oportunidades de melhoria para o emprego de Forças Tarefas Blindadas. Por ocasião da participação da FT 1º RCC neste exercício, verificou-se a validade perene das quatro primeiras camadas da chamada “Survivability Onion5Don’t be there, don’t be detected, don’t be acquired, don’t be engaged. (Não esteja lá, não seja detectado, não seja adquirido, não seja engajado - tradução nossa).

Para não ser detectado, ou diminuir esta possibilidade, a lição é simples e contundente: o básico funciona. Apesar da proliferação de meios modernos de aquisição de alvos — drones ISR, sensores térmicos e sistemas de reconhecimento remoto — uma camuflagem bem executada continua a degradar severamente a capacidade de detecção e identificação do inimigo. Isso inclui medidas elementares, porém eficazes, como desenfiamento em curvas do terreno, emprego de vegetação para disfarçar o contorno do carro e disciplina no funcionamento dos motores, visando reduzir assinaturas térmicas visíveis e infravermelhas. Procedimentos táticos igualmente simples — dispersão adequada e movimentação apenas em horários e itinerários planejados— ampliam ainda mais a capacidade de sobrevivência da guarnição.

Percebeu-se, também, que a preocupação com os vetores aéreos e como enfrentá-los deve ganhar mais espaço no processo de planejamento. É válida a discussão de se ampliarem as funções específicas de vigias do ar, com o aumento da vigilância por parte do pelotão de fuzileiros que, desta forma, ganharia mais protagonismo nas medidas antidrone. Além disso, equipar este pelotão com jammers portáteis — uma prática já experimentada com tropas em conflitos no leste europeu — deve ter o debate aprofundado, pois constitui medida eficiente para mitigar a ameaça que esses vetores representam às tropas blindadas.

Como último ensinamento colhido, também de grande importância, destaca-se a necessidade de um comando e controle claro e eficaz. Experiências mostram que é improvável que as comunicações funcionem perfeitamente durante toda a manobra — seja por ação inimiga de guerra eletrônica, seja por limitações dos meios VHF em determinado terreno. Partindo desta premissa, torna-se imprescindível que todos compreendam com precisão as tarefas e o propósito da missão, a intenção do comandante e o estado final desejado — especialmente os comandantes de carros de combate. Para atingir este entendimento de forma plena, é necessário ensaiar. Os ensaios de sincronização devem ocupar grande parte do tempo da tropa que estiver em zona de reunião, de modo que, em contingências que prejudiquem o comando e controle, cada elemento saiba exatamente o que fazer para empregar a iniciativa alinhada à intenção do comandante.

Estes ensinamentos verificados durante a Operação Punhos de Aço, entre outros, confirmam que as técnicas, táticas e procedimentos basilares do emprego de tropas blindadas corroboram para que o carro de combate mantenha papel central na manobra terrestre do presente, e continue sendo elemento essencial no combate do futuro. No ambiente operacional contemporâneo, caracterizado pela volatilidade, complexidade, incerteza e ambiguidade, além da constante ameaça de sensores, drones e guerra eletrônica, a superioridade não será alcançada apenas pela tecnologia, mas pela combinação de adestramento rigoroso, disciplina tática e liderança eficaz.

Por fim, enfatiza-se que a preparação prévia, o domínio da intenção do comandante, a iniciativa e a disciplina em todos os escalões, garantem a coesão da tropa quando as comunicações falham. Já o apoio mútuo entre o carro de combate e o fuzileiro reforça a letalidade e a proteção de uma Força Tarefa Blindada. Dessa forma, é pertinente concluir que o fortalecimento de procedimentos já consolidados em nossa doutrina mostra-se como fator diferencial para o sucesso das operações, especialmente com as ameaças e características presentes no campo de batalha moderno.


 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Manual de Fundamentos EB20-MF-07.101 – Conceito Operacional do Exército Brasileiro: Operações de Convergência 2040. 1. ed. Brasília: EME, 2023.

BURGESS, Michael; GAIDOW, Svetoslav. Survivability for Deployable Protected Land Vehicles: concepts, models and applications. Journal of Battlefield Technology, v. 18, n. 2, p. 7-13, jul. 2015.

EUROPEAN SECURITY & DEFENCE. Namer Heavy APC and IFV. European Security & Defence Magazine, v. 6, n. 6, p. 42-45, 2018

FORÇAS BLINDADAS. Programa Estratégico Forças Blindadas. 2025. Disponível em: https://epex.eb.mil.br/index.php/programas-estrategicos-do-exercito/forcas-blindadas. Acesso em: 18 out. 2025.

SZNAJDERMAN, Bruno. Ucrânia diz ter abatido 3 mil tanques e 9 mil blindados russos em 2024. Gazeta do Povo, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ucrania-diz-ter-abatido-3-mil-tanques-e-9-mil-blindados-russos-em-2024/. Acesso em: 15 out. 2025.

UNITED STATES. General Accounting Office. Operation Desert Storm: Early Performance Assessment of Bradley and Abrams (GAO/NSIAD-92-94). Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1992.

1 UNITED STATES. General Accounting Office. Operation Desert Storm: early performance assessment of Bradley and Abrams (GAO/NSIAD-92-94). Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1992.

2 EUROPEAN SECURITY & DEFENCE. Namer Heavy APC and IFV. European Security & Defence Magazine, v. 6, n. 6, p. 42-45, 2018. Disponível em: https://euro-sd.com/wp-content/uploads/2019/07/ESD_06_2018_WEB.pdf. Acesso em: 12 out. 2025.

3 SZNAJDERMAN, Bruno. Ucrânia diz ter abatido 3 mil tanques e 9 mil blindados russos em 2024. Gazeta do Povo, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ucrania-diz-ter-abatido-3-mil-tanques-e-9-mil-blindados-russos-em-2024/. Acesso em: 12 out. 2025.

4FORÇAS BLINDADAS. Programa Estratégico Forças Blindadas. 2025. Disponível em: https://epex.eb.mil.br/index.php/programas-estrategicos-do-exercito/forcas-blindadas. Acesso em: 12 out. 2025.

5 BURGESS, Michael; GAIDOW, Svetoslav. Survivability for Deployable Protected Land Vehicles: concepts, models and applications. Journal of Battlefield Technology, v. 18, n. 2, p. 7-13, jul. 2015.

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