Comunicação Social Militar e Guerra Cognitiva: coesão interna e legitimidade

Autor: S Ten Sionir
Quarta, 06 Maio 2026
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As guerras sempre acompanharam as transformações tecnológicas de seu tempo. Mas hoje essas transformações passam por uma digitalização da vida social, pela hiperconectividade e pela centralidade das redes sociais na formação de opiniões e identidades. Nesse cenário, parte relevante dos conflitos migra do campo físico para o campo das percepções: disputa-se menos o território geográfico e mais o território mental.

É exatamente nesse ponto que emerge a ideia de guerra cognitiva: o emprego articulado de meios informacionais, cibernéticos e psicológicos para intervir nos processos de percepção, julgamento e decisão de indivíduos e grupos, produzindo efeitos estratégicos no domínio humano (Claverie & Du Cluzel, 2022). O alvo deixa de ser apenas a infraestrutura do inimigo e passa a ser, de maneira direta, a forma como pessoas pensam, sentem e agem.

No âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a guerra cognitiva é descrita como um conjunto de atividades que visam afetar o domínio humano, isto é, atitudes, crenças e comportamentos, por meio da exploração de vulnerabilidades cognitivas e sociais. Já Claverie e Du Cluzel (2022) sublinham que o objetivo não é apenas influenciar o conteúdo dos pensamentos, mas alterar os processos de pensamento: atenção, memória, interpretação, tomada de decisão, entre outros.

Para as Forças Armadas, isso significa que a mente do combatente, do comandante e do cidadão se torna, simultaneamente: alvo, vetor e terreno de operações. Recolocando a Comunicação Social Militar em um lugar estratégico que vai muito além da divulgação institucional.

Isso aproxima a guerra cognitiva de operações de informação e de operações psicológicas, mas com uma diferença importante. Enquanto a guerra cibernética busca degradar redes e sistemas, a guerra cognitiva se concentra em como cérebros humanos usam a informação que recebem e em como esse uso pode ser distorcido para gerar confusão, paralisia ou adesão a narrativas específicas.

Do Nascimento (2024) mostra que, no plano geopolítico, isso abre espaço para estratégias que visam mudar percepções de ameaça, gerar conflitos entre grupos, deslegitimar instituições e criar um ambiente interno de desconfiança crônica. Além de apontar que vencer sem lutar, no sentido de Sun Tzu, ganha uma tradução contemporânea: subjugar o adversário pela manipulação sistemática de suas capacidades cognitivas. Se o alvo passa a ser a mente, é preciso perguntar onde ela é, atualmente, mais exposta e vulnerável.

Dessa forma, sendo a mente um alvo, as redes tornam-se o terreno de operação por excelência. Nichols (2024) demonstra como plataformas digitais se tornaram ecossistemas de influência permanente, nos quais algoritmos, dados pessoais e interação em tempo real permitem segmentar públicos, testar mensagens e amplificar narrativas com precisão inédita. É nesse ambiente que se multiplicam: campanhas de desinformação; uso de bots e contas coordenadas; microdirecionamento de conteúdos politicamente sensíveis; e a exploração de “câmaras de eco” e “bolhas de filtro” que isolam seus usuários em universos informacionais paralelos.

Esse quadro não permanece restrito à população em geral. Na prática, isso significa que o mesmo militar que atua em uma operação real também é “combatente” e alvo em um fluxo constante de conteúdos sobre política, defesa, crise e legitimidade institucional, muitas vezes sem perceber que está sob influência. Grupos fechados de mensagens, listas de transmissão e canais paralelos se tornam espaços em que boatos, interpretações parciais e narrativas hostis podem circular com mais rapidez do que comunicados oficiais.

A consequência se mostra como uma vulnerabilidade dupla: a sociedade civil passa a ser alvo de campanhas que buscam desgastar a confiança nas Forças Armadas, ao mesmo tempo em que o público interno é exposto a pressões e narrativas que podem fragmentar a coesão e a disciplina cognitivas necessárias à missão. No pensamento brasileiro de defesa, segundo Nichols (2024), a Expressão Psicossocial do Poder Nacional reúne fatores simbólicos, culturais e emocionais que sustentam o vínculo entre sociedade, instituições e projeto de país. Trata‑se da dimensão que articula confiança, identidade, sentido de missão e percepção de legitimidade, elementos decisivos em democracias.

Nichols (2024) argumenta que a guerra cognitiva nas redes sociais atinge diretamente essa expressão psicossocial, explorando medos, ressentimentos e polarizações para fragilizar a imagem de instituições de Estado, inclusive as Forças Armadas. Quando a confiança se rompe, a capacidade de mobilizar apoio, explicar ações e sustentar políticas públicas de defesa fica comprometida.

Se a Expressão Psicossocial do Poder Nacional é um dos alvos centrais da guerra cognitiva, a resposta institucional não pode ser improvisada nem fragmentada. Nesse contexto, a Comunicação Social Militar não é apenas “setor de imprensa” ou canal de divulgação de notícias. É uma interface crítica entre instituição e sociedade e, ao mesmo tempo, ferramenta interna de alinhamento simbólico, capaz de reforçar valores, explicar decisões e esclarecer mal‑entendidos antes que eles se cristalizem em narrativas negativas.

Isso coloca sobre os comunicadores militares a tarefa de atuar como uma espécie de “escudo cognitivo”, não para blindar a instituição das críticas legítimas, mas para protegê‑la de campanhas maliciosas que distorcem fatos, exploram ambiguidades e buscam transformar divergências pontuais em crises permanentes de legitimidade.

É nessa direção que se insere o conceito de defesa cognitiva. Ao falarmos em defesa cognitiva, falamos em proteger a capacidade de indivíduos e organizações de formar juízos razoáveis e agir de forma coerente com seus valores e objetivos, mesmo em ambiente saturado de desinformação. No âmbito militar, isso envolve três componentes centrais:

Monitorar o ambiente informacional: Não se trata de vigiar opiniões, mas de identificar, com critérios éticos claros, padrões de desinformação e campanhas coordenadas que tenham potencial de atingir diretamente a coesão interna e a confiança na Instituição.

Fortalecer a literacia midiática e o pensamento crítico: Como apontou Do Nascimento (2024), a guerra cognitiva se apoia em vieses e atalhos mentais. Preparar militares para reconhecer técnicas de manipulação, verificar fontes e desconfiar de “verdades absolutas” circulando em grupos fechados pode se mostrar tão importante quanto treiná‑los para operar sistemas de armas.

Articular respostas claras e tempestivas: A Comunicação Social Militar precisa ser capaz de responder rapidamente a boatos e narrativas distorcidas, com informações factuais, linguagem clara e respeito à inteligência do público. Silêncio prolongado e respostas vagas alimentam o terreno da suspeita, exatamente o que a guerra cognitiva busca explorar.

Nenhum desses componentes, porém, se sustenta de forma isolada. Tudo isso exige integração com Inteligência, Defesa Cibernética, Psicologia Militar e órgãos civis e de governo responsáveis por comunicação e segurança da informação. Defesa cognitiva não é tarefa de um setor isolado, mas esforço coordenado que atravessa doutrina, educação e cultura institucional.

A tentação, diante da gravidade do problema, é ampliar cada vez mais esses mecanismos de proteção. Há, porém, um limite que não pode ser ignorado. Em regimes democráticos, a mesma liberdade que torna a sociedade vulnerável à guerra cognitiva é também condição de legitimidade das Forças Armadas (Nichols, 2024; Do Nascimento, 2024).

Isso significa que “controlar a narrativa” não pode ser sinônimo de silenciar críticas nem de impor versões únicas sobre temas de interesse público. A Comunicação Social estratégica precisa atuar com transparência, prestando contas, explicando o que pode ser explicado e reconhecendo limites quando informações são sigilosas por razões operacionais, em consonância com princípios constitucionais que garantem liberdade de expressão e vedam qualquer forma de censura política, ideológica ou artística (BRASIL, 1988).

O risco é que, em nome da defesa cognitiva, resvale para práticas que se aproximam de censura ou de propaganda opaca, exatamente o tipo de uso político da informação que a guerra cognitiva explora para deslegitimar instituições (Nichols, 2024; Do Nascimento, 2024). A força legítima da narrativa militar, nesse contexto, deriva menos da tentativa de vencer no grito e mais da capacidade de ser percebida como fonte confiável, coerente e respeitadora do espaço público, observando critérios de legalidade, proporcionalidade e proteção de direitos fundamentais, como a honra, a imagem e o direito de crítica (BRASIL, 1988; Nichols, 2024; Do Nascimento, 2024).

Reconhecer esses riscos não significa recuar da defesa cognitiva, mas qualificála. Diante desse quadro, alguns caminhos podem parecer impositivos para o fortalecimento da Comunicação Social Militar como instrumento de defesa cognitiva, como:

- Investir na formação dos comunicadores militares, não apenas em técnicas de mídia, mas em guerra cognitiva, análises de redes, psicologia social e ética da informação, à luz dos maiores autores;

- Incorporar o tema em todos os níveis de instrução militar, das escolas militares aos cursos de altos estudos. Guerra e defesa cognitiva não podem ser assuntos periféricos ou tratados apenas em seminários pontuais, precisam entrar na formação de comandantes e assessores, além de permear diuturnamente as relações hierárquicas;

- Desenvolver doutrinas internas que reconheçam a Comunicação Social Militar como componente de defesa, definindo claramente responsabilidades, fluxos de informação e protocolos de atuação em situações de desinformação dirigida contra a força ou contra a Expressão Psicossocial do Poder Nacional; e

- Aproximar‑se da sociedade com a utilização de uma linguagem clara e acessível. Em um ambiente de suspeitas, a capacidade de explicar, em termos simples, o que as Forças Armadas fazem, por que fazem e quais são seus limites legais é, por si só, uma forma de proteção cognitiva.

Essas medidas não respondem a um cenário hipotético, mas a uma realidade que já se impõe no cotidiano da tropa e da sociedade. A guerra cognitiva não é um futuro distante, é parte do presente operacional e informacional das Forças Armadas. A mente humana tornou‑se, nas palavras de Giordano (2018, conforme citado por Autellet, 2022), o “campo de batalha do futuro”, e esse futuro já se desenrola em telas de celulares, em timelines de redes sociais e em conversas de grupos fechados.

Nesse cenário, a Comunicação Social Militar não pode permanecer na posição confortável de simples emissora de notas e comunicados. Precisa assumir seu lugar como ator estratégico na defesa cognitiva, ajudando a proteger a coesão interna, a Expressão Psicossocial do Poder Nacional e a legitimidade das Forças Armadas em uma democracia.

Fazer isso requer técnica, doutrina e tecnologia, mas exige, sobretudo, clareza de propósito: defender a mente não pela imposição de uma visão única, e sim pela construção paciente de confiança, transparência e capacidade crítica, dentro e fora dos quartéis.

 

Referências

BRASIL. (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Recuperado de https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

Claverie, B., Prébot, B., Buchler, N., Autellet, E. & Du Cluzel, F. (Eds.). (2022). Cognitive warfare: The future of cognitive dominance. NATO Science and Technology Organization. https://www.researchgate.net/publication/359991886

Do Nascimento, M. B. (2024). O fenômeno da guerra cognitiva e sua influência nas disputas geopolíticas. Revista De Geopolítica15(3), 1-15. https://revistageo.com.br/revista/article/view/516

Nichols, G. C. L. (2024). Guerra cognitiva nas redes sociais: Análise das ameaças e propostas para políticas públicas do Ministério da Defesa [Relatório técnico de doutorado]. Escola de Guerra Naval. https://www.marinha.mil.br/ppgem/sites/www.marinha.mil.br.ppgem/files/TCD%20Final%20Giselli%20Nichols.pdf

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