A VITÓRIA ESQUECIDA: 160 ANOS DA BATALHA DE CURUZU

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 11 Setembro 2026
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No rosário de embates que se deram ao longo da Guerra do Paraguai, uma conta ficou esquecida, a tomada da Fortaleza de Curuzu, em 3 de setembro de 1866.

Efetuada entre a vitória de Tuiuti e a derrota de Curupaiti, Curuzu acabou relegada a segundo plano a despeito de ser o ponto de virada da manobra estratégica dos aliados: até então a maior parte das ações ofensivas cabia ao Exército Paraguaio. A partir daí a iniciativa, com exceção de alguns golpes de mão, passou totalmente aos aliados.

Após a batalha de 24 de maio, o Comando Aliado não aproveitou o êxito e manteve um dispositivo de expectativa, reconhecendo o terreno a sua frente, procedendo às “apalpadelas”, uma vez que eram escassas as cartas topográficas da região.

Somente mais de um mês depois, em 25 de junho, aquele Comando decidiu trazer ao Paraguai o 2º Corpo de Exército, comandado pelo Tenente-general Manoel Marques de Souza, Barão de Porto Alegre, que se encontrava na província argentina de Missiones, tendo como escopo avançar sobre a linha de defesa guarani.

A escolha da tropa brasileira, que ainda não fora empregada, se deu em consequência das perdas e desgastes sofridos pelos aliados com a já citada batalha de Tuiuti e os combates de Yataity-Corá (10 e 11 de julho), Boqueirão (16 e 18 de julho) e Potrero Sauce (18 de julho).

Em 29 de julho, o 2º Corpo ocupou as ruínas do Forte de Itapiru às margens do Rio Paraná. No dia 30 de agosto iniciou seu embarque com destino a um ponto forte localizado na margem esquerda do Rio Paraguai.

Os reconhecimentos haviam levado a Curuzu, uma fortaleza situada a cerca de 1760 metros ao sul de Curupaiti, outro e maior baluarte defensivo, constituída de “uma bateria de três canhões apontados para o rio e uma trincheira que lhe cobria toda a frente terrestre contra um eventual desembarque aliado que tentasse tomá-la. Tal trincheira tinha cerca de 900 metros de comprimento (sentido leste–oeste) e assentava seu flanco direito na barranca do rio e o esquerdo numa lagoa. O terreno imediatamente a sua frente era plano e facilmente batido pelo fogo de seus defensores. Possuía, ainda, um fosso frontal de dois metros de profundidade por dois de largura e um para-peito de quatro metros de largura por dois de altura, onde estavam abrigados seus cerca de 2.500 defensores quando da batalha”1.

No dia 31 de agosto, por volta das 11h452, a Marinha Imperial começou o bombardeio da posição guarani, empregando os navios de madeira Greenhalgh, Beberibe, Belmonte, Araguari, Ipiranga, Parnaíba e Ivaí, a canhoneira Magé e os encouraçados Bahia, Barroso, Lima Barros, Tamandaré e Rio de Janeiro, prosseguindo com este no dia seguinte.

Concluída a preparação de artilharia, as primeiras tropas do 2º Corpo de Exército iniciaram seu desembarque às 13 horas do dia 2 de setembro, um pouco abaixo da posição inimiga, a salvo de sua artilharia.

Encontravam-se nesse mister quando uma mina paraguaia, lançado no rio e conduzida pela correnteza atingiu o encouraçado Rio de Janeiro, afundando-o ao mesmo tempo que vitimava seu comandante o 1º Tenente Américo Brasílio Silvado e mais 50 militares.

Varridos das águas do Prata desde Riachuelo, restou aos guaranis a utilização de minas, na época denominadas torpedos, como ferramenta de negação do uso das vias fluviais. Tais engenhos já eram conhecidos e haviam sido utilizados com sucesso na Guerra da Secessão3 e agora levavam a pique um dos 3 encouraçados casamatados construídos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, durante a guerra.

A destruição de uma belonave imperial se constituiu em um caso único em toda a Campanha da Tríplice Aliança.

Finalmente, ao amanhecer de 3 de setembro, deu-se o ataque ao bastião paraguaio: 8.385 homens do 2º Corpo de Exército lançaram de baioneta armada sobre os defensores.

A despeito do bombardeio feito pela esquadra, uma parte da artilharia da fortaleza permaneceu intacta, o que prejudicou o ataque, mas não impediu a vitória.

Em menos de meia hora, a posição foi conquistada por meio de um flanqueamento pela esquerda dos paraguaios, através da lagoa que acreditavam ser invadeável, mas que a infantaria brasileira atravessou com água na altura do peito e atacou os defensores à arma branca, com destaque para a atuação do soldado Marcolino José Dias da tropa de Zuavos Baianos4, que após enfrentar em combate singular vários paraguaios, hasteou a bandeira imperial no interior da fortaleza.

Tomada a posição, os defensores debandaram em direção a Curupaiti, sendo perseguidos pelos atacantes até as proximidades daquela fortificação.

A conquista de Curuzu custou aos brasileiros 841 baixas, entre mortos e feridos, e 1 encouraçado afundado e aos guaranis 2132 combatentes, entre mortos e feridos, alguns dos quais executados por Solano López sob alegação de covardia.

A vitória aproximou os aliados de Assunção, desgastou o já combalido Exército Paraguaio e descortinou o novo objetivo da Aliança: Curupaiti.


 

REFERÊNCIAS

CLEMENTE GONÇALVES, Leandro José. Da Batalha de Curuzu à queda de Humaitá (1866-1868): questões táticas. Navigator. Rio de Janeiro, V. 14, Nr 27, p. 31-44 – 2018.

JACEGUAI, Artur. Reminiscências da Guerra do Paraguai. Brasília, Senado Federal, Conselho Editorial, 2011.

GIORGIS, Luiz Ernani Caminha. Cronologia da Guerra da Tríplice Aliança. Porto Alegre: Renascença, 2020.

1 CLEMENTE GONÇALVES, Leandro José. Da Batalha de Curuzu à queda de Humaitá (1866-1868): questões táticas. Navigator. Rio de Janeiro, V. 14, Nr 27, p. 34, jun.2018.

2 GIORGIS, Luiz Ernani Caminha. Cronologia da Guerra da Tríplice Aliança. Porto Alegre: Renascença, 2020, p 55.

3 Foi uma guerra civil nos Estados Unidos entre a União ("o Norte") e a Confederação ("o Sul").

4 Companhias de voluntários negros organizadas na Bahia durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). Inspirados nos zuavos franceses. Destacaram-se pelo uniforme característico — bombachas vermelhas e jaquetas azuis — e bravura em combate.

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