O Quadro de Engenheiros Militares e a crescente necessidade da liderança técnica aprofundada

Autores: General de Divisão TALES EDUARDO ARECO VILLELA Gen Wolski
Quarta, 11 Fevereiro 2026
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O Exército Brasileiro conta com um corpo de engenheiros militares que se distingue pela qualidade de seus quadros, desde a formação/graduação no Instituto Militar de Engenharia (IME), até os postos mais altos da carreira, atuando nas diversas funções técnicas e de gestão, existentes no Exército, com prevalência em Organizações Militares (OM) do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) e do Departamento de Engenharia e Construção (DEC). No atual cenário de transformações exponenciais impulsionadas pela ciência, pela tecnologia e pela inovação, a presença de engenheiros militares em funções determinantes na gestão tecnológica e no processo decisório do Exército Brasileiro não é apenas desejável; é estratégica, imprescindível e inadiável.

Liderança técnica: a Matemática como base e essência do pensamento estratégico

Desde os tempos antigos, pensadores compreendiam que a capacidade de decidir com clareza estava profundamente enraizada na lógica e na matemática. Platão, discípulo de Sócrates e mentor de Aristóteles, afirmava:

A matemática é o ginásio do espírito”.

Descartes, por sua vez, estabeleceu as bases do raciocínio moderno quando declarou:

A matemática é a ciência da ordem e da medida, da lógica e da clareza”.

Trazendo para o cenário de nosso Exército, o Quadro de Engenheiros Militares, certamente de forma não exclusiva, configura-se em categoria que, com seu conhecimento de base técnica, moldado pela excelência do IME e solidificado nas OM de produção e desenvolvimento do SCTIEx, internaliza essa lógica desde a formação acadêmica e profissional. Faz parte de seu aprendizado reduzir as incertezas a modelos compreensíveis, projetar soluções robustas e efetivas, otimizar recursos sob restrições reais e tomar decisões baseadas em dados, evidências e consequências previsíveis. As visões e percepções sistêmicas e prospectivas são uma realidade constante, seja no apoio ou no emprego.

Esse perfil é crucial, e absolutamente determinante para a atual era do conhecimento, marcada por volatilidade, incertezas, complexidades, ambiguidades, precipitações, superficialidades, imediatismos e conturbações (VUCA e PSIC). Um tempo em que a capacidade de pensar de forma holística, projetar cenários futuros, entender profundamente sistemas e materiais de emprego militar (SMEM), e articular ciência, tecnologia e inovação com poder de combate tornou-se diferencial decisivo entre a desvantagem e a superioridade estratégica.

Cabe ressaltar que grandes corporações, não só com viés de engenharia, com especial destaque para bancos e organizações financeiras, privilegiam a contratação de engenheiros para ocupar as posições de mais alto nível pela sua capacidade diferenciada de tomada de decisão, urdida pelo seu pensamento lógico.
 

Engenharia e transformação: do conceito ao Teatro de Operações
 

A engenharia militar não se limita a projetar e desenvolver blindados ou sistemas de armas e a manter equipamentos atualizados e em estado de prontidão. Ela define soluções e gera capacidades operacionais, traduz necessidades da tropa em soluções técnicas viáveis e cria autonomia nacional em áreas sensíveis, como comunicações, sensores, munições, veículos blindados, sistema de armas, cibernética e guerra eletrônica.

Um engenheiro militar é capaz de antever o impacto de uma inovação sobre doutrinas e estruturas operacionais; liderar ciclos completos de desenvolvimento tecnológico, do projeto à doutrina de emprego; estabelecer diálogo horizontal com cientistas, com a indústria, com técnicos e com a tropa, sendo a ponte entre centros de pesquisa e desenvolvimento, laboratórios, empresas e os combatentes; e atuar como filtro racional no processo de obtenção, evitando soluções prontas desalinhadas da realidade nacional.

Nas palavras de Henri Poincaré, matemático e filósofo da ciência:

Pensar é prever”.

Poucos dominam a arte de prever, e dificilmente alguém o faz com a precisão e a propriedade do engenheiro militar, cuja mente é moldada para compreender sistemas complexos, mensurar incertezas e criar soluções sustentáveis no ambiente operacional, pois une raciocínio lógico, domínio científico e pragmatismo capaz de transformar limitações e restrições em caminhos possíveis e factíveis.

Domínio tecnológico e comando


 

A tecnologia, por si só, não garante vantagem. É preciso conhecê-la, dominá-la e adaptá-la. Nesse contexto, não basta ao militar ser mero aplicador de soluções complexas — ele precisa compreendê-las profundamente, o que exige formação técnica sólida.

Com o advento da inteligência artificial, dos sistemas autônomos, da robótica, da computação quântica e da guerra cibernética, a distância entre quem decide, quem entende, quem projeta e quem emprega precisa ser reduzida. Cada vez mais, quem detém esse conhecimento passa a ser peça fundamental e deve ser inserido no processo, sob pena da decisão estar calcada em premissas superficiais, incorretas ou até mesmo, falsas.

Essa necessidade não é apenas prática, mas estrutural: a soberania tecnológica e a superioridade operacional dependem de lideranças que compreendam a base do poder que exercem e saibam utilizá-la de forma consciente, responsável e efetiva em prol do País.

Conclusão – Engenharia Militar que produz soberania

O Exército Brasileiro abriga em seus quadros, grande capacidade técnico-militar forjada pelo Instituto Militar de Engenharia — homens e mulheres capacitados a pensar, projetar e comandar no mesmo grau de excelência. Mais do que formar especialistas, o IME forma líderes com domínio científico-tecnológico e visão estratégica capaz de transformar conhecimento em poder de combate.

Reconhecer e utilizar o potencial dos engenheiros militares em posições estratégicas de decisão é valorizar a inteligência nacional. Ao incluí-los ativamente, expande-se o poder de combate para além do que está disponível para obtenção por simples aquisição. Está se investindo na capacidade de criar e inovar em soluções próprias.

É hora de reconhecer que soberania não se terceiriza. Ela se constrói com conhecimento profundo, com domínio tecnológico e com decisões baseadas em razão e propósito. Ao elevar engenheiros militares a posições de direção e comando, o Exército estrutura e orienta sua doutrina com base em ciência, transforma capacidades em vantagens duradouras, aumenta sua faculdade de absorver e gerar inovação, e, sobretudo, assegura que cada investimento em Defesa seja, acima de tudo, uma garantia de independência. Essa é a essência da verdadeira soberania.

Como dizia Norbert Wiener, pai da cibernética:

O comando da ação começa pelo comando da informação”.

No Exército da era digital, comandar é conhecer e entender. Essa é a missão de Engenheiro Militar. Ele é compelido desde o início de sua formação/graduação no IME a compreender profundamente o contexto, os fundamentos e as implicações do que lhe é ensinado. A “pensar fora da caixa” ou de forma inovadora. A liderança técnica é hoje uma exigência estratégica. A presença de engenheiros militares no centro das decisões é mandatória. É a rota mais assertiva para o resultado, além do que, o comando e o conhecimento não podem andar separados. Nesta Era, liderança e conhecimento são indissociáveis. E o engenheiro militar é, por excelência, uma conexão natural entre ambos.

CATEGORIAS:
Carreira Militar

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