O PIOR DIA DO EXÉRCITO BRASILEIRO: 160 ANOS DA BATALHA DE CURUPAITI

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 02 Outubro 2026
Compartilhar

Curupaiti, 22 de setembro de 1866, 15 horas.

As colunas de soldados brasileiros e argentinos recuam desordenadamente, mesmo antes da ordem do comandante em chefe da Tríplice Aliança, o General Bartolomeu Mitre.

Assim que se iniciou a retirada aliada, o Comandante da posição paraguaia, Díaz, galopa ao longo das trincheiras acenando aos seus soldados, gritando vivas e mandando a banda militar tocar músicas em comemoração à vitória.

“Eis aqui o resultado do governo brasileiro não ter confiança em seus generais e entregar os seus exércitos aos generais estrangeiros”- diz furioso o Barão de Porto Alegre, comandante da tropa imperial.1

Antecedentes

O mês de setembro de 1866 começara alvissareiro com a tomada de Curuzu no dia 3. Na oportunidade, o avanço até Curupaiti chegou a ser considerada pelos atacantes, uma vez que a distância entre ambas era de menos de 2 km.

Preferiu-se consolidar a conquista, cara em mais de 800 baixas, entre mortos e feridos.

Encontravam-se os aliados em preparativos quando López solicitou e obteve de Mitre uma trégua para apresentar uma proposta de paz.

O encontro se deu no dia 12 e passou a história como Conferência de Yatayti-Corá, nada resultando, mas atrasando o ataque aliado e dando mais tempo aos defensores para organizarem o terreno.

Curupaiti era uma das 3 grandes fortificações guaranis na margem esquerda do rio Paraguai, distando 5,5 km de Humaitá, o grande baluarte antes de Assunção, estando situada em terreno elevado, com margens cobertas de vegetação fechada, encobrindo terreno alagadiço, de modo a impossibilitar um desembarque.

Sua defesa foi entregue ao melhor soldado que López possuía: José Eduvigis Díaz.

O então coronel Díaz deu mostras de suas qualidades como tático: organizou a posição em duas linhas de trincheiras, com a segunda delas indo das margens do Rio Paraguai até uma lagoa situada à esquerda do seu dispositivo, com seu trajeto marcado por reentrâncias, possibilitando o tiro de enfiada2, colocando diante dessa estacas afiadas, construídas com madeiras de árvores recém-cortadas, organizadas em forma de abatis, obstáculo formado por galhos de árvores abatidas postas em fileiras, em que suas pontas são direcionadas para o inimigo.

Logo atrás, postou 49 canhões direcionados aos atacantes terrestres e ao rio.

Cinco mil homens das três armas guarneciam a fortificação.

As fortes chuvas que ocorreram entre os dias 17 e 20 transformaram o terreno em um grande lamaçal, atrasando o ataque em 5 dias, plenamente aproveitados pelos defensores.

O comando aliado decidiu-se por atacar no dia 22.

O ataque

O Plano de Ataque foi concebido pelo Comandante e Chefe das Forças da Tríplice Aliança, Bartolomeu Mitre e constava de 4 ações táticas:

- uma preparação de fogos feita pela esquadra brasileira, sob o comando do almirante Tamandaré;

- uma demonstração de força das tropas aliadas em Tuiuti, sob comando do general Polidoro;

- um avanço de cavalaria, pela extrema esquerda das defesas inimigas, a cargo Venâncio Flores; e

- um ataque frontal à posição, a ação principal conduzida pelo próprio Mitre.

A operação teve início às 07h30 min com a ação da esquadra.

Tomaram parte da preparação cerca de 20 embarcações que, por 4 horas e meia, despejaram tiros sobre as posições guaranis.

Ocorre que a elevação da margem impediu a observação do resultado dos tiros e, portanto, as correções devidas.

Às 12 horas, a canhoneira Beberibe içou o sinal convencionado para o ataque terrestre.

A direita da posição guarani, próximo ao rio, foi investida pela tropa brasileira (cerca de 8 mil homens), cabendo à posição argentina (9 mil combatentes) à esquerda, do sítio. Ambas as forças dividiam-se em duas colunas.

A primeira trincheira caiu rapidamente, mas então os atacantes se depararam com a organização do terreno: passaram a avançar lentamente diante dos obstáculos, recebendo fogos de posições cobertas.

O avanço era ainda prejudicado pela lama resultante das chuvas dos dias anteriores.

Mesmo com o apoio de fogo da esquadra, o ataque foi detido por volta das 14h30 min. Meia hora depois, o comando aliado reconheceu a derrota e ordenou a retirada geral.

No flanco direito, a cavalaria do Presidente uruguaio Flores (3 mil homens) atingiu Tuyú Cué, mas, diante do malogro do ataque principal, retraiu para o acampamento.

As forças que se encontravam em Tuiuti, sob o comando do General Polidoro, aguardando a ordem de serem empregadas, nunca a receberam e permaneceram inativas durante a batalha.

Consequências

Curupaiti foi a maior derrota aliada na guerra e o dia em que o Exército Brasileiro teve mais baixas em toda sua história.

O chefe paraguaio Resquín afirma que os aliados deixaram mais de 8 mil mortos no campo de batalha, tendo seu país perdido 92 militares.

Nas contas aliadas, entre mortos e feridos, as baixas foram de 4.093 homens.3

Quanto às causas da derrota, muitas acusações foram trocadas ao longo do tempo, com os argentinos colocando a responsabilidade sobre Tamandaré pelo fato da esquadra não ter conseguido neutralizar os fogos guaranis e os nacionais apontando a imperícia de Mitre em proceder a um reconhecimento mais detalhado do terreno e de ter demorado em decidir lançar o ataque, dando tempo a López para que este organizasse a defesa.

A principal consequência veio 18 dias após a batalha: o Governo Imperial nomeou seu mais ilustre soldado comandante das Forças Brasileiras em operações: Luis Alves de Lima e Silva, então Marquês de Caxias.

Começava uma virada na história da campanha.

REFERÊNCIAS

CLEMENTE GONÇALVES, Leandro José. Da Batalha de Curuzu à queda de Humaitá (1866-1868): questões táticas. Navigator. Rio de Janeiro, V. 14, Nr 27, p. 31-44 – 2018.

FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai. Rio de Janeiro. BIBLIEx,2011.v 3.

JACEGUAI, Artur. Reminiscências da Guerra do Paraguai. Brasília, Senado Federal, Conselho Editorial, 2011.

GIORGIS, Luiz Ernani Caminha. Cronologia da Guerra da Tríplice Aliança. Porto Alegre: Renascença, 2020.

1 JACEGUAI, Artur. Reminiscências da Guerra do Paraguai. Brasília, Senado Federal, Conselho Editorial, 2011. p152.

2 Aquele que é feito quando se está em posição bastante protegida e vantajosa em relação ao inimigo, que não pode ou dificilmente consegue se proteger.

3 FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai. Rio de Janeiro. BIBLIEx,2011.v 3.p136

CATEGORIAS:
História

Comentarios

Comentarios

Luokitusnavigaatio

Artigos Relacionados