Mulheres em Operações de Paz: um fator estratégico para a eficácia das missões

Autor: TC Renata Monteiro
Sexta, 29 Maio 2026
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A presença feminina em operações de paz vem ganhando espaço nas últimas décadas. Mais do que uma questão de representatividade, trata-se de um tema que impacta diretamente a forma como as missões são conduzidas e os resultados que conseguem alcançar.

A Agenda Mulheres, Paz e Segurança, estabelecida pela Resolução 1325 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, trouxe um novo olhar para a participação das mulheres em contextos de conflito. A partir dela, passou a ser reconhecido que incluir mulheres nos processos de paz não é apenas uma medida de equidade, mas uma forma de ampliar a efetividade das ações no terreno.

Na prática, esse impacto pode ser percebido de diferentes maneiras. Em muitas situações, mulheres da população local se sentem mais à vontade para relatar episódios de violência ou vulnerabilidade quando há militares femininas envolvidas nas atividades. Esse aspecto, aparentemente simples, faz diferença. Ele amplia o fluxo de informações, fortalece vínculos de confiança e contribui para a adoção de medidas mais adequadas à realidade de cada contexto.

Em ambientes marcados por tensões culturais e sociais, a capacidade de escuta torna-se um diferencial. A presença feminina tende a favorecer esse tipo de interação, permitindo identificar riscos que nem sempre são visíveis à primeira vista. Em consequência, as respostas institucionais ganham em sensibilidade e precisão, o que se reflete diretamente na proteção de civis.

Ainda assim, os avanços convivem com limitações. Os dados mais recentes indicam que a participação feminina nas operações de paz da ONU permanece reduzida, especialmente no componente militar, onde os percentuais ainda estão aquém das metas estabelecidas, conforme Gráfico 1. Isso revela que o desafio não está apenas em ampliar o acesso, mas em superar barreiras estruturais que dificultam a presença de mulheres em funções operacionais e de comando.

Gráfico 1 – Participação feminina: Brasil vs Média Global (ONU, 2025)

Fonte: Elaborado pela autora com base em UNITED NATIONS (2025)

O caso brasileiro reflete esse cenário de forma bastante clara. Há avanços importantes, como a ampliação do acesso a cursos operacionais e a criação de iniciativas inovadoras no preparo das tropas. Ao mesmo tempo, persistem desafios relacionados à ocupação de posições estratégicas e à presença feminina em determinadas funções.

Nesse contexto, talvez o ponto central não seja apenas quantas mulheres participam, mas como participam. A efetividade da presença feminina depende da possibilidade de atuação qualificada, com espaço para influenciar decisões e contribuir para a condução das missões.

Outro aspecto que merece atenção é o papel da liderança. A forma como o comando percebe e conduz o tema influencia diretamente o ambiente organizacional. Quando há clareza de propósito e coerência nas ações, o resultado tende a ser um ambiente mais seguro, mais respeitoso e, consequentemente, mais eficiente.

A experiência internacional tem mostrado que missões que conseguem estabelecer relações de confiança com a população local apresentam melhores resultados. Nesse sentido, a integração da perspectiva de gênero não deve ser vista como um elemento acessório, mas como parte do próprio processo operacional.

Ao final, a discussão sobre a participação feminina nas operações de paz conduz a uma reflexão mais ampla. Trata-se de compreender que ambientes diversos, quando bem conduzidos, ampliam capacidades, fortalecem a legitimidade institucional e contribuem para soluções mais consistentes em contextos complexos.

Mais do que atender a uma diretriz internacional, investir nessa integração é reconhecer que a eficácia operacional também passa pela forma como se compreende e se atua sobre as dinâmicas humanas presentes nos cenários de conflito.


 

Referências:

UNITED NATIONS. Women, Peace and Security – Resolution 1325. New York, 2000.

UNITED NATIONS PEACEKEEPING. Gender Statistics 2025. New York, 2025.

UN WOMEN. Women are increasingly at risk in conflict. New York, 2023.

UNITED NATIONS. Department of Political and Peacebuilding Affairs. A Common Pledge to Increase Women’s Participation in Peace Processes. New York, 2024.

DCAF. The Future of Peacekeeping Needs Everyone. Geneva, 2025.

CATEGORIAS:
Operações

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