HISTÓRIA MILITAR DE AQUIDAUANA - DO SÉCULO XVI AO XIX

Autor: 1º Sgt Evandro
Quarta, 07 Outubro 2026
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Em 2012, após ter concluído o curso de Telegrafia do Exército Brasileiro, fui movimentado para o 9º Batalhão de Engenharia de Combate, em Aquidauana (MS), uma pequena cidade de interior, fundada em 1892. À época, eu cursava história na universidade e, naturalmente, passei a pesquisar sobre a história da minha futura morada, especialmente sobre a história do Exército na região. Este artigo é fruto dos apontamentos que fiz naquela época.

A história militar de Aquidauana é centenária e remonta décadas antes da criação do 9º Batalhão de Engenharia, batalhão febiano criado em 1942. Essa Organização Militar, suas instalações que datam dos anos 1920, e a presença de militares nessa cidade são parte de uma longa história militar no oeste do Brasil. 

Ao buscar compreender a história de Aquidauana, uma questão me balizou: como se deu o processo de ocupação militar na região? Ao me debruçar sobre essa questão, acabei recuando no tempo, até o Período Colonial.

SANTIAGO DE XEREZ E O POVOAMENTO DE MATO GROSSO

Antes da fundação de Aquidauana (1892), o sul do Mato Grosso foi marcado por um processo de ocupação que remonta àquele período histórico. Esse processo definiu as atuais fronteiras do oeste brasileiro.

Em fins do século XVI, espanhóis vindos da região do Guairá (limites da ocupação espanhola que vinha desde Assunção), fundaram um núcleo urbano próximo ao rio Ivinhema, na região da atual cidade de Naviraí (NOVAIS, 2004).

Ainda no final do século XVI, os espanhóis mudaram esse núcleo mais para noroeste, em algum lugar entre os rios Aquidauana e Miranda (rio Mbotetei). Ali seria fundada Santiago de Xerez, em 1593, que, para alguns historiadores, é o mais antigo núcleo urbano do atual Mato Grosso do Sul. Hoje, nesse mesmo local, existem as cidades de Aquidauana e Anastácio.

Em 1620, um padre jesuíta anônimo deixou sua impressão sobre o núcleo urbano de Santiago de Xerez, que existiu às margens do rio Botetei (Miranda/Aquidauana), do ano 1600 ao ano 1632, quando foi destruído por bandeirantes (CORTESÃO, 1951, p. 172).

Fundada por hispano-paraguaios, Xerez estava em posição estratégica para as duas Coroas Ibéricas, e se constituiu em um dos pontos centrais para a delimitação das fronteiras da colonização espanhola e portuguesa, e para o povoamento do que hoje é Mato Grosso do Sul (ZANETTINI, 2010, p. 13).

Deste modo, Santiago de Xerez marca a ocupação espanhola da área central do atual Mato Grosso do Sul, no início do século XVII, ainda sob os limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas. Quase trezentos anos depois, em 1892, próximo às ruínas daquele núcleo urbano pioneiro, fundar-se-ia outro núcleo urbano, Aquidauana.

O lugar onde hoje vivem os aquidauanenses e anastacianos estava no meio de uma importante rota de comunicação que ligava Assunção a São Paulo, e ambas à Bolívia e ao Peru. Os rios foram os principais meios de comunicação e transporte dessa região até o início do século XX, quando chegaram as linhas telegráficas, os trilhos e as primeiras estradas de rodagem. 

A DEFESA DAS FRONTEIRAS E A GUERRA DO PARAGUAI

Desde o avanço bandeirante, por dois séculos (XVII-XVIII), os luso-brasileiros buscaram se estabelecer a oeste de suas possessões, construindo fortes e entrepostos e, com isso, impedir o avanço da colonização espanhola. 

Após a criação da Capitania de Mato Grosso em 1748, “[...] os portugueses desencadearam um projeto de governo que resultou no estabelecimento de presídios guarnecidos por tropas estrategicamente situadas nos limites do Império [...]” (ESSELIN, 2011, p. 117). Alguns dos primeiros empreendimentos fortificados na linha de fronteira foram: Forte Coimbra (1775) e o povoado de Albuquerque (1778), ambos no rio Paraguai, e o presídio de Miranda (1797), próximo às conhecidas rotas dos rios Miranda e Aquidauana. 

Em meados do século XIX, o Império brasileiro criou no sul da Província de Mato Grosso as primeiras colônias militares com objetivos de povoamento, defesa dos territórios e integração do oeste do Brasil ao restante do Império.

A questão territorial viria à tona por ocasião da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Com a eclosão do conflito, em 1864, o Paraguai tentaria anexar uma parte do sul da província de Mato Grosso, iniciando assim a guerra (FILHO, 2016). Com a invasão do Sul de Mato Grosso, a partir do território da atual cidade de Bela Vista (MS), os paraguaios definiram o rio Aquidauana e a serra de Maracaju como limite norte de sua ocupação.

Assim, alguns dos eventos mais significativos da guerra aconteceram na porção sul da Província de Mato Grosso. A região de Aquidauana (que só seria fundada em 1892), habitada por poucos fazendeiros e milhares de indígenas, especialmente da etnia Terena, foi palco de alguns dos desdobramentos desse conflito bélico.

As poucas e mal preparadas tropas que existiam nos fortes e colônias militares de Mato Grosso não conseguiram enfrentar a invasão do país vizinho. Foi, nesse contexto, antes que o governo imperial pudesse responder à ofensiva paraguaia, que indígenas do sul do Mato Grosso entraram na guerra, do lado do Império, para proteger sua terra e sua gente. 

Poucos anos após a guerra, já no fim do século XIX, um grupo de fazendeiros vindos da vila de Miranda fundou Aquidauana sobre aquele solo de muitas histórias, berço de colonização europeia pioneira, iniciada com Santiago de Xerez, e palco de capítulos marcantes da história do sul de Mato Grosso e da Guerra do Paraguai.

A guerra havia deixado clara a necessidade de melhor comunicação com a província de Mato Grosso (MACIEL, 1998, p. 48). Os projetos republicanos de defesa e integração nacional se voltaram para a região centro-oeste e norte do Brasil. Aquidauana, recém-criada em local historicamente estratégico para os exploradores dos dois séculos passados, tornar-se-ia uma importante parte desses projetos. 

CONCLUSÃO

Ao chegar a Aquidauana, em 2012, deparei-me com uma pequena cidade do interior, no extremo oeste do Brasil, ladeada pela Serra de Maracaju, na transição entre o Planalto Central e a Planície Pantaneira, com paisagens exuberantes e uma fauna e flora espetaculares. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a sua história: um lugar que abriga diversas etnias indígenas, com destaque para os Terena; que, já no século XVI, se tornara ponto estratégico para espanhóis; e que, séculos depois, teve papel de destaque na maior guerra da América do Sul.

Foi sobre esse substrato — de fronteiras disputadas, povos indígenas resistentes e conflitos seculares — que, em 1892, um grupo de fazendeiros fundou o pequeno povoado que se tornaria Aquidauana.

Quando a República surgiu, no fim do século XIX, coube a um grupo de militares a missão de levar o Estado republicano ao coração de Mato Grosso, e o principal instrumento dessa empreitada foi a construção das linhas telegráficas — projeto estatal capitaneado por Cândido Mariano da Silva Rondon, o homem que se tornaria o maior sertanista do Brasil e patrono das telecomunicações no país.
É esse mesmo fio — de fronteira, integração e presença militar — que, décadas mais tarde, me trouxe a Aquidauana como sargento do Exército Brasileiro, para servir no 9º Batalhão de Engenharia de Combate. Ao pesquisar essa história, percebi que a farda que eu vestia era herdeira direta daquela mesma missão iniciada por Rondon e por tantos outros que vieram antes dele: ocupar, defender e integrar o oeste do Brasil. A presença militar em Aquidauana, afinal, não é um capítulo isolado, mas parte de uma longa e contínua história de construção do território brasileiro — uma história que começa muito antes da fundação da cidade e que continua a moldar sua identidade até os dias de hoje.

REFERÊNCIAS

BITTENCOURT, Circe Maria; LADEIRA, Maria Elisa. A história do povo Terena. Brasília: MEC, 2000.

CORTESÃO, Jaime (org.). Manuscritos da Coleção de Angelis: jesuítas e bandeirantes no Guairá (1549-1640). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Divisão de Obras Raras e Publicações, 1951. Disponível em: http://bndigital.bn.gov.br/projetos/angelis/spa/exposicion2.html. Acesso em: 1 jun. 2017.

ESSELIN, Paulo Marcos. A pecuária bovina no processo de ocupação e desenvolvimento econômico do pantanal sul-mato-grossense (1930-1910). Dourados: Ed. UFGD, 2011.

FILHO, Orlando de Miranda. A ocupação do sul de Mato Grosso na Guerra do Paraguai (1964-1870). Porto Alegre: FCM Editora, 2016.

MACIEL, Laura Antunes. A nação por um fio: caminhos, práticas e imagens da “Comissão Rondon”. São Paulo: Educ, 1998.

NOVAIS, Sandra Nara da Silva. Ruínas de Xerez: marco histórico do colapso do projeto colonial castelhano em Mato Grosso (1593-1632). 2004. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Dourados, 2004. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/cp000313.pdf. Acesso em: 1 jun. 2017.

ZANETTINI, Paulo Eduardo. Projeto Arqueológico Santiago de Xerez – Município de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Relatório Final, Lote 10. São Paulo, 2010.

CATEGORIAS:
História

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