Conde d’Eu e uma nova visão no uso eficiente dos armamentos na Guerra do Paraguai

Autores: Sgt PMERJ Marcelo Mizurine
Segunda, 16 Fevereiro 2026
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Após a tomada de Assunção, capital do Paraguai, o Marquês de Caxias dera por encerrada sua participação na Guerra do Paraguai (1864-1870), entendendo que sua missão principal era derrotar o exército regular de Solano López, e ocupar a principal cidade guarani, havia cumprido esta função, deixando a perseguição e captura do ditador para sucessores. Mesmo contra as ordens de D. Pedro II, o velho marechal, com 65 anos de idade, retirou-se para o Rio de Janeiro. O imperador então nomeara seu jovem genro, aos 26 anos, para a grande responsabilidade de continuar a campanha no Paraguai. Gaston de Orleans e Bragança, o Conde d’Eu, assume o comando do Exército Aliado em fevereiro de 1869 e logo implementa um modelo alternativo na forma de pensar do exército, no tocante ao emprego tático dos equipamentos à disposição dos brasileiros. Capitão do exército espanhol, com uma limitada, mas inovadora experiência em combate, o Conde serviu na Arma de Cavalaria na guerra Hispano Marroquina (1859-1860). Com uma excelente educação, o príncipe Imperial tinha um pensamento alternativo no uso das armas. Ele reintroduziu o uso das clavinas Spencer preteridas por Caxias, o que provou ser um grande sucesso devido à cadência de tiros por ser uma arma de repetição.

O novo comandante-em-chefe buscava novos armamentos que, com um uso de táticas inovadoras, reduzissem as baixas das tropas imperiais.

Rudolph Schubert, pesquisador do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, diz:

 

A razão da escolha da clavina Spencer muito tem a ver com a sua fama de grande eficiência na Guerra de Secessão americana. Foi a primeira arma militar de repetição, ou seja, tinha a capacidade de comportar múltiplos cartuchos e, após o disparo, o operador ejetaria o cartucho deflagrado, colocando outro no mecanismo, deixando a arma pronta para o disparo. No caso da Spencer, um carregador tubular era introduzido pela parte de trás da coronha. Este carregador era dotado de uma mola, que empurrava as munições à frente e tinha a capacidade de sete cartuchos de calibre 52-56 (ou 12,7 mm). Assim, pela primeira vez na história, um exército sul-americano tinha, em suas linhas, uma arma que poderia ser disparada diversas vezes antes que fosse necessário recarregá-la. Segundo o Relatório do Ministério da Guerra de 1868, a razão que levou os militares brasileiros a adquirirem este armamento foi “a qualidade de arma repetidora, tão importante para o cavaleiro, por permitir-lhe dar 7 tiros sucessivos sem precisar carregá-la de novo senão depois de esgotado este número. (SCHUBERT, 2024, p 104).

 

Apesar da superioridade bélica dos Aliados, ainda vigoravam as técnicas de combates aproximados de infantaria com utilização de armas brancas e as cargas napoleônicas de cavalaria, que consistiam em investidas rápidas e coordenadas como forma de quebrar as linhas inimigas, explorar brechas ou desorganizar formações já enfraquecidas.

Caxias, quando assumiu o comando, tentou melhorar a situação do armamento, aproveitando-se do fato do país poder importar diretamente armamentos modernos, o que era negado ao Paraguai, bloqueado pela Marinha Imperial. Mas sua atuação não parece indicar uma convicção muito grande na eficácia dos novos equipamentos. Foram comprados nos Estados Unidos 5.000 fuzis raiados de retrocarga, de um sistema praticamente desconhecido, o Roberts, bem como 2.000 clavinas de cavalaria, de retrocarga e repetição, do sistema Spencer, ao mesmo tempo que redistribuíram as velhas Dreyse, que tinham sido adquiridas na campanha contra Rosas.

O resultado destas experiências iniciais não foi dos melhores, contudo. A munição dos fuzis americanos era defeituosa, de maneira que o comando decidiu não entregar às tropas, enquanto as Dreyse eram armas muito complicadas, que precisavam de um elevado grau de treinamento para serem efetivas. Mesmo sendo entregues a um batalhão selecionado do exército, seu uso no combate do Estabelecimiento durante a rendição de Humaitá foi um desastre. Como resposta ao problema, Caxias não fez mais uso de armas novas e a consequência disso foi a manutenção das técnicas primitivas de combate, como pode ser observado nos combates da Dezembrada. (HOMERO, 2016, p 10).

 

Estes tipos de táticas militares não exploravam todo o potencial bélico dos armamentos em posse dos militares brasileiros. “Durante quase toda a guerra, porém, os ataques eram organizados, de ambos os lados em luta, a partir da tradição militar de grandes batalhas frontais. Os movimentos de flanco, a preocupação em poupar vidas, eram uma realidade recente.” (DORATIOTO, 2002, p.362).

Apesar da superioridade em combate dos armamentos utilizados pelas Forças Armadas Imperiais, infelizmente, devido às técnicas de combate à época, não houve a preocupação em minimizar as baixas sofridas pelos Aliados, o que talvez poderia ter encerrado o conflito com maior brevidade.

Na infantaria, começaram a ser adotadas, táticas mais racionais no uso do armamento em proveito de sua eficácia. Na batalha de Acosta Ñu, em vez de um combate aproximado, Conde d’Eu ordenara que batalhões operassem dispersos no terreno, dificultando, desta forma, acertos do inimigo, por estarem os brasileiros apresentando alvos menores. Esta tática maximizava os acertos do exército imperial que tirava vantagem do uso das armas miniés sobre os paraguaios que utilizavam, em sua maioria, armas de pederneiras e lanças.

 

Com esta disposição e dada ordem de avançarem as linhas de atiradores, foram as linhas inimigas cedendo o campo com grande desvantagem, por isso que as nossas armas a Minié levavam até as suas reservas a morte, ao passo que entre os nossos mais avançados soldados pouco prejuízo se dava. (TAUNAY, 1869, p 145).

 

O resultado do uso eficaz do armamento e as táticas aplicadas nesta fase da guerra pela Infantaria foram as pesadas baixas paraguaias nesta batalha de 16 de agosto de 1869: 1.200 prisioneiros e 2.000 mortos, contra as baixas brasileiras; 26 mortos e 259 feridos. Novamente, é possível projetar como poderiam ter ocorrido outras batalhas nesta guerra, se os comandantes tivessem percebido o potencial dos equipamentos que dispunham.

Acosta Ñu foi a última grande batalha da guerra. A partir deste momento, a campanha no Paraguai passou a ser uma caçada ao ditador Solano Lopez, que fugira para as cordilheiras. Apesar da inferioridade numérica e de armamento que era quase rudimentar, os paraguaios atestaram sua tenacidade. Segundo Francisco Doratioto “Foram apreendidas muitas espingardas de pederneira, de um tipo tão antigo que era desconhecido dos aliados. Havia todo tipo de armas obsoletas do lado paraguaio, ‘de mecha, trabuco e outros espécimes que só se veem em museus’.” (DORATIOTO, 2002, p.416). Relatos como este se tornaram cada vez mais comuns. Armamentos defasados, tropas sem combatividade e deserções em massa.

 

Na noite de 7, atravessara o general o grande desfiladeiro de Sapucay, no qual o inimigo levantara, após sua passagem, trincheiras para obstar a saída do Coronel Beto Martins que comandava a retaguarda; sabendo porém disso, retrocedera e atacara a posição que achou defendida por dois batalhões. Desalojá-los, tomar-lhes as duas bandeiras, foi obra de pouco tempo para a valente cavalaria que pôs pé em terra e avançou armada de clavinas (Spencer) e lanças e apoiando a artilharia que não poupava os seus tiros de metralha. Duzentos inimigos foram mortos, tendo sido o nosso prejuízo pequeno: 1 alferes e 4 soldados mortos, 3 oficiais e 23 soldados feridos. (TAUNAY, 1869, p. 79).

 

A Guerra, entretanto, findou-se somente em 1 de março de 1870 quando, depois de uma longa campanha nas cordilheiras, Solano López foi alcançado e morto a golpe de lança, após ser alvejado pelos cavalarianos brasileiros que utilizavam a famosa carabina Spencer. O próprio Príncipe Imperial nos relata em seu diário, na data de 04 de março de 1870:

 

O Oficial declarou ter deixado o acampamento de López em 1° de março, ao meio dia. Tinha chegado a Concepción na manhã do dia 4. Contou poucos detalhes positivos, a não ser o fato de que López fora morto com golpes de lança por um cabo de infantaria do 19° Batalhão de infantaria chamado Chico Diabo. (SOARES, 2017, p 234).

 

Após mais de cinco anos de batalha, a Guerra do Paraguai finalmente findara-se. Os números da guerra são muito controversos. Estima-se que o Paraguai tenha perdido cerca de 350 mil pessoas, entre batalhas e doenças; do lado Aliado, as baixas girariam por volta dos 140 mil mortos. Um custo muito alto para as nações sul americanas.

 

Referência Bibliográfica

 

CASTRO, Adler Homero Fonseca de. Notas sobre o armamento na Guerra do Paraguai. BN Digital. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/guerra-do-paraguai/artigos/notas-sobre-o- armamento-na-guerra-do-paraguai/

DORATIOTO, Francisco F. Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SOARES, Rodrigo Goyena. Diário do Conde d’Eu, comandante em chefe das tropas brasileiras em operação na República do Paraguai. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017.

SCHUBERT, Rudolph. O uso das clavinas Spencer e a introdução do cartucho metálico no Exército Brasileiro no âmbito das formações de infantaria montada dos batalhões de caçadores na Guerra da Tríplice Aliança. Revista Brasileira de História Militar, Rio de Janeiro, Ano XV, n° 36, p. 104-118, nov. 2024.

TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle. Diário do Exército, campanha do Paraguai, 1869-1870: Comando-em-Chefe de S. A. o Sr. Marechal-de-Exército Conde d’Eu. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2002.

CATEGORIAS:
História

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