TUIUTI, 160 ANOS

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Terça, 02 Junho 2026
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Há exatos 160 anos, no dia 24 de maio, Brasil, Argentina e Uruguai, reunidos na Tríplice Aliança e Paraguai, travaram a maior batalha campal da América do Sul.
O presente ensaio, em limitada síntese, se propõe a relembrar esse evento e as consequências do seu desfecho.
Antecedentes 
Após a batalha do Riachuelo, a maré da guerra virara e com ela a ofensiva paraguaia foi detida, seguindo-se uma lenta retirada de volta ao seu território.
Após uma concentração estratégica na província argentina de Corrientes, diante do Passo da Pátria, no Paraguai, os aliados, desembarcaram naquele país em 16 de abril de 1866.
No dia 2 de maio, deu-se o batismo de fogo em terras continentais guaranis: por volta do meio-dia, a vanguarda aliada foi atacada nas proximidades de Estero Bellaco.
Após 3 horas de combate, o inimigo abandonou o campo de batalha, deixando atrás de si 2500 baixas (a Aliança teve 1560 mortos).
Dezoito dias após, os aliados atingiram a posição de Tuiuti, situada em terreno arenoso, localizado entre os Esteros Bellaco (ao sul) e Rojas (ao norte) e ao sul da lagoa Tuiuti, tendo como limites oeste o Potreiro Pires e a leste um coqueiral de iataís.
A frente do acampamento aliado, após um descampado de cerca de 1300 metros, descortinava-se um denso matagal.
No mesmo dia, Solano López estabeleceu seu QG em Passo Pocú, ao norte de Estero Rojas. 
As tropas da Aliança se dispuseram escalonadas em um dispositivo que tinha 4 km de frente, com os argentinos à direita, brasileiros e uruguaios ao centro e à esquerda, cabendo às artilharias desses dois países fazerem a proteção frontal.
Os aliados em presença se dividiam da seguinte maneira:
- brasileiros, com 4 divisões de infantaria, 2 divisões de cavalaria, 2 brigadas de artilharia, 1 brigada de cavalaria ligeira;
- argentinos, 2 corpos de exército divididos em 4 divisões de infantaria, 1 regimento de cavalaria, 1 brigada de artilharia, 2 brigadas de cavalaria; e
-uruguaios, 1360 homens das 3 Armas. 
O total de combatentes se elevava a 32 mil homens. 
As tropas de cavalaria brasileira, com exceção da brigada ligeira, se encontravam desmontadas.
No lado paraguaio, Solano López concluía seu plano de batalha, tendo se decidido por um ataque frontal, seguido de um duplo envolvimento, com a manifesta intenção de destruir todo o Exército Aliado e decidir a guerra, empregando 24 mil homens assim distribuídos:
-o ataque frontal seria conduzido por Diaz, secundado por Marcó, ambos totalizando cerca de 9 mil;
- o envolvimento a leste caberia a Resquin com 6 300; e 
- o envolvimento a oeste sob a direção de Barrios com 8700 combatentes.
Em reserva, López manteve 10 mil homens, 6.000 em Passo Pocu e 4.000 em Curupaiti.

A Batalha
O ataque paraguaio estava planejado para se iniciar às 09 horas, mas como em Riachuelo o relógio correu contra os guaranis: a dificuldade de progredir pelo terreno matoso fez com que a operação só se iniciasse às 11 horas e 55 minutos, quando um foguete disparado por Barrios cortou o céu.
Além de não poder contar com os aliados ainda entorpecidos, as forças paraguaias não conseguiram iniciar o combate com seus efetivos completos, tendo que se lançar à frente em ondas sucessivas.
Assim que tomou conhecimento do ataque, o General Osorio montou a cavalo e se pôs a frente das tropas brasileiras. 
A primeira coluna a atacar foi a de Diaz que levou de roldão dois batalhões uruguaios antes de se chocar com a artilharia brasileira, sob o comando de Mallet, em um combate mortífero, uma vez que a posição das baterias havia sido previamente organizada.
Marcó se juntou a Diaz e ambos renovaram o ataque. 
Do lado aliado, Osorio reforçou o centro com tropas brasileiras, dentre as quais a Divisão de Infantaria comandada por Sampaio,tornando-o intransponível. 
No flanco direito, Resquin lançou seu ataque a tropa argentina defasado da manobra de Diaz.
A cavalaria paraguaia inicialmente destroçou a sua congênere argentina, ao ponto de alguns soldados platinos fugirem até Passo da Pátria.
Com muito esforço os Generais Paunero e Emílio Mitre conseguiram reconstituir a linha defensiva, contando com auxílio da 8ª brigada brasileira.
Em certo momento da batalha, o Major paraguaio Olabarrieta conseguiu chegar a retaguarda do dispositivo aliado, onde,  com Barrios fecharia o cerco sobre este. Não o encontrando lá, retornou ao ponto inicial.
No flanco esquerdo, Barrios, a despeito de ter lançado o sinal de início da operação, só desencadeou seu ataque efetivamente horas após os de Diaz e Resquin, prejudicado pela vegetação local.
Suas tropas penetraram en masse no Potreiro Pires, por meio de dois boqueirões, um no sentido oeste-leste e outro no sentido norte-sul, obrigando os brasileiros a recuarem até Estero Bellaco.
Osorio então fez convergir para a região reforços e entregou o comando do setor ao General Mena Barreto, comandante da 2ª Divisão de Cavalaria, que combatia desmontada.
A tropa brasileira que possuía montarias, a brigada ligeira comandada pelo General Neto, atacou o inimigo fazendo-o retroceder até a saída da mata, bloqueando o avanço de novas tropas.
Por volta das 16 horas e 30 minutos, o Exército Paraguaio perdeu a iniciativa e entendendo a inutilidade de sua ação, abandonou o campo de batalha, deixando atrás de si 6 mil mortos e arrastando 7 mil feridos (Os aliados tiveram 996 mortos e 2235 feridos).
Findava-se Tuiuti.
Conclusão
O Exército Guarani pagou caro por descumprir os Princípios de Guerra da Surpresa, Massa, Economia de Meios, Manobra e Unidade de Comando, ao lançar-se ao combate quase 3 horas depois do previsto, com suas forças sendo empregadas fracionadamente à medida que atingiam o campo de batalha, sem poder contar com uma verdadeira reserva, nunca tendo superioridade de poder de combate nos locais de ataque, não conseguindo se colocar em posição vantajosa frente ao inimigo e não podendo contar com um comando único sobre todos seus efetivos em presença, permitindo-lhe o apoio mútuo.
A resultante disso foi a derrota do melhor exército que a nação guarani reuniu durante todo o conflito, se não decisiva, mais importante para o desfecho da guerra. 
Para os aliados, a batalha serviu como um fator de união, pois pela primeira vez, todos combateram juntos o inimigo comum, inclusive auxiliando-se na peleja.
No caso específico do Brasil, Tuiuti tornou-se mitológica: até 1923, quando foi criado o Dia do Soldado era a Data Magna do Exército Brasileiro, aludindo à participação dos patronos da Artilharia, Cavalaria e Infantaria.
A despeito do resultado, a paz demoraria mais 4 anos para ser alcançada. 

 

REFERÊNCIAS 
D’AGUIAR, Hernani. Batalha Naval do Riachuelo. A Defesa Nacional, [S. l.], v. 52, n. 607, 2020. Disponível em: https://www.ebrevistas.eb.mil.br/ADN/article/view/4995. Acesso em: 15 mar. 2026
PINTO MOURA, Aureliano. A batalha de Tuiuti. Revista do IGHMB, ano 62, nº88, 2002.
REIS DAMASCENO, Filadelfo. Batalha de Tuiuti. A Defesa Nacional, [S. l.], v. 52, n. 607, 2020. Disponível em: https://www.ebrevistas.eb.mil.br/ADN/article/view/4987. Acesso em: 15 mar. 2026
História hoje. A maior batalha da América do Sul: Tuiuti, 1866 | Guerra do Paraguai You Tube. 2 de out. de 2023.20 min e 49 s. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=AScNhfeOtNQ. Acesso em 15 de março de 2026.

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