Geopolítica dos semicondutores: a guerra dos chips

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Quarta, 01 Julho 2026
Compartilhar

A distinção entre semicondutor e chip é fundamental para compreender a base material do poder tecnológico contemporâneo. Embora frequentemente tratados como sinônimos, o semicondutor designa a propriedade física do material, enquanto o chip, ou circuito integrado, é o produto tecnológico resultante desse processo industrial (Figura 1).

Figura 1 - Diferença entre semicondutor e chip

Fonte: O autor (2026).

 

Essa diferença revela que a eletrônica moderna não depende apenas do silício, mas de uma cadeia global de minerais críticos e terras raras indispensáveis à dopagem e à miniaturização que sustentam a Indústria 5.0, caracterizada por sistemas inteligentes, conectividade e automação avançada (Zhang & Zhu, 2023). A presença dos semicondutores, em praticamente todos os setores, evidencia sua centralidade para a vida contemporânea, desde equipamentos médicos até sistemas de armas, finanças e inteligência artificial (IA) (Figura 2).

Figura 2 - O chip na vida contemporânea

Fonte: O autor (2026).

 

A relevância estratégica desses componentes não é recente. Os primeiros circuitos integrados foram desenvolvidos em projetos militares, como os sistemas de mísseis Minuteman e o programa espacial Apollo, demonstrando que a superioridade tecnológica sempre esteve associada à segurança nacional (Figura 3).

Figura 3 - Defesa e a gênese da indústria de semicondutores

Fonte: O autor (2026).

 

Ainda que hoje a maior parte dos chips seja empregada em aplicações civis, a lógica permanece a mesma: vantagem tecnológica traduz-se em superioridade operacional, seja no campo de batalha, na inteligência ou na guerra eletrônica (Miller, 2022). Nesse contexto, o conceito de tecno-geopolítica evidencia que variáveis tecnológicas se tornaram fatores decisivos da política externa e da estratégia de defesa, ampliando o conceito tradicional de território para incluir o domínio digital e industrial (Yoon, 2023).

A dependência crescente de semicondutores coincidiu com a concentração produtiva em poucas regiões e empresas, gerando vulnerabilidades sistêmicas. A participação dos EUA na capacidade global de manufatura de chips caiu de 37% em 1990 para aproximadamente 12% em 2022, enquanto o Leste Asiático consolidou-se como principal polo produtivo (Figura 4) (Peters, 2023).

Figura 4 - Concentração da produção global

Fonte: Adaptado de Miller (2022) e Peters (2023).

 

A TSMC, sediada em Taiwan, produz aproximadamente 90% dos chips de última geração, situação que cria um risco estrutural para a economia digital global (Miller, 2022). Esse cenário deu origem ao conceito de “escudo de silício”, segundo o qual a importância econômica da ilha atua como fator dissuasório, mas simultaneamente expõe a cadeia global de suprimentos a potenciais rupturas em caso de crise regional (Figura 5) (Hsu, 2025).

Figura 5 - O “escudo de silício” e o paradoxo de Taiwan

Fonte: Adaptado de Hsu (2025).

 

A cadeia global de semicondutores é altamente interdependente e distribuída entre diversos países, desde a extração de minerais críticos até a fabricação de wafers, design de chips, equipamentos de litografia e aplicações finais (Figura 6). Essa estrutura cria múltiplos pontos de estrangulamento estratégicos, como o domínio da empresa holandesa ASML na tecnologia de litografia EUV, indispensável à produção de chips de ponta. Estudos indicam que os EUA ocupam posição central em diversas etapas da cadeia, conferindo-lhes capacidade de influência sobre fluxos comerciais e regimes de exportação tecnológica (Zhang & Zhu, 2023).

Figura 6 - Cadeia global dos semicondutores


 

Fonte: O autor, com base em Zhang e Zhu (2023).

 

A classificação dos chips segundo seu nível tecnológico e aplicação estratégica evidencia que diferentes categorias sustentam funções críticas distintas, desde sistemas de defesa e IA até veículos e equipamentos industriais (Quadro 1). Chips de última geração, produzidos em escalas de poucos nanômetros, são essenciais para aplicações de alto desempenho, enquanto os chamados chips legados continuam vitais para a indústria automotiva e infraestrutura industrial, demonstrando que a dependência tecnológica é ampla e transversal (Miller, 2022).

Quadro 1 - Classificação dos chips

Categoria

Aplicações estratégicas

Escala tecnológica

Ponta (Leading-edge)

IA, defesa, supercomputação

3–5 nm

Intermediários

Servidores, redes, PCs

7–14 nm

Legados

Veículos, indústria, eletrodomésticos

28 nm ou mais

Fonte: Miller (2022).

 

A rentabilidade extraordinária do setor reflete essa concentração geográfica e tecnológica da produção de alto valor agregado. Cerca de 75% dos semicondutores são fabricados no Leste Asiático, consolidando a região como núcleo da economia digital (Peters, 2023). Empresas como a TSMC alcançam receitas anuais de dezenas de bilhões de dólares, evidenciando que a assimetria tecnológica converte-se diretamente em poder econômico e estratégico (Miller, 2022).

Em resposta às vulnerabilidades expostas por essa concentração, a política industrial retornou ao centro da estratégia das grandes potências. O US Chips and Science Act destinou US$ 52,7 bilhões para fortalecer a produção doméstica, enquanto o European Chips Act mobilizou cerca de € 43 bilhões com objetivos semelhantes, dentro de uma lógica de alianças estratégicas e friend-shoring (Peters, 2023; Rolf et al., 2025). Essas iniciativas demonstram que os semicondutores deixaram de ser apenas um setor econômico para se tornarem componente estruturante da segurança e competição entre grandes potências (Figura 7).

Figura 7 - Resposta ocidental: o retorno da política industrial


 

Fonte: Adaptado de Peters (2023) e Rolf et al. (2025).

 

A “Guerra dos Chips” evidencia que, no século XXI, segurança nacional e autonomia tecnológica são dimensões inseparáveis. Para o Brasil e suas Forças Armadas, a principal lição é que a resiliência operacional depende da compreensão das cadeias globais de tecnologia e da formação de quadros capazes de integrar logística, gestão, economia e geopolítica da inovação.

A soberania brasileira dependerá da capacidade nacional de formular uma estratégia de semicondutores que reduza vulnerabilidades externas e fortaleça a infraestrutura crítica e os sistemas de defesa. No cenário contemporâneo, autonomia tecnológica não é apenas opção de desenvolvimento, mas requisito de segurança nacional, em um contexto de competição estratégica por cadeias de suprimentos críticas e crescentes tensões tecno-geopolíticas (Yoon, 2023).

 

Referências

Hsu, S. Y. (2025). Critical approaches to geoeconomics: Taiwan’s position/ing in the global chip war. Environment and Planning A: Economy and Space57 (1), 133-137. https://doi.org/10.1177/0308518X241269362

Miller, C. (2022). Chip war: The fight for the world's most critical technology. Simon and Schuster.

Peters, M. A. (2023). Semiconductors, geopolitics and technological rivalry: the US CHIPS & Science Act, 2022. Educational Philosophy and Theory55 (14), 1642-1646. https://doi.org/10.1080/00131857.2022.2124914

Rolf, S., Baines, J., Germann, J., & Starrs, S. (2025). The geographies and geopolitics of industrial policy: Designing a data-driven UK semiconductor strategy. European Urban and Regional Studies32 (2), 115-123. https://doi.org/10.1177/09697764241303838

Yoon, J. (2023). Supply chain security in the age of techno-geopolitics:‘Fab 4’case in the semiconductor industry. The Korean Journal of International Studies21 (1), 27-60. https://doi.org/10.14731/kjis.2023.04.21.1.27

Zhang, Y., & Zhu, X. (2023). Analysis of the global trade network of the chip industry chain: Does the US-China tech war matter?. Heliyon9 (6). https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2023.e17092

Comentarios

Comentarios

Navegación por categorías

Artigos Relacionados