FOGOS DE LONGO ALCANCE E DISSUASÃO NA AMAZÔNIA: por que o míssil não é suficiente

Autor: Maj Leske
Segunda, 05 Outubro 2026
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Ao tratar do tema defesa da Amazônia brasileira, normalmente vem à mente a imagem do soldado na selva, combatendo corpo a corpo contra ameaças assimétricas e forças irregulares. Embora essa seja uma realidade, o ambiente daquela região estratégica mudou. O Conceito Operacional do Exército Brasileiro (COEB), atualizado em 2026, afirma que a postura dissuasória do Brasil demandará o fortalecimento de capacidades relacionadas ao "antiacesso e à negação de área" (Brasil, 2026).

Para caracterizar o fortalecimento de capacidades em um ambiente operacional complexo como o Amazônico, o Exército Brasileiro tem investido em programas estratégicos. O Programa Estratégico ASTROS 2020, atualmente programa Astros-Fogos, busca o desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), o qual possui capacidade de projetar poder a até 300 km (Brasil, 2023). Dessa forma, permite restringir a liberdade de ação de forças hostis sem a necessidade de deslocamento maciço de tropas, contribuindo para o fortalecimento da capacidade de antiacesso e da postura dissuasória prevista no COEB.

No entanto, as lições aprendidas no âmbito mundial destacam que o míssil, por si só, não é o suficiente. A aquisição e/ou o desenvolvimento da capacidade de realizar ataques por meio de fogos de longo alcance, não garante a capacidade dissuasória. Como demonstram os estudos sobre as "bolhas A2/AD" russas no Báltico e a estratégia chinesa no Mar do Sul da China, a eficácia depende da integração de sensores avançados no multidomínio com plataformas de engajamento (FRUHLING; LASCONJARIAS, 2016; TEIXEIRA JÚNIOR, 2021). Se não conseguirmos responder a três perguntas fundamentais – O que está lá? Onde exatamente? Quando devo engajar? – o Míssil Tático de Cruzeiro não passa de um tiro no escuro.

Nesse cenário, a Amazônia impõe óbices naturais particulares, ressaltados no manual de Operações na Selva, tais como: visibilidade no interior da mata raramente ultrapassa 50 metros; a densa cobertura vegetal bloqueia sensores ópticos; a umidade e a nebulosidade dificultam comunicações e imagens de satélite; a vastidão do território torna o deslocamento lento e a logística um desafio (BRASIL, 2021, p. 2-3 – 2-9). Nesse ambiente, um observador avançado de artilharia ou de qualquer arma, fica em condições desfavoráveis de detecção, condução e observação de tiros.

Ademais, Quint (2016) corrobora essa análise ao destacar que os locais de difícil acesso na Amazônia facilitam a atuação sigilosa do inimigo, tornando o levantamento e a identificação precisa de alvos no desafio central da defesa na região.

Diante desse cenário complexo e multifacetado, uma alternativa de superação do óbice identificado para transformar o emprego do MTC em um elemento dissuasório é, no ponto de vista do autor, a construção de uma Malha de Sensoriamento Multidomínio. Esse novo conceito pode ser sumariamente definido por um fluxo de informações capaz de integrar sensores de todos os domínios (espacial, aéreo, terrestre, fluvial e cibernético) em uma única rede de Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (C4ISR).

Um exemplo desse fluxo é baseado no modelo de fusão de dados multisensor (Hall; Llinas, 1997), podendo ser caracterizando e contextualizado conforme o exemplo abaixo:

  1. Detecção (Espacial): Um satélite de radar de abertura sintética (SAR), imune às nuvens, identifica movimentação atípica de embarcações em um afluente remoto.

  2. Confirmação (Aéreo/Cibernético): Um Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) de longo alcance é direcionado à área, enquanto sistemas de guerra eletrônica captam emissões de rádio inimigas, confirmando tratar-se de uma força organizada.

  3. Fusão (Terrestre): Os dados são enviados ao Centro de Coordenação de Operações (CCOp). Um software apoiado por inteligência artificial funde essas informações em uma imagem operacional comum, eliminando falsos alvos e definindo coordenadas precisas.

  4. Engajamento (Fogos): O alvo já processado e priorizado é transmitido diretamente ao Centro de Coordenação de Fogos (CCF) do Grupo de Mísseis e Foguetes (GMF). Em minutos, o MTC-300 é lançado contra um alvo que o artilheiro sequer viu, mas que o sistema identificou com precisão.

Essa arquitetura, baseada no conceito de kill web – no qual sensores, sistemas de comando e vetores de efeito são conectados por redes digitais resilientes (ZHANG et al., 2023) – acelera o ciclo decisório. Como destacam Priebe et al. (2020), a integração entre sensores e vetores de efeito constitui um dos principais desafios tecnológicos e doutrinários das forças armadas contemporâneas. Outrossim, o Conceito Operacional do Exército Brasileiro aponta nessa direção ao afirmar que as ações no multidomínio demandarão sistemas de detecção e vigilância, apoio à decisão, veículos autônomos e armamentos de precisão (Brasil, 2026).

Portanto, a Amazônia não é um deserto ou o mar aberto. Exige, por isso, uma solução integrada e não apenas um vetor de fogo isolado. A estratégia de dissuasão brasileira, por meio do emprego da Artilharia para negação de área e antiacesso, é essencial para a transformação da Força, mas só o MTC não é suficiente.


 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Exército. Comando de Operações Terrestres. Operações na Selva: EB70-MC-10.231. 1. ed. Brasília, DF: COTER, 2021.

BRASIL. Exército. Estado-Maior do Exército. Conceito Operacional do Exército Brasileiro: EB20-MF-07.101. 2. ed. Brasília, DF: EME, 2026.

BRASIL. Exército. Escritório de Projetos do Exército. Programa Estratégico ASTROS 2020. Brasília, DF: EPEx, 2023. Disponível em: https://epex.eb.mil.br/index.php/programas-estrategicos-do-exercito. Acesso em: 10 abr. 2026.

HALL, David L.; LLINAS, James. An Introduction to Multisensor Data Fusion. Proceedings of the IEEE, v. 85, n. 1, p. 6-23, 1997.

PRIEBE, Miranda et al. Multiple Dilemmas for the Joint Force: Joint All-Domain Command and Control. Santa Monica, CA: RAND Corporation, 2020. Disponível em: https://www.rand.org/pubs/research_briefs/RBA381-1.html. Acesso em: 10 abr. 2026.

QUINT, Adilson Giovani. A defesa da região amazônica: proposta de aplicação da estratégia de antiacesso e negação de área. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2016.

TEIXEIRA JÚNIOR, Augusto W. M. Estratégias Comparadas de Antiacesso e Negação de Área: Rússia, China e Irã. Análise Estratégica, v. 20, n. 2, p. 8-36, 2021.

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