Do astrolábio ao algoritmo: a evolução das potências globais

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Sexta, 26 Junho 2026
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A história das potências globais não é uma sequência de datas, mas uma sucessão de modelos de poder. Cada hegemonia emergiu da combinação entre tecnologia disponível, organização militar, instituições e capacidade de adaptação estratégica. Nesse sentido, Portugal, a partir de 1415, estruturou a primeira rede logística-militar intercontinental funcional, conectando Europa, África, Ásia e América e inaugurando o sistema de poder verdadeiramente global (Boxer, 1981). O domínio das rotas oceânicas, viabilizado por avanços náuticos como o astrolábio e a caravela, representava o “estado da arte” tecnológico da época. Contudo, segundo Kennedy (1990), hegemonias são transitórias: o fluxo de metais preciosos que fortaleceu os impérios ibéricos no século XVI não foi acompanhado por instituições econômicas e produtivas capazes de sustentar vantagem de longo prazo.

Figura 1 – Principais rotas das monarquias ibéricas e gargalos estratégicos

Fonte: O autor, com base nos dados da pesquisa (2026).

 

Enquanto Portugal e Espanha estruturavam sistemas voltados à extração, as potências do norte-europeu, Países Baixos, França e Inglaterra, desenvolveram modelos baseados em comércio de maior valor agregado, finanças e poder naval. No caso britânico, a condição insular reduziu drasticamente a probabilidade de invasões bem-sucedidas após 1066, favorecendo continuidade institucional e foco estratégico no domínio marítimo. Associada à Royal Navy e à diplomacia de equilíbrio de poder no continente, essa segurança estrutural criou o ambiente para a Revolução Industrial (Kennedy, 1990). A partir daí, consolidou-se a chamada “Era dos Impérios”, caracterizada pela expansão global europeia e pela integração do sistema internacional sob hegemonia industrial e marítima (Hobsbawm, 1987).

A evolução histórica da hegemonia pode ser sintetizada pela mudança nos vetores centrais de poder: navegação oceânica, comércio e finanças, indústria pesada, complexo militar-industrial e, mais recentemente, tecnologia da informação e algoritmos. Essa transição reforça a tese de Douglass North (1990) de que o desempenho das nações depende de suas instituições — as “regras do jogo” que moldam incentivos à inovação e à cooperação.

Figura 2 – Evolução da Hegemonia Global (Séculos XV - XXI)

Fonte: O autor, com base nos dados da pesquisa (2026).

 

O contraste entre trajetórias nacionais nas Américas ilustra esse argumento. Jared Diamond (2017) enfatiza fatores geográficos e biológicos iniciais, enquanto Acemoglu e Robinson (2012) defendem que o diferencial decisivo esteve nas instituições: sistemas inclusivos geraram inovação e crescimento sustentado; sistemas extrativos, dependência de recursos e estagnação relativa. A persistência histórica desses arranjos institucionais confirma a ideia de “dependência de trajetória” (North, 1990).

Figura 3 – Por que as nações divergem? O debate teórico

Fonte: O autor, com base nos dados da pesquisa (2026).

 

No século XXI, a disputa entre Estados Unidos e China recoloca esse debate em nova escala. A ascensão chinesa, intensificada após as reformas de 1978, demonstra a capacidade de crescimento acelerado sob forte centralização política, desafiando a hipótese de que apenas instituições plenamente inclusivas sustentam poder de longo prazo. Trata-se de um experimento histórico em curso, cujos desdobramentos influenciarão a distribuição de poder global nas próximas décadas.

Figura 4 – 2026: o choque de modelos e a disputa algorítmica

Fonte: O autor, com base nos dados da pesquisa (2026).


 

Para o Brasil e suas Forças Armadas, a lição estratégica é clara: recursos naturais, por si só, não produzem soberania. O poder nacional duradouro resulta da interação entre tecnologia, organização militar eficiente, instituições robustas e capacidade contínua de inovação. A trajetória das potências, do astrolábio português ao algoritmo contemporâneo, demonstra que hegemonias se reinventam conforme emergem novos paradigmas tecnológicos e institucionais. Compreender esses ciclos não é exercício acadêmico abstrato, mas ferramenta estratégica para quem precisa planejar o futuro da defesa e do desenvolvimento nacional.

Figura 5 – A lição estratégica para o Brasil


Fonte: O autor, com base nos dados da pesquisa (2026).


 

Referências

Acemoglu, D., & Robinson, J. (2012). Por que as nações fracassam.
Boxer, C. R. (1981).
O império colonial português 1415–1825.
Diamond, J. (2017).
Armas, germes e aço.
Hobsbawm, E. (1987).
A Era dos Impérios.
Kennedy, P. (1990).
Ascensão e queda das grandes potências.
North, D. C. (1990).
Institutions, Institutional Change and Economic Performance.

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