Aplicação do conhecimento militar: revistas e produção científica

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Segunda, 17 Agosto 2026
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As escolas militares são Estabelecimentos de Ensino (EE) intensivos que, em muitos casos, oferecem a oportunidade de desenvolvimento de trabalhos finais de curso, seja em estudos monográficos ou em grupos de estudos. Entretanto, em consulta ao portal de periódicos do Exército Brasileiro (EB), o EB Revistas (https://ebrevistas.eb.mil.br/), observa-se interessante janela de oportunidade para que as investigações desenvolvidas nos EE sejam aproveitadas no formato de artigos.

Esses periódicos hospedados no portal EB Revistas contemplam pesquisas variadas, desde as ciências militares até campos correlatos como: ciência, tecnologia e inovação (C, T&I) militar; estratégia; gestão de recursos de defesa; geopolítica; história militar, etc. Grande parte dessas revistas são gerenciadas pelas seguintes Organizações Militares: Biblioteca do Exército (BIBLIEx); Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEx);Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME); Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO); e Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).

Em consulta aprofundada ao portal de periódicos, também se encontram a cargo do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHIMEx), Fundação Cultural Exército Brasileiro (FUNCEB) e Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx), assim como as organizadas por outros EE, como a Escola de Sargentos das Armas (ESA) e a Escola de Aperfeiçoamento das Armas (EASA). Destaca-se que ainda há outros portais, como o do Ministério da Defesa (MD), Marinha do Brasil (MB) e Força Aérea Brasileira (FAB), que publicam estudos correlatos.

Este artigo visa cumprir uma lacuna na literatura militar, de forma que além dos trabalhos desenvolvidos nos EE da Força Terrestre, inúmeros trabalhos de opinião podem ser aperfeiçoados com a estrutura de um artigo científico. Na orientação de Pereira (2017), para atingir tal objetivo, esses trabalhos geralmente contém os seguintes elementos:

  1. Títulos em português e inglês (em alguns casos também em espanhol);

  2. Resumos em português e inglês (abstract) e, a depender do periódico, em espanhol (resumen);

  3. Introdução, com contextualização, identificação de lacuna(s), problematização, objetivo(s), questão de pesquisa e justificativa;

  4. Fundamentação teórica, em que se incluem menções a autores seminais, clássicos e recentes. Trabalhos mais exigentes ainda incluem uma subseção com o modelo teórico de análise;

  5. Metodologia, em que se apresenta a abordagem (qualitativa, quantitativa ou híbrida), natureza e tipologia do estudo, bem como procedimento e o detalhamento de sua coleta de dados, acompanhada do tipo de análise desses dados;

  6. Análise e discussão dos resultados, os quais são a fotografia dos dados coletados, ao mesmo tempo em que a análise se desenvolve com o confronto com a literatura, em que se podem confirmar ou não as proposições, em caso de estudo qualitativo, ou hipóteses, em caso de trabalhos quantitativos. Outros artigos podem separar essa seção em duas: sendo uma dedicada aos resultados e outra relacionada à discussão;

  7. Considerações finais, em que se retoma o objetivo da pesquisa, a fim de confirmar ou não a proposta inicial na introdução. Nesta seção, é importante sintetizar os principais resultados apresentados na seção anterior, e ainda informar aos leitores as implicações (teóricas, gerenciais e sociais). Os últimos parágrafos das considerações finais costumam contar as limitações e possibilidades de estudos futuros, sobretudo em formato de agenda de pesquisa; e

  8. Lista de referências, que deve ser coerente com as citações desenvolvidas no decorrer do artigo, em um dos seguintes formatos: ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas); ACM (Association for Computing Machinery); ACS (American Chemical Society); AMA (American Medical Association); APA (American Psychological Association); Bluebook; Chicago; Harvard; IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers); MLA (Modern Language Association); OSCOLA (Oxford Standard for the Citation of Legal Authorities); e Vancouver.

De posse das orientações relacionadas às boas práticas para o desenvolvimento de um artigo científico robusto, capaz de comunicar com eficiência seus resultados à comunidade científica, cabe ilustrar os periódicos disponíveis em EB Revistas. O Quadro 1 apresenta as características desses veículos, inclusive com a referências de Qualis, que até pouco tempo identificava a qualidade a nível nacional:

Quadro 1 – Periódicos militares disponíveis no portal EB Revistas

Nome

Origem

Periodicidade

OM mantenedora

ISSN (Interna-tional Standard Serial Number)

Qualis

(2021-24) ou anterior

Ação de Choque

---

anual

Centro de Instrução de Blindados (CI Bld)

2316-2090

---

A Defesa Nacional

1913

quadrimestral

ECEME

0011-7641

B2

Análise Estratégica

2016

trimestral

CEEx

2525-457X

B1

Anuário da Academia Militar das Agulhas Negras

---

anual

AMAN

2236-9201

C

Artigos Estratégicos

2016

semestral

CEEx

2525-7099

B1

A Quaderna

2023

anual

ESA

2965-3010 e 2965-2472

B2

Bellum

2024

semestral

CEPHIMEx

2966-2605 e 2966-2613

B4

Boletim Informativo Técnico da Veterinária Militar

1938

Bimestral. Descontinuada em 1982

Extinta Diretoria de Veterinária do Exército

---

---

Cadernos de Estudos Estratégicos

2005

Irregular, de quadrimestral a anual

Escola Superior de Guerra (ESG), subordinada ao MD

1808-947x

B2

Cadernos de Liderança Militar

2022

semestral

CEEx

2965-2103

---

CCOPAB and Pe-ace Operations: perspectives, reflections and lessons learned

2015

anual

Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB)

2525-5282

C

Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares

2007

quadrimestral

Instituto Meira Mattos (IMM)/ ECEME

2316-4891

B1

Data & Hertz

2020

---

 Centro de Instrução de Guerra Eletrônica (CIGE) 

---

---

DIÁLOGO – Forum of the Americas

---

trimestral

Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM)

---

---

ECOBRAVO: a revista oficial do Comando Militar do Leste

---

anual

Comando Militar do Leste (Cmdo CML)

---

---

EsSEx: Revista Científica

2009

Descontinuada em 2021 (sucedida pela Rev. Científica da ESFCEx)

Escola de Saúde do Exército (EsSEx), atualmente parte da ESFCEx

2675-1445

---

Giro do Horizonte

2008

semestral

EsAO

2176-1493

---

HYLOEA

1922

anual

Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

---

----

Informativo Antiaéreo: publicação científica

2006

---

Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe)/ Comando de Defesa Antiaérea do Exér-cito (Cmdo DAAe Ex)

1982-6117

---

Informativo Estratégico

2015

mensal

CEEx/ 7ª Subchefia do Estado-Maior do Exército (7ª SCh/ EME)

---

---

Kur’yt’yba

2009

anual

Colégio Militar de Curitiba (CMC)

2175-9243

---

Lembrai-vos da Guerra

--

---

9ª Brigada de Infantaria Motorizada (9ª Bda Inf Mtz)

---

----

Military Review

1922

bimestral

Army University Press

0026-4148

B3

O Adjunto: Re-vista Pedagógica da EASA

2013

anual

EASA

2318-1748

---

O Comunicante

2009

anual

Escola de Comunicações (EsCom)

1968-6029

---

O Realengo

1999

anual

Escola de Instrução Especializada (EsIE)

---

---

PADECEME

2002

semestral

ECEME

1677-1885

B1

Panorâmico

2022

quadrimestral

Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV)/ ECEME

2965-0240

C

Relatório Anual

2017

anual

CEEx

---

---

Revista Agulhas Negras

2017

anual

AMAN

2595-1084

B2

Revista Babilônia

---

anual

Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ)

---

---

Revista Brasileira de Saúde Militar

1936 (Annaes do HCE)

anual

Instituto de Biologia do Exército (IBEx) / Hospital Central do Exército (HCE)

---

---

Revista Científica da EsFCEx

2022

anual

ESFCEx

---

---

Revista Científica Fundação Osorio

2016

anual

Fundação Osorio, vinculada ao MD

2526-4818

B2

Revista Científica Nasceu Forte!

2021

anual

Colégio Militar de Belém (CMBel)

2695-4475

---

Revista Científica Schola

2017

anual

Colégio Militar de Santa Maria (CMSM)

2594-7672

B1

Revista Cultura Garança

---

---

---

---

---

Revista Da Cultura

2001

semestral

FUNCEB

1984-3690

B3

Revista da EsAO

2022

anual

EsAO

---

---

Revista da Escola Superior de Guerra

1983

quadrimestral

ESG (subordinada ao MD)

0102-1788

A3

Revista da SEF

2018

anual

Secretaria de Economia e Finanças (SEF)

---

---

Revista de Educação Física

1932

trimestral

Centro de Capacitação Física do Exército (CCFEx)

2447-8946 e 0102-8464

B3

Revista de Medicina Militar

1989

---

Diretoria de Saúde (D Sau)

---

---

Revista de Segurança, Desenvolvimento e Defesa

2024

semestral

Escola Superior de Defesa (ESD), subordinada ao MD

2966-3830

C

Revista do Docente Militar

---

---

Instituto dos Docentes do Magistério Militar (IDMM)

2594-6056

---

Revista do Exército Brasileiro

1882

quadrimestral

BIBLIEx

0101-7284

B4

Revista Doutrina Militar Terrestre

2013

trimestral

Centro de Doutrina do Exército (C Dout Ex)/ Comando de Operações Terrestres (COTER)

2317-6350

B2

Revista Mário Travassos

2023

anual

Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx)

---

---

Revista Militar de Ciência e Tecnologia

1984

trimestral

Instituto Militar de Engenharia (IME)

2316-4522 e

0102-3543

B3

Revista O Gestor Militar

2021

semestral

SEF

2764-0396

C

Revista Pegasus

2003

semestral

Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx)

---

---

Revista Silva

2017

semestral

Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias (CEP/ FDC)

2594-8199

---

RICAM – Revista Interdisciplinar de Ciências Aplicadas à Atividade Militar

2005 (Rev. Científica Escola de Adminis-tração do Exército - EsAEx)

semestral e anual

(sucedida pela Revista Científica da ESFCEx)

Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), atual Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército (ESFCEx)

2236-9139

B3

Sangue Novo

---

---

AMAN

---

---

Ultima Ratio

2018

anual

Centro de Instrução de Artilharia de Mísseis e Foguetes (CI Art Msl Fgt)

---

---

Verde-Oliva

1973

trimestral

CCOMSEx

2178-1265

---

Legenda: --- (não encontrado ou indisponível).

Fonte: O autor, com base em consulta ao portal EB Revistas (2026).

Nos dados constantes do Quadro 1, verifica-se que a Revista da Escola Superior de Guerra possui o Qualis mais elevado, A3, seguido pelas publicações da ECEME, CEEx e CMSM, em B1. As cinquenta e seis publicações gerenciadas por OM do EB, do MD (ESG e ESD) e instituições internacionais (Diálogo e Military Review) demonstram a amplitude dos temas divulgados não somente para o público militar, mas para a comunidade em geral.

No tocante ao Qualis, trata-se de um sistema nacional criado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fundação pública do Ministério da Educação (MEC). O sistema foi criado como instrumento para avaliar a qualidade das publicações, em estratos de relevância (A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, B5 e C).

O Qualis esteve em vigor até o quadriênio 2021-24, de forma que a antiga avaliação, focada em periódico, a partir de 2025 é direcionada ao artigo individualmente (CAPES, 2024). Por outro lado, para conhecer o trabalho das Forças coirmãs, como a MB, suas publicações são disponibilizadas em: https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/ .

São diversas revistas, no impressionante número de cinquenta e quatro: A Fragata; A Galera; A Macega; A Ressurgência; Acanto em Revista; Anais Hidrográficos; Âncoras e Fuzis; Âncora Social; Arquivos Brasileiros de Medicina Naval; Azimute; BHMNews; Boletim de Acidentes Julgados no Tribunal Marítimo; Boletim Geocorrente; Caderno de Ciências Navais; Defesa NBQR em Revista; Espírito de Corpo; Informativo da CIRM; Informativo Cultural; Informativo da DIM; Informativo de Ciência, Tecnologia e Inovação; Informativo DOCM; Informativo Marítimo; Informativo O Dique; Informativo O Farol; INFONORTE; Jornal dos Veteranos e Pensionistas da Marinha; Marinha em Revista; Navigator; NAVSAU; NOMAR; NOTANF; O Alexandrino; O Anfíbio; O Casopeano; O Periscópio; PAGMAR; Podium Naval; PORTA-BATEL; REMMAR; Revista da Aviação Naval; Revista da EGN; Revista de Villegagnon; Revista do Clube Naval; Revista do IGHMB; Revista do SVPM; Revista Indústria Naval; Revista Intendência em Pauta; Revista Marítima Brasileira; Revista Naval de Odontologia; Revista Naval Psicologia em Destaque; Revista Obras Civis; Revista Passadiço; Revista Pesquisa Naval; e Vitória nas Sombras.

A Força mais jovem, a FAB, disponibiliza parte de seus periódicos em: https://revistaeletronica.fab.mil.br/. Nesse link, estão presentes volumes dos seguintes veículos: Aplicações Operacionais em Áreas de Defesa; Revista Conexão SIPAER; Revista da OARF; Revista Defesa e Segurança; Revista do CIAAR; e Revista Odontológica do Hospital de Aeronáutica de Canoas (descontinuada).

Além das seis publicações disponibilizadas no link do parágrafo anterior, uma consulta detalhada em outros sites vinculados à FAB apresentam os seguintes exemplares: Aerovisão; Esquadrão Harpia; História Geral da Aeronáutica Brasileira; ITA Humanidades; Journal of Aerospace Technology and Management (JATM); NOTAER; Opúsculo; Qualidade; Revista da Saúde da Aeronáutica; Revista da UNIFA; Revista do Comando de Preparo; Revista ECEMAR; Revista Esquadrilha; Revista INCAER; Revista Infantaria; e Spectrum. Assim, foi identificado o total de vinte e duas revistas vinculadas à FAB.

A análise comparativa demonstra que o portal de periódicos do EB possui um total de cinquenta e seis revistas disponibilizadas, seguido de perto do repositório da MB, com cinquenta e quatro. O portal EB Revistas possui três publicações científicas vinculadas ao MD e duas internacionais, ao passo que a MB possui link para a Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, o IGHMB.

No que tange às publicações da Aeronáutica, no portal de periódicos eletrônicos estão acessíveis poucos veículos, num total de seis. A busca pela internet identificou mais dezesseis, o que perfaz o rol de vinte e duas publicações vinculadas à FAB. Ademais, há um caso interessante, de significativa contribuição para a história militar do Brasil, que se trata da Revista da AHIMTB (Academia de História Militar Terrestre do Brasil), que não possui referência nos portais institucionais.

Em resumo, embora as três Forças possuam suas publicações regulares, há outros exemplos de veículos de interesse militar, que não são diretamente subordinados, como exemplificado pela AHIMTB. Outro caso é a Revista Militar Brasileira de Ciências. Ademais, pode-se destacar a maturidade desses periódicos, alguns centenários, como a Revista do Exército Brasileiro e A Defesa Nacional, além do destaque da Revista da Escola Superior de Guerra, em Qualis A3, comparável aos melhores periódicos indexados no País.

Em quadriênios anteriores, a avaliação era direcionada aos periódicos, no que a partir de 2025, será focada na qualidade dos artigos (CAPES, 2024). Os repositórios das três forças e MD possuem publicações de significativo prestígio para a difusão do conhecimento, o que permite aproveitar pesquisas desenvolvidas nos diversos EE militares. Vale sinalizar que as recentes boas práticas sugerem a submissão de trabalhos em inglês, uma vez que 98% (noventa e oito por cento) da ciência é publicada nesse idioma (Ramírez-Castañeda, 2020), que atraem mais citações (Nassi-Calò, 2016). Por fim, a consolidação de uma cultura de publicação científica na Força Terrestre não é apenas um diferencial acadêmico, mas um vetor estratégico de fortalecimento institucional.

Referências

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. (2024). Ofício Circular nº 46/2024-DAV/ CAPES, de 03 de outubro de 2024. https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/documentos/conselho-tecnico-cientifico-da-educacao-superior/oficios-ctc-es/14102024SEI_2470019_Oficio_Circular_46_resumoCTC_232.pdf

Nassi-Calò, L. (2016). Estudo aponta que artigos publicados em inglês atraem mais citações. SciELO em Perspectiva. https://blog.scielo.org/blog/2016/11/04/estudo-aponta-que-artigos-publicados-em-ingles-atraem-mais-citacoes/

Pereira, M. G. (2017). Dez passos para produzir artigo científico de sucesso. Epidemiologia e Serviços de Saúde26, 661-664. https://doi.org/10.5123/S1679-49742017000300023

Ramírez-Castañeda, V. (2020). Disadvantages in preparing and publishing scientific papers caused by the dominance of the English language in science: The case of Colombian researchers in biological sciences. PLOS ONE15 (9), e0238372. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0238372

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