A importância atemporal da conquista de Monte Castelo para o Exército Brasileiro

Autores: Gen Bda André Dias
Sexta, 20 Fevereiro 2026
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Exaltar os feitos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) é fortalecer a coesão do Exército, mantendo acesa a chama que ilumina os grandes fatos da História Militar nacional, inspirando e enlaçando as gerações passadas, atuais e futuras. A entrada do Brasil na 2º Guerra Mundial foi, em síntese, uma resposta indignada às covardes agressões de submarinos ítalo-germânicos a embarcações brasileiras no Atlântico, que resultaram no afundamento de 35 barcos nacionais e na morte de quase mil e cem inocentes.

A criação da FEB1, em 1943, consubstanciou a resiliência e a vontade nacionais. Naquele momento, o Brasil era um país essencialmente agrário, com baixo nível educacional, precária situação de saúde e deficiente infraestrutura de integração. Entretanto, superadas as dificuldades, em 16 de julho de 1944, os primeiros pracinhas pisaram na Itália2, ajustando-se à nova situação e demonstrando invulgar adaptabilidade. A cobra fumou!

A estreia em combate deu-se no Vale do Serchio, pelo Destacamento FEB3, em setembro de 1944, contra um inimigo veterano e de incontestável valor4. Os alemães eram, de fato, uma tropa de grande capacidade operacional. A 1ª fase das ações culminou com a conquista do Monte Prana, observatório que dominava todo o terreno circunvizinho. Na 2ª fase, chegou-se às fortes e bem estruturadas posições defensivas nos Apeninos.

O rápido avanço produziu, em todos os escalões, uma inobservância generalizada, resultando desastrosa a tentativa de conquistar Castelnuovo di Garfagnana, baluarte de alto valor para o inimigo. O insucesso trouxe importantes ensinamentos e, após 45 dias de combate, os febianos seguiram para o Vale do Reno, por ordem do IV Corpo de Exército (IV C Ex)5, ao qual a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) estava subordinada.

Era novembro de 1944 e o ótimo desempenho dos brasileiros, somado à flagrante falta de meios do V Exército de Campanha (V Ex Camp), que enquadrava o IV C Ex, fizeram com que os altos escalões aliados concluíssem ser aquela a ocasião adequada para atribuir à FEB missões mais ousadas. Surgiu, também, a necessidade de conquistar Monte Castelo.

Em 24, 25 e 29 de novembro, assim como em 12 de dezembro, foi tentada a captura daquela importante elevação. Nos dois primeiros ataques, conduzidos pelos norte-americanos, com o reforço de tropas brasileiras, da mesma forma que nos dois últimos, sob a liderança dos comandantes febianos, com o apoio estadunidense, as falhas ocorridas são consequências de uma série de fatores. Se por um lado, houve flagrante deficiência aliada, tanto na escolha da melhor tática, como na organização do poder de combate a ser empregado, por outro, as condições meteorológicas desfavoráveis, o terreno montanhoso e a obstinada resistência alemã contribuíram para os quatro fracassos.

Na estagnação dos combates, em posições defensivas, durante um inverno que chegou a impressionantes -20º C, as forças se reorganizaram e os dispositivos das tropas aliadas se reajustaram. O período foi de suma importância para os brasileiros, uma vez que permitiu ultimar o preparo dos contingentes recém-chegados ao fronte, de forma didática, inclusive com base em planos de instrução. O cumprimento de incontáveis missões de patrulha na “terra de ninguém”, em contato com o inimigo, foi igualmente fundamental para o desenvolvimento da autoconfiança e da sagacidade nos pequenos escalões.

No contexto do Plano Encore, em fevereiro de 1945, um novo ataque ao Monte Castelo foi imposto aos brasileiros. Desta vez, a 1ª DIE e os escalões superiores privilegiaram, em planejamentos adequadamente integrados, a utilização de manobras de flanco, atentando para os princípios de guerra da Unidade de Comando, Massa, Economia de Meios, Objetivo e Surpresa. O estado final desejado de liberar a Rodovia 64, principal eixo de comunicações e de suprimento para o IV C Ex, romperia a Linha Gótica6, permitindo ao V Ex Camp ultrapassar os Apeninos e alcançar Bolonha. Uma vez de posse daquela cidade, estaria aberto o acesso ao Vale do Pó, vislumbrando-se um rápido controle do restante da Itália.

No dia 19 de fevereiro, um exitoso ataque de surpresa da 10ª Divisão de Montanha norte-americana resultou na conquista dos Montes Belvedere e Gorgolesco, no flanco oriental aliado. Com isso, a segurança para o ataque da 1ª DIE ao Monte Castelo estava garantida, naquela porção da área de operações. Houve, também, a consequente atração das reservas inimigas para fora do setor febiano. Em 20 de fevereiro, o 1º Grupo de Caça brasileiro – Jambock (com o brado “Senta a Pua”) realizou cirúrgicas e proficientes missões de ataque às posições defensivas tedescas, em Monte Castelo e regiões adjacentes, degradando as forças inimigas e criando condições favoráveis para as ações da FEB.

No alvorecer de 21 de fevereiro, o dia ensolarado prenunciou o sucesso brasileiro. Uma forte preparação de fogos, capitaneada pela Artilharia Divisionária brasileira, marcou o início do ataque. Os bravos engenheiros abriam sucessivas brechas no complexo sistema de barreiras alemão e três batalhões manobraram para superar cada degrau do Monte Castelo, no clássico binômio fogo e movimento. Um ataque secundário de outro batalhão febiano conquistou Abetaia, proporcionando a segurança que faltava no flanco ocidental. Os pracinhas avançaram com destemor, determinação e impulsão. Por volta das18h00, colapsadas as defesas inimigas, Monte Castelo, enfim, era brasileiro!

As baixas registradas neste dia magistral excederam 100 combatentes. Os Serviços de Saúde e Assistência Religiosa da FEB, assim como os demais apoios logísticos, foram determinantes para o sucesso. A liderança militar, exercida em todos os níveis, somada à iniciativa, audácia, versatilidade, persistência, estoicismo e, sobretudo, coragem do expedicionário brasileiro, mais uma vez fizeram a diferença. Incontáveis atos de heroísmo foram observados no ciclo da conquista de Monte Castelo, merecendo relatos à parte. A saga do Soldado Sérgio, que resgatou com vida seu comandante de companhia gravemente ferido na linha de frente, é um emblemático exemplo.

Se coube ao 6º Regimento de Infantaria – Regimento Ipiranga o sucesso inicial no Vale do Serchio, a vitória em Monte Castelo é devida aos esforços sinérgicos do 1º Regimento de Infantaria – Regimento Sampaio, no esforço principal, e do 11º Regimento de Infantaria – Regimento Tiradentes, na ação secundária. O efeito psicológico da conquista eletrizou toda a cadeia de comado e a 1ª DIE, agora completa e testada nas agruras do combate, inspirava grande credibilidade. Com o espírito de corpo revigorado e o sentimento de pertencimento robustecido, a FEB avançaria rumo à superação de novos desafios.

De importância incontestável para a manobra do V Ex Camp, a conquista do Monte Castelo pôs à prova a capacidade combativa da FEB, além de proporcionar um momento ímpar de atuação conjunta de aviadores e soldados brasileiros no Teatro de Operações Mediterrâneo. Ao analisar cada ação febiana na campanha da Itália, em particular em Monte Castelo, reforça-se a crença na Instituição e se exalta a figura do soldado-cidadão brasileiro, virtuoso, ético e cultor dos perenes valores do invencível Exército de Caxias. E os pracinhas, por tudo que representam, serão heróis sempre lembrados.
 

Figura 1 - Pracinhas na defensiva de inferno.

 

Fonte: arquivo pessoal do Coronel de Infantaria QEMA Julio Cezar Fidalgo Zary.


 


 

Figura 2 – Patrulha febiana na “terra de ninguém”.

 

Fonte: arquivo pessoal do Coronel de Infantaria QEMA Julio Cezar Fidalgo Zary.


 

Figura 3 – Concentração de tropa febiana para o início do 5º ataque a Monte Castelo.

 

Fonte: arquivo pessoal do Coronel de Infantaria QEMA Julio Cezar Fidalgo Zary.


 

Figura 4 – Reconhecimentos na área de operações.

Figura 5 – Preparação para o 5º ataque.

 

 

 

 

Fonte: arquivo pessoal do Coronel de Infantaria QEMA Julio Cezar Fidalgo Zary.


 

Figura 6 – Observação de Monte Castelo.

 

Fonte: arquivo pessoal do Coronel de Infantaria QEMA Julio Cezar Fidalgo Zary.


 

Figura 7 – 1º Grupo de Caça – Jambock (Senta a Pua), que participou do 5º ataque a Monte Castelo.

Fonte: www.defesaaereanaval.com.br/aviacao/senta-a-pua-22-de-abril-dia-da-aviacao-de-caca?print=pdf


 

1 Decreto-Lei nº 9.786, de agosto de 1943.

2 A FEB se deslocou para a Itália em cinco escalões. O 1º Escalão de Embarque seguiu no navio “General Mann”. Os 2º e 3º Escalões, respectivamente, nos navios “General Mann” e “General Meigs”, ambos chegando em Nápoles em 6 de outubro de 1944. Os 4º e o 5º Escalões, com o “General Meigs”, aportaram em Nápoles, respectivamente, no dia 7 de dezembro de 1944 e em 22 de fevereiro de 1945.

3 Organização do Destacamento FEB: 6º Regimento de Infantaria; II Grupo de Obuses do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocado; 1ª Companhia do 9º Batalhão de Engenharia; 1ª Companhia de Evacuação e Pelotão de Tratamento do 1º Batalhão de Saúde; 2º Pelotão do Esquadrão de Reconhecimento; Pelotão de Polícia do Exército; Pelotão de Intendência; e Pelotão de Sepultamento. Também foram incorporadas duas subunidades norte-americanas, a saber: Companhia “C” do 751º Batalhão de Tanques Médios e Companhia “C” do 701º Batalhão de Destruidores de Tanques.

4 Devido à perda das posições defensivas no rio Arno, o exército alemão passou a executar, além da defesa de área, movimentos retrógrados (ações retardadoras, retraimentos com ou sem pressão e retiradas) ao longo dos principais eixos de penetração (rodovias e caminhos) para o norte da Itália.

5 O IV Corpo de Exército (IV C Ex), orgânico do V Exército de Campanha (V Ex Camp), era comandado pelo Tenente-General norte-americano Wills Dale Crittenberger (1890-1980).

6 Posição defensiva do Eixo, apoiada na cadeia montanhosa dos Apeninos, em muitas partes fortificada com concreto, que cortava horizontalmente a península italiana de costa a costa, com quase 300 Km de extensão.

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História

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