160 anos do Desembarque no Paraguai

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Sexta, 21 Agosto 2026
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O dia 16 de abril do corrente ano assinala o centésimo sexagésimo aniversário de um dos mais memoráveis feitos de armas da História Militar brasileira: o Desembarque no Paraguai, operação conjunta do Exército e da Marinha nacionais que iniciou a contraofensiva que levaria à vitória na Guerra da Tríplice Aliança.

Iniciada por Solano López em dezembro de 1864, a guerra declarada contra o Brasil, devido à intervenção do Império no Uruguai, logo englobou a Argentina e, por atração o Estado Oriental, firmando os três um tratado contra o ditador em 1º de maio de 1865.

O início do conflito foi marcado pela violenta ofensiva de López, que invadiu os dois primeiros países, sendo o Brasil violado em sua fronteira sudoeste e na região de Mato Grosso e a Argentina na província de Corrientes.

A maré virou depois da Batalha Naval de Riachuelo, quando a Marinha Brasileira destruiu o poder de combate de sua congênere paraguaia, dificultando a manutenção do que fora conquistado, implicando a Rendição de Uruguaiana e recuo das forças invasoras.

Em consequência, López estabeleceu seu QG na região de Passo da Pátria, às margens do rio Paraná, fronteira com a Argentina.

Em dezembro de 1865, os aliados atingiram a região e lá estabeleceram sua concentração estratégica, iniciando os reconhecimentos necessários ao desembarque em solo inimigo.

A questão mais relevante era a escolha do local de desembarque: o qual teria que ser ao mesmo tempo propício à manobra da Força de Desembarque e permitir o apoio da Força Naval.

Com esse escopo, foram buscadas alternativas. Até mesmo a possibilidade de uma travessia sobre ponte, à semelhança daquela realizada pelo Exército de Xerxes na 2ª Guerra Persa1, foi aventada pelo Tenente-Coronel José Carlos de Carvalho, chefe da Comissão de Engenheiros.

Os reconhecimentos inicialmente buscaram um ponto ao longo do rio Paraná, sendo feitos ao longo da linha Passo da Pátria-Itaiti, a partir de 21 de março de 1866.

Durante esse período, foi travada a famosa Guerra das Chatas entre a Esquadra Brasileira e as pequenas, mas letais embarcações paraguaias, geralmente ancoradas junto às margens, oportunidades em que se trocavam disparos entre os contendores, sob os olhos de quase 80 mil homens (50 mil aliados na margem esquerda e 30 mil paraguaios na direita).

Ao longo dos reconhecimentos, o Primeiro-Tenente Francisco José de Freitas, no comando da Canhoneira Ipiranga, verificou a existência de uma barranca, na margem esquerda do Rio Paraguai, abaixo de Atajo, próximo de sua embocadura com o rio Paraná, com margens firmes e espaço suficiente para abrigar 8 mil homens em cada vaga.2

Enquanto se faziam os reconhecimentos, efetuou-se a ocupação da Ilha da Redenção, em frente à principal fortificação paraguaia, o Forte Itapiru, tornando-a base de fogos sobre aquele.

No dia 14 de abril, reuniram-se os aliados para deliberar.

O General Mitre, representante da Argentina, o General Flores do Uruguai, o General Osorio e o Almirante Tamandaré do Brasil, decidiram-se pelo desembarque no rio Paraguai, designando-o para a manhã do dia 16, o sítio reconhecido pelo comandante da Ipiranga.

Escolhido o local e a data do desembarque, a próxima questão passou a ser a quem caberia a honra de pisar primeiro o solo inimigo.

O Presidente Mitre, comandante em chefe das tropas terrestres, pugnou por seu país, alegando que fora o primeiro a ser invadido.

O Presidente Flores, comandante das forças uruguaias, propôs que a vanguarda fosse constituída de um contingente combinado das três nações.

Tamandaré insistiu que caberia ao Império, detentor da Força Naval de Travessia, a prioridade.

O General Osorio mantinha-se silencioso e reservado até que indagado, respondeu que qualquer que fosse a Força do primeiro contingente do Exército Brasileiro que tivesse de desembarcar no Paraguai, ele a comandaria.

O destemor do velho cavalariano decidiu a questão para o Brasil.

Ao cair da noite do dia 15, iniciou-se o embarque da tropa, dividida em 3 escalões, contando com 20 embarcações. Pela madrugada, toda Força de Desembarque se encontrava em condições de emprego, permitindo que as palavras de Osorio, na sua Ordem do Dia, fossem transmitidas a todos:

Soldados! É fácil a missão de comandar homens livres; basta mostrar-lhes o caminho do dever”.

Ao amanhecer, a Força Naval, dividida em 3 grupos de ataque, iniciou o bombardeio das posições guaranis.

Às 08h30 min, os transportes suspenderam ferro das margens argentinas. O Exército Paraguaio cerrou fileiras esperando o desembarque em força.

Quando as embarcações atingiram o meio rio Paraná, subitamente guinaram águas abaixo, se dirigindo a todo vapor para a embocadura do Paraguai, escoltados por um dos grupos de ataque, desconcertando o Comando Paraguaio, causando a Surpresa Tática.

Eram cerca de 9 horas do dia 16 de abril, quando os vapores atracaram, iniciando o desembarque, tendo a frente o General Osorio, seu Estado-Maior e um contingente comandado por um jovem oficial alagoano, destinado a inscrever seu nome na história do Brasil: Manuel Deodoro da Fonseca.

Apoiada pelo fogo da esquadra, a tropa progrediu até entrar em contato com as linhas avançadas paraguaias, oportunidade em que se iniciou uma breve troca de tiros, logo seguida pela retirada dos defensores.

O terreno, logo se mostrou o grande adversário dos brasileiros: desconhecido, pela ausência de cartas topográficas da região, alagado, com muitos banhados, arenoso e cercado de bosques impenetráveis.

Com tudo isso e contra tudo isso, às 10 horas, a cabeça de praia já havia sido ocupada por cerca de 10 mil homens. No final do dia, chegaram as tropas argentinas e uruguaias.

No dia seguinte, o Forte Itapiru foi abandonado pelos paraguaios, sendo ocupado no dia 18, permitindo a abertura de nova área de desembarque.

Enquanto se desenvolvia a operação terrestre, a esquadra continuava o bombardeio ao acampamento de López.

Finalmente, reconhecendo a derrota, o inimigo retirou-se do Passo da Pátria em 23 de abril, deixando o local aos aliados, que nele se estabeleceram dois dias depois.

Iniciava-se a derrocada de Solano López.

REFERÊNCIAS

BORGES FORTES, Diogo. Passo da Pátria. A Defesa Nacional, [S. l.], v. 38, n. 441, 2021.

JACEGUAI, Artur. Reminiscências da Guerra do Paraguai. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2011.

ROSTY, Cláudio Skora. 150 anos do Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3 2016.

SILVEIRA, Luciano Rocha. Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3 2016.

1 Foram conflitos entre o Império Aquemênida e cidades-estado gregas, originados pela expansão persa sobre a Jônia.

2 ROSTY, Cláudio Skora. 150 anos do Combate da Ilha da Redenção. Revista do Exército Brasileiro, v 152.n.3 p. 43 2016.

 

CATEGORIAS:
História

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