Mentoria - ferramenta para formar líderes militares preparados para os desafios do presente e do futuro

Autores: 1º Sgt BCO Luiz Henrique Filadelfo Cardoso
Quarta, 25 Fevereiro 2026
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A constante evolução do cenário global — marcada pela volatilidade, imprevisibilidade, avanço de novas tecnologias e crescente complexidade das operações — tem exigido das Forças Armadas a presença de militares capazes de decidir com assertividade, agir com autonomia e liderar com maturidade. Nesse ambiente, a mentoria se consolida como uma ferramenta indispensável para potencializar o desenvolvimento humano e profissional, fortalecendo tanto o indivíduo quanto a organização.

Embora hoje seja amplamente aplicada no contexto corporativo e institucional, a mentoria tem raízes profundas na história e na filosofia. A palavra “mentor” surge na Grécia Antiga, especialmente no poema Odisseia, de Homero, no qual Mentor é o amigo de confiança encarregado por Ulisses de orientar Telêmaco em sua formação. Assim, desde sua origem, a mentoria se relaciona ao ato de transmitir sabedoria, formar o caráter e guiar o desenvolvimento de um aprendiz — princípios que dialogam diretamente com a educação militar. Na filosofia clássica, sobretudo no pensamento socrático, o processo de formação por meio do diálogo, da reflexão crítica e da relação mestre-discípulo reforça o caráter transformador desse método. Dessa forma, percebe-se que a mentoria reúne tradição histórica, reflexão filosófica e valor estratégico, atributos essenciais às instituições militares, cujo propósito envolve a formação contínua do espírito, da técnica e da liderança.

Na atualidade, mentoria é entendida como um processo estruturado de orientação em que um profissional experiente — o mentor — compartilha conhecimentos, vivências e percepções visando ajudar o mentorado a aprimorar suas competências e ampliar sua capacidade de atuação (Chiavenato, 2014; Kram, 1985). No meio militar, a aplicação desse método tem se mostrado especialmente valiosa para acelerar o amadurecimento de jovens oficiais e graduados, fortalecer o aprendizado técnico-organizacional e consolidar o espírito de corpo. Ao receber orientações diretas de alguém mais experiente, o militar-mentorado passa a compreender melhor os desafios da carreira, desenvolve maior preparo emocional para lidar com pressões típicas da atividade e aprimora habilidades comportamentais essenciais à liderança, como resiliência, pensamento crítico, comunicação e tomada de decisão (Brasil, 2011).

Outro ponto relevante é que a mentoria contribui para a preservação e transmissão do ethos militar. Muitas competências decisivas para o êxito na carreira — especialmente as de natureza tácita — dificilmente são encontradas em manuais. São saberes construídos ao longo de anos de serviço e que precisam ser compartilhados entre gerações. A mentoria, ao facilitar essa transmissão, não apenas fortalece competências técnicas, mas também reforça valores institucionais como disciplina, responsabilidade, espírito de equipe e compromisso com a missão.

Na prática cotidiana, observa-se que militares acompanhados por mentores demonstram maior clareza em seus objetivos profissionais e um senso mais profundo de pertencimento à Instituição. O mentor, por sua vez, também se beneficia: amplia sua visão de liderança, aperfeiçoa sua comunicação, fortalece sua capacidade de formar pessoas e contribui diretamente para a tão almejada excelência dos quadros militares (Brasil, 2011). Trata-se, portanto, de um ciclo virtuoso de aprendizado mútuo.

Para o militar que deseja tornar-se mentorado, o primeiro passo é reconhecer a importância do seu autodesenvolvimento e cultivar perene abertura ao aprendizado. Em seguida, recomenda-se identificar militares experientes cuja conduta profissional e pessoal representem referência e exemplos a serem seguidos. A aproximação deve ser espontânea e respeitosa, demonstrando interesse genuíno em aprender. O processo pode ocorrer informalmente — por meio de conversas eventuais ou regulares — ou de maneira formal, em programas institucionais. O essencial é compreender que a mentoria é uma via de mão dupla: exige humildade, disciplina, reflexão constante e aplicação prática das orientações quando pertinentes.

Assim, quando aplicada com intencionalidade e alinhada aos valores militares, a mentoria torna-se um instrumento poderoso para fortalecer o preparo individual e coletivo da tropa. A experiência dos mais antigos, somada à motivação dos mais jovens, cria uma sinergia capaz de elevar a qualidade da liderança e o cumprimento da missão. Em um contexto em que o Brasil demanda profissionais cada vez mais capacitados, resilientes e conscientes de seu papel, a mentoria no contexto militar não se apresenta apenas como uma boa prática de gestão de pessoas, mas como um diferencial estratégico para formar líderes prontos para conduzir em sua esfera de atuação, com maturidade e excelência, os interesses da Nação.

Referências

BRASIL. Ministério da Defesa. Manual de Liderança Militar. Brasília, 2011.
CHIAVENATO, I.
Gestão de Pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.
KRAM, K. E.
Mentoring at Work: Developmental Relationships in Organizational Life. Glenview: Scott, Foresman, 1985.

CATEGORIAS:
Recursos Humanos

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