Logística 5.0 e Supply Chain: da gênese militar à resiliência estratégica

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Segunda, 13 Julho 2026
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A Logística 5.0 representa a etapa mais recente de uma evolução cuja origem está na própria arte da guerra, na qual a sustentação das forças sempre foi condição para a manobra e para a vitória. Jomini (1838) descreveu a logística como a arte prática de mover exércitos, estabelecendo-a como elo entre estratégia e tática, enquanto Van Creveld (2004) sinalizou que o sucesso militar ao longo da história dependeu da capacidade de sustentar tropas, mobilidade e suprimentos no tempo e no espaço. Assim, a logística surge como fundamento estrutural do poder militar, e não como função meramente acessória.

Figura 1 - Logística como fundamento do poder militar

Fonte: O autor, adaptado de Jomini (1838) e Van Creveld (2004).

 

Com a consolidação das economias industriais, o conceito foi incorporado ao ambiente empresarial, preservando sua essência de coordenação de fluxos, mas voltado à eficiência organizacional. Ballou (2006) definiu a logística como o processo de planejar, implementar e controlar o fluxo e a armazenagem de bens e informações da origem ao consumo, ao passo que Bowersox, Closs e Cooper (2013) destacaram seu papel integrador no desempenho sistêmico das organizações. Essa transposição do campo militar para o corporativo manteve a lógica da sustentação, alterando apenas o ambiente de aplicação.

A evolução seguinte ocorre quando a análise deixa de se concentrar em funções isoladas e passa a considerar redes interdependentes de organizações, configurando o gerenciamento das cadeias de suprimentos (Supply Chain Management – SCM). Christopher (2016) entendeu a cadeia de suprimentos como uma rede conectada por fluxos de materiais, informações e recursos financeiros, enquanto Mentzer et al. (2001) enfatizaram a coordenação estratégica entre os elos para geração de valor coletivo. O foco desloca-se, assim, da eficiência local para a robustez sistêmica, em movimento conceitual análogo à transição das formações lineares para manobras combinadas na guerra moderna.

Figura 2 - Evolução da Logística ao Supply Chain Management

Fonte: O autor, adaptado de Christopher (2016) e Mentzer et al. (2001).

 

A digitalização ampliou a visibilidade das cadeias de suprimento a níveis comparáveis aos sistemas militares de Comando e Controle (C2), permitindo monitoramento em tempo real, análise preditiva e sincronização de operações distribuídas. Porter já indicava que a logística interna e externa são atividades primárias na geração de valor, premissa que se intensifica quando plataformas digitais passam a integrar dados, transporte e infraestrutura (Porter, 1985). A informação converte-se, assim, em multiplicadora de poder, reduzindo incertezas e ampliando a capacidade decisória.

Entretanto, a busca por eficiência máxima revelou vulnerabilidades críticas diante de rupturas recentes, como a pandemia de COVID-19, o bloqueio do Canal de Suez e a guerra na Ucrânia. Ivanov sustenta que cadeias excessivamente enxutas apresentam baixa tolerância a disrupções, defendendo a viabilidade e a resiliência como pilares da gestão de redes sob risco (Ivanov, 2023). Surge, nesse contexto, a Logística 5.0, que desloca o eixo da eficiência pura para a continuidade operacional em cenários de incerteza prolongada.

Figura 3 – Vulnerabilidades de cadeias enxutas sob disrupção sistêmica

Fonte: O autor, adaptado de Ivanov (2023).

 

Os gargalos logísticos globais evidenciam a relação entre cadeias de suprimento e poder estratégico, pois concentram fluxos vitais de energia, alimentos e tecnologia. Van Creveld demonstra que o controle das linhas de comunicação sempre foi decisivo na guerra, princípio que hoje se traduz na centralidade de estreitos marítimos, corredores logísticos e polos industriais críticos (Van Creveld, 2004). O domínio de rotas e infraestruturas estratégicas representa, portanto, continuidade histórica da lógica militar aplicada aos sistemas econômicos globais.

Figura 4 – Gargalos logísticos estratégicos globais

Fonte: O autor, adaptado de Van Creveld (2004).

Conflitos contemporâneos reforçam essa convergência entre logística e arte militar, evidenciando que a sustentação prolongada das operações depende da robustez das cadeias de suprimento. O conflito na Ucrânia expôs a importância de estoques, mobilização industrial e proteção de infraestruturas energéticas, enquanto organizações passaram a adotar estoques de segurança e relocalização produtiva para mitigar riscos sistêmicos, movimento alinhado à lógica de resiliência descrita na literatura de cadeias de suprimentos (Ivanov, 2023; Pettit et al., 2010). A resiliência logística torna-se, assim, condição para preservar liberdade de ação em ambientes de atrito elevado.

Figura 5 – Resiliência como estratégia de sobrevivência

Fonte: O autor, adaptado de Pettit et al. (2010).

 

A resiliência refere-se à capacidade de resistir, adaptar-se e recuperar-se de interrupções sem perda do funcionamento essencial, conceito desenvolvido por Pettit, Fiksel e Croxton ao analisarem cadeias sob risco sistêmico (Pettit et al., 2010). Essa lógica se aproxima do pensamento militar sobre atrito e incerteza, nos quais a manutenção do potencial de combate depende da sustentação sob pressão adversa, reforçando a convergência entre logística moderna e arte da guerra (Van Creveld, 2004). A Logística 5.0 consolida-se, portanto, como síntese entre tradição militar e inovação tecnológica no contexto das transformações associadas à chamada Indústria 5.0.

A trajetória histórica demonstra que o domínio dos fluxos sempre determinou a capacidade de decidir, seja no campo de batalha ou na economia global. De Roma às guerras industriais e às cadeias digitais contemporâneas, a sustentação logística condicionou a liberdade de ação, a duração das operações e a própria viabilidade do poder militar, confirmando que a vitória raramente pertence ao mais forte isoladamente, mas ao mais capaz de sustentar o esforço ao longo do tempo (Van Creveld, 2004). A logística, portanto, não apenas acompanha a estratégia — ela a torna possível.

Nesse cenário, a Logística 5.0 representa a atualização contemporânea dessa lógica histórica, ao deslocar o foco da eficiência isolada para a viabilidade sistêmica diante da volatilidade geopolítica e das disrupções globais (Ivanov, 2023; Christopher, 2016). Resiliência, visibilidade informacional e integração entre tecnologia e decisão humana tornam-se elementos centrais para preservar a continuidade operacional, seja em operações militares, seja na sustentação das estruturas produtivas nacionais. Compreender essa transição é reconhecer que a arte militar do século XXI também se expressa nas redes de suprimento que sustentam nações, Forças Armadas e sociedades, fazendo da logística não apenas um apoio, mas um dos principais vetores contemporâneos de expressão do poder estratégico.

Figura 6 – Logística 5.0: da gênese militar à resiliência estratégica

Fonte: O autor, com base em Jomini (1838), Van Creveld (2004), Christopher (2016) e Ivanov (2023).

 

Referências

Ballou, R. H. (2006). Gerenciamento da cadeia de suprimentos/logística empresarial (5ª ed.). Bookman.

Bowersox, D. J., Closs, D. J., & Cooper, M. B. (2013). Supply chain logistics management (4th ed.). McGraw-Hill.

Christopher, M. (2016). Logistics and supply chain management (5th ed.). Pearson.

Ivanov, D. (2023). The Industry 5.0 framework: viability-based integration of the resilience, sustainability, and human-centricity perspectives. International Journal of Production Research61(5), 1683-1695. https://doi.org/10.1080/00207543.2022.2118892

Jomini, A. H. (1838). The art of war. Legacy Reprints.

Mentzer, J. T., DeWitt, W., Keebler, J. S., Min, S., Nix, N. W., Smith, C. D., & Zacharia, Z. G. (2001). Defining supply chain management. Journal of Business Logistics. https://doi.org/10.1002/j.2158-1592.2001.tb00001.x

Pettit, T. J., Fiksel, J., & Croxton, K. L. (2010). Ensuring supply chain resilience: Development of a conceptual framework. Journal of Business Logistics. https://doi.org/10.1002/j.2158-1592.2010.tb00125.x

Porter, M.E. (1985) Competitive Advantage. Creating and Sustaining Superior Performance. Free Press, New York, 557 p.

Van Creveld, M. (2004). Supplying war: logistics from Wallenstein to Patton. Cambridge University Press.

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