Conflitos contemporâneos: ambiguidade, influência e domínio cognitivo na era híbrida

Autores: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Quarta, 01 Abril 2026
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A guerra mudou ao longo dos séculos. No século XXI, forças tradicionais convivem com ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e pressões econômicas. O objetivo não é apenas vencer militarmente. Busca-se produzir efeitos estratégicos sem declarar guerra formalmente (Hoffman, 2007; Bērziņš, 2020).

A primeira geração, nos séculos XVII e XVIII, foi marcada por linhas e colunas, disciplina rígida e mosquetes. Os exércitos napoleônicos exemplificam esse modelo (Howard, 1976). A segunda geração, do século XIX ao início do XX, trouxe trincheiras e artilharia. A Primeira Guerra Mundial, com Somme e Verdun, simboliza esse paradigma (Strachan, 2001). A terceira geração, em meados do século XX, consolidou a guerra de manobra. A blitzkrieg alemã e a Guerra dos Seis Dias mostram a importância da velocidade e da surpresa (Citino, 2004).

A quarta geração deslocou o foco para a guerra irregular. Vietnã, Afeganistão e guerrilhas na América Central são exemplos. A Colômbia viveu décadas de conflito com as FARC, mesmo após o acordo de paz de 2016. A Chechênia enfrentou duas guerras e insurgências até 2009 (Lind et al., 1989). A guerra híbrida, descrita por Hoffman (2007), combina meios convencionais e irregulares, terrorismo, criminalidade e operações cibernéticas. Casos como Geórgia (2008), Ucrânia (2014), Síria (desde 2011) e Líbia (desde 2014) ilustram essa ambiguidade (Mumford & Carlucci, 2022).

A quinta geração desloca o centro de gravidade para o domínio cognitivo. Segundo Bērziņš (2020), a guerra atual é travada na mente. Inteligência artificial, big data e manipulação algorítmica moldam percepções. A guerra Rússia–Ucrânia desde 2022 mostrou como campanhas digitais podem ser decisivas. Na América Latina e na África, entre 2010 e 2020, a desinformação em eleições tornou-se arma política. Qiao e Wang (1999) já haviam previsto que os conflitos futuros seriam irrestritos.


 

Figura 1 - Evolução das gerações de guerra

Fonte: elaborado pelo autor (2025).

 

A evolução das gerações de guerra pode ser observada não apenas na narrativa histórica, mas também nos recursos visuais que acompanham este artigo. A Figura 1 apresenta a progressão das gerações, enquanto o Quadro 1 organiza suas características e exemplos em diferentes regiões. Esses elementos reforçam a análise e permitem ao leitor visualizar como meios cinéticos e não cinéticos se combinaram ao longo do tempo.

 

Quadro 1 – Descrição dos conflitos de 1ª até a 5ª geração

Categoria / Geração

Descrição

Exemplos

Meios cinéticos

Uso direto da força militar, ataques físicos e destruição material

Verdun (1916), Normandia (1944), Kursk (1943), Stalingrado (1943) e outras batalhas

Meios não cinéticos

Ações informacionais, tecnológicas ou econômicas sem confronto físico direto

Fake news em eleições, ataque cibernético WannaCry (2017), sanções contra a Rússia

1ª geração (séculos XVII–XVIII)

Linhas e colunas, disciplina rígida, mosquetes

Guerras Napoleônicas (1803–1815); Guerra da Independência dos EUA (1775–1783)

2ª geração (séc. XIX – início XX)

Trincheiras, artilharia, guerra de desgaste

Primeira Guerra Mundial (1914–1918)

3ª geração (meados séc. XX)

Manobra rápida, blitzkrieg, descentralização tática

Segunda Guerra Mundial (1939-1945); Guerra da Coreia (1950-1953); Guerra dos Seis Dias (1967)

 

4ª geração (final séc. XX – início XXI)

 

Guerra irregular, insurgência, atores não estatais

Vietnã (1955–1975); Afeganistão (anos 1990–2021); guerrilhas na América Central (anos 1980); Colômbia (FARC até 2016 e dissidências posteriores); Chechênia (1994–2009)

Guerra híbrida (início séc. XXI)

Integração de meios cinéticos e não cinéticos sob ambiguidade

Ucrânia (2014); Geórgia (2008); Síria (desde 2011); Líbia (desde 2014); Iraque (2003–2017, insurgência e Estado Islâmico); Israel–Palestina (escaladas em Gaza)

5ª geração (séc. XXI – atualidade)

Predominância cognitiva, IA, big data, manipulação algorítmica

Guerra Rússia–Ucrânia (2022–); Nagorno-Karabakh (2020 e 2023, uso de drones); campanhas digitais na América Latina e África (anos 2010–2020)

Fonte: elaborado pelo autor (2025).

 

A análise das gerações da guerra e da ascensão da guerra híbrida mostra que os conflitos atuais não podem ser compreendidos apenas pela ótica militar. Eles atravessam fronteiras e envolvem múltiplas dimensões. Desde os anos 2000, o Cáucaso, o Oriente Médio, a Ásia e a América Latina tornaram-se laboratórios da guerra híbrida e cognitiva. A invasão da Geórgia em 2008, os combates em Nagorno-Karabakh em 2020 e 2023, a insurgência chechena até 2009, a guerra civil síria desde 2011, a insurgência iraquiana e a ascensão do Estado Islâmico, a guerra civil líbia desde 2014, os ciclos de violência no Sahel e no Tigré, além da persistência da guerrilha colombiana e da guerra contra os cartéis no México, demonstram que meios cinéticos e não cinéticos operam em sinergia.

A Figura 1 e o Quadro 1 sintetizam essa evolução, mostrando que a guerra contemporânea é menos sobre ocupar território e mais sobre ocupar mentes. Para países como o Brasil, compreender essa dinâmica é essencial para formular estratégias de defesa e segurança que considerem não apenas o campo militar, mas também os domínios informacional e psicológico. Quem dominar fluxos de informação e confiança pública terá vantagem decisiva.

 

REFERÊNCIAS

Bērziņš, J. (2020). The theory and practice of new generation warfare: The case of Ukraine and Syria. Journal of Slavic Military Studies, 33(3), 355–380. https://doi.org/10.1080/13518046.2020.1824109

Citino, R. M. (2004). Blitzkrieg to Desert Storm: The evolution of operational warfare. University Press of Kansas.
https://doi.org/10.2307/j.ctv2rsfd92

Hoffman, F. (2007). Conflict in the 21st century: The rise of hybrid wars. Potomac Institute for Policy Studies. https://potomacinstitute.org/images/stories/publications/potomac_hybridwar_0108.pdf

Howard, M. (1976). War in European history. Oxford University Press. https://ia800909.us.archive.org/28/items/in.ernet.dli.2015.117903/2015.117903.War-In-European-History_text.pdf

Lind, W. S., Nightengale, K., Schmitt, J. F., Sutton, J. W., & Wilson, G. I. (1989). The changing face of war: Into the fourth generation. Marine Corps Gazette, 73(10), 22–26. https://d-n-i.net/fcs/4th_gen_war_gazette.htm

Mumford, A., & Carlucci, P. (2022). Hybrid warfare: The continuation of ambiguity by other means. European Journal of International Security, 8(2), 192–206. https://doi.org/10.1017/eis.2022.19

Qiao, L., & Wang, X. (1999). Unrestricted warfare. PLA Literature and Arts Publishing House. https://www.c4i.org/unrestricted.pdf

Strachan, H. (2001). The First World War. Oxford University Press.

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Ciência e Tecnologia

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Artigo excelente 👏, muito bom 

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