A reflexão geoestratégica moderna consolidou-se a partir da compreensão do espaço como variável estruturante do poder, conforme indicam as formulações clássicas de Halford Mackinder, Alfred Thayer Mahan e Nicholas Spykman (MACKINDER, 1904; MAHAN, 1890; SPYKMAN, 1942). A recepção dessas matrizes no Brasil, entretanto, exigiu adaptação às especificidades territoriais, históricas e políticas do País. A dimensão continental, a posição atlântica e a presença de extensas fronteiras interiores impuseram desafios distintos daqueles enfrentados pelas potências marítimas ou euro-asiáticas, circunstância que estimulou o desenvolvimento de leituras próprias acerca da relação entre território, segurança e desenvolvimento (COSTA, 2008).
Nesse processo, três oficiais-generais oriundos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) assumiram papel estruturante na consolidação de uma tradição geoestratégica nacional: Mário Travassos, Carlos de Meira Mattos e Golbery do Couto e Silva. Suas contribuições não representam formulações isoladas, mas momentos sucessivos de ampliação conceitual, nos quais a leitura do espaço continental evolui para a consolidação territorial interna e, posteriormente, para a organização sistêmica da segurança nacional (TRAVASSOS, 1935; MATTOS, 1975; SILVA, 1967).
A obra de Travassos constitui um dos primeiros esforços sistemáticos de interpretar o território sul-americano sob perspectiva vinculada aos interesses estratégicos do Brasil (TRAVASSOS, 1935). Ao analisar os eixos de circulação e as ligações interoceânicas, deslocou o olhar estratégico do litoral para o interior continental, enfatizando que a integração espacial constitui fundamento da projeção regional. Sua leitura sugere que a centralidade brasileira no continente derivaria não apenas da extensão territorial, mas da capacidade de estruturar fluxos e conexões, transformando geografia em instrumento de coordenação política (MELLO, 1999). A segurança, nesse contexto, associa-se à organização do território e à construção de coesão interna, antecipando debates posteriores sobre presença estatal e consolidação das fronteiras (COSTA, 2008).
Figura 1 – Antagonismo geográfico sul-americano segundo Travassos
Fonte: Travassos (1935).
Carlos de Meira Mattos aprofunda essa matriz ao transferir o foco da projeção continental para a consolidação estratégica da Amazônia, entendida como núcleo sensível da soberania nacional (MATTOS, 1975). Ao enfatizar infraestrutura, ocupação planejada e presença institucional como instrumentos de estabilidade e integridade territorial, o autor interpreta a região não como periferia, mas como eixo estruturante do poder brasileiro. A integração assume, assim, dimensão simultaneamente defensiva e desenvolvimentista, na qual segurança e presença estatal tornam-se indissociáveis (MATTOS, 1980). A geoestratégia brasileira passa a concentrar-se menos na projeção imediata e mais na solidez de suas bases territoriais.
Figura 2 – Áreas de intercâmbio fronteiriço ou áreas fronteiriças de irradiação
Fonte: Mattos (1980).
Golbery do Couto e Silva amplia o escopo da reflexão ao incorporar variáveis políticas, econômicas e psicossociais à análise estratégica (SILVA, 1967). Ao conceber o Estado como sistema no qual segurança e desenvolvimento se interdependem, desloca o debate da centralidade exclusiva do espaço para a coordenação do poder nacional. O território permanece elemento fundamental, mas inserido em estrutura mais ampla que envolve planejamento, coesão institucional e capacidade organizacional (SILVA, 1981). A defesa deixa de ser compreendida apenas como reação a ameaças externas e passa a integrar um projeto abrangente de organização interna do Estado.
Figura 3 – Manobra de integração do território nacional
Fonte: Adaptado de Silva (1981).
A trajetória que conecta Travassos, Meira Mattos e Golbery revela movimento progressivo de ampliação e complexidade. Parte-se de uma leitura continental do espaço sul-americano, passa-se à consolidação estratégica da Amazônia e culmina-se na formulação sistêmica da segurança nacional (TRAVASSOS, 1935; MATTOS, 1975; SILVA, 1967). Esse percurso demonstra que a tradição brasileira não reproduziu mecanicamente matrizes estrangeiras, mas as reinterpretou à luz de suas especificidades territoriais e históricas (COSTA, 2008). A dimensão continental do País, a centralidade amazônica e a necessidade de integração nacional moldaram uma reflexão própria, ancorada na relação entre espaço, poder e organização estatal.
A dimensão continental do País, a centralidade amazônica e a necessidade de integração nacional moldaram, assim, uma tradição própria de geoestratégia, ancorada na articulação entre espaço, poder e organização estatal. Compreender essa linha de continuidade não constitui apenas exercício historiográfico, mas condição para refletir sobre os desafios contemporâneos de defesa, soberania e projeção nacional. A autonomia estratégica depende, em última instância, da capacidade de estruturar o território, coordenar instituições e integrar desenvolvimento e segurança em um projeto coerente de Estado, reafirmando que a herança intelectual dos três veteranos da Força Expedicionária Brasileira permanece atual como fundamento da estabilidade e da capacidade de ação do Brasil no cenário regional e internacional.
Referências
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia política e geopolítica: discursos sobre o território e o poder. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.
MACKINDER, Halford J. The geographical pivot of history. The Geographical Journal, Londres, v. 23, n. 4, p. 421–437, 1904.
MAHAN, Alfred Thayer. The influence of sea power upon history, 1660–1783. Boston: Little, Brown and Company, 1890.
MATTOS, Carlos de Meira. Geopolítica e destino. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1975.
MATTOS, Carlos de Meira. Uma geopolítica pan-amazônica. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980.
MELLO, Leonel Itaussu Almeida. A geopolítica do Brasil e a Bacia do Prata. São Paulo: Hucitec, 1999.
SILVA, Golbery do Couto e. Geopolítica do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura política nacional: o poder executivo e geopolítica do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
SPYKMAN, Nicholas J. America’s strategy in world politics: the United States and the balance of power. New York: Harcourt, Brace and Company, 1942.
TRAVASSOS, Mário. Projeção continental do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1935.
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