O PACIFICADOR DO SÉCULO XX: 165 ANOS DO NASCIMENTO DO MARECHAL SETEMBRINO DE CARVALHO

Autor: Coronel R1 Carlos Mário de Souza Santos Rosa
Segunda, 14 Setembro 2026
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O dia 13 de setembro do corrente ano assinala uma importante efeméride do Exército Brasileiro: os 165 anos de nascimento do Marechal Setembrino de Carvalho, um dos mais distintos chefes militares da República Velha.

Nascido em Uruguaiana (RS), no ano de 1861, filho único do professor, funcionário público e comerciante, Fernando Vieira de Carvalho e da dona de casa Felicidade Ferreira de Carvalho, Fernando Setembrino de Carvalho iniciou seus estudos com seu pai.

Quando tinha 14 anos, se transferiu para Pelotas, matriculando-se no Colégio Reis. No ano seguinte, foi para Porto Alegre estudar no Colégio Sousa Lobo.

Aos 16 anos, no dia 20 de outubro de 1877, sentou praça no 12º Batalhão de Infantaria. No ano seguinte, matriculou-se na Escola Tática e de Tiro de Rio Pardo, embrião da atual Escola Preparatória de Cadetes do Exército, onde se formou alferes-aluno quatro anos depois, com o curso das três armas.

Em 1883, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, formando-se no ano seguinte, engenheiro militar e bacharel em matemática e ciências físicas.

Após a conclusão do curso, foi designado para Ala-Esquerda do Batalhão de Engenharia, o único existente no Exército, localizada em Cachoeira do Sul, incumbida de construir quartéis e fortificações no Rio Grande do Sul, na qual serviu por apenas alguns meses.

Originário da Arma de Artilharia, foi requisitado para o 1º Regimento de Artilharia a Cavalo em São Gabriel (RS).

Em 22 de janeiro de 1887, contraiu matrimônio com a Srta. Leontina Vilela, com quem teve 8 filhos e um casamento que durou até a morte.

Transferido para o Comando da Guarnição e Fronteira de Uruguaiana, assistiu, na condição de 1º tenente, à Proclamação da República, sendo promovido a capitão em maio do ano seguinte e nomeado membro da Comissão de Engenheiros do Rio Grande do Sul.

Nessa função, solicitou e obteve afastamento das fileiras do Exército, oportunidade em que concorreu e se elegeu na Assembleia Constituinte do seu estado natal, participando da elaboração da primeira Constituição republicana do Rio Grande do Sul.

As agitações decorrentes do Governo Deodoro o tornaram desgostoso com a política, fazendo com que retornasse à Vida Castrense como engenheiro do 6º Distrito de Obras Militares.

Com a eclosão da Revolução Federalista1, recebeu o comando de um batalhão de infantaria, “Defensores da República”, organizado para defender sua cidade natal.

Com o fim do conflito em 1895, retornou aos trabalhos de engenharia.

Em dezembro de 1900, atingiu o oficialato superior, sendo nomeado Fiscal (subcomandante) do recém-criado 2º Batalhão de Engenharia (2º BE) estacionado em Rio Pardo.

Por sugestão sua, a Unidade foi encarregada de construir a estrada de ferro Porto Alegre-Uruguaiana, sendo, a partir de então, empregada na construção de outros ramais e linhas telegráficas no RGS.

Promovido a tenente-coronel em 1906, assumiu o comando, primeiro interinamente, depois como efetivo, permanecendo à frente do batalhão até 1910, quando, por ocasião de uma visita do então Ministro da Guerra Marechal Hermes da Fonseca, que impressionado com a condução da Organização Militar, convidou seu comandante para vir prestar seus serviços na Capital da República.

Com a eleição de Hermes da Fonseca para presidência do Brasil, assumiu, em 15 de novembro de 1911, a chefia de gabinete do ministro da Guerra, general Antônio Adolfo da Fontoura Mena Barreto.

Começava sua carreira na Alta Administração da Força.

Promovido a coronel ainda em novembro, a despeito da troca de ministro ocorrida em 30 de março do ano seguinte, permaneceu na chefia do gabinete.

Como consequência da “Política de Salvações”, 2implementada por Hermes da Fonseca, surgiu no Ceará, em 1913, a Sedição de Juazeiro, um movimento armado contra o governador imposto, Marcos Franco Rabelo. Esse evento reuniu chefes políticos da região do vale do Cariri, o líder religioso padre Cícero Romão Batista e seus seguidores.

Diante do fracasso das duas missões enviadas chefiadas pelos generais Carlos Frederico de Mesquita e Lino de Oliveira Ramos, o governo federal decidiu nomear o chefe do gabinete do ministro da guerra como interventor federal.

Setembrino começava sua obra de pacificação.

Governou o estado entre 15 de março a 24 de junho de 1914, tendo sido promovido a general em abril.

Aproveitando-se de sua experiência política, conseguiu apaziguar Padre Cícero e seus seguidores, realizar novas eleições e fazer a entrega do poder aos eleitos.

De volta ao Rio de Janeiro, após um breve período de descanso, foi encarregado de uma nova missão: o Contestado.

Desde 1910, a região localizada entre os estados de Santa Catarina e Paraná encontrava-se em ebulição com movimentos messiânicos, galvanizando a atenção da população mais pobre até que, a partir de 1912, sob o comando de José Maria de Agostinho, foi organizado um pequeno exército que se tornou alvo da desconfiança dos governos dos dois estados, levando ao confronto em 22 de outubro daquele ano, na chamada Batalha do Irani.

O novel general foi nomeado comandante da 11º Região de Inspeção Permanente do Exército que englobava a Área de Operações em setembro de 1914.

De início, tentou parlamentar com os rebeldes, mas diante da recusa, lançou mão da força, utilizando, pela primeira vez em território brasileiro, aviação militar.

Ao cabo de 15 meses, cercou e desbaratou as forças insurgentes, tendo sob seu comando cerca de 7 mil homens, atuando em cerca de 20 mil km², nos dois estados.

De volta à capital, foi nomeado inspetor dos Serviços Administrativos do Exército (decreto de 23 de junho de 1915), sendo eleito no ano seguinte, pela primeira vez, presidente do Clube Militar.

Promovido a general de divisão em 1918, recebeu o comando da então 2ª Divisão do Exército, com sede em Niterói.

No ano seguinte, assumiu o comando da 4ª Região Militar em Juiz de Fora, onde permaneceu até 5 de julho de 1922, quando foi nomeado chefe do Estado-Maior do Exército, justamente no dia em que eclodia a Revolta da Escola Militar do Realengo e do Forte de Copacabana.

Sua atuação firme e decidida angariou a confiança do então presidente eleito, Artur Bernardes que o nomeou seu Ministro da Guerra em novembro daquele ano.

Em 1923, inconformada com mais uma reeleição de Borges de Medeiros ao governo do Rio Grande do Sul, a oposição, composta de federalistas e democratas se levantou em um conflito armado.

Mais uma vez, Setembrino foi chamado para trazer a paz.

Chegado ao Rio Grande em outubro, dois meses depois, conseguia reunir as partes conflitantes na estância do diplomata Joaquim Francisco de Assis Brasil em Pedras Altas, onde foi acordado o Pacto de Pedras Altas.

Promovido a Marechal em abril do ano seguinte, Setembrino teve de enfrentar mais um movimento sedicioso, agora em São Paulo, quando uma grande parte da cidade ficou sob o governo rebelde: a Revolta Tenentista de 1924.

Como fizera anteriormente, buscou entendimento com os rebelados, dirigindo-lhes dois apelos: o manifesto Ao povo de São Paulo, no dia 11, no qual pedia a volta à ordem e, no dia 18, o manifesto Camaradas, dirigido às praças envolvidas na revolta, prometendo-lhes anistia em caso de deposição das armas.

No dia 28 de julho, os rebelados abandoaram a cidade.

Com o término do governo de Bernardes, passou à reserva, fixando residência na capital, onde veio a falecer no dia 24 de maio de 1947, aos 85 anos de idade.

Legalista, probo, dedicado ao cumprimento do dever, deixou como legado o enfrentamento de cinco movimentos sediciosos e a pacificação de três, cabendo-lhe, com justiça, o título de Pacificador do Século XX, em referência ao trabalho realizado por Caxias no século anterior.

REFERÊNCIAS

BENTO, Cláudio Moreira. Marechal Fernando Setembrino de Carvalho - o Pacificador da Revolta do Contestado 1912/16 - perfil militar. O Tuiuti. Porto Alegre, n.46, p1-9, março, 2013.

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL Fundo Setembrino de Carvalho Juazeiro, 27.04.1914, doc. 140424/1. Rio de Janeiro.

CIDADE, Francisco de Paula. Síntese de Três Séculos de Literatura Militar Brasileira. 2ª Edição. Rio de Janeiro. BIBLIEx.1998.

1 A Revolução Federalista (1893-1895) foi uma violenta guerra civil que eclodiu no Rio Grande do Sul e se espalhou por Santa Catarina e Paraná

2 A Política das Salvações foi uma série de intervenções federais promovidas pelo presidente Marechal Hermes da Fonseca entre 1910 e 1914. O objetivo era retirar do poder as oligarquias estaduais tradicionais e substituí-las por militares ou políticos alinhados ao governo central, centralizando o poder

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História

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