O mundo está PSIC. Estará também MAD? (parte 1)

Autor: Maj Lion
Segunda, 21 Setembro 2026
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Segundo o Manual de Operações do Exército Brasileiro, a Força considera a influência de três dimensões no espaço de tomada de decisões: informacional, física e humana (Brasil, 2025). A dimensão física envolve elementos como geografia e equipamentos, que afetam diretamente a atuação humana no terreno. Por sua vez, a dimensão humana abrange as interações entre indivíduos e grupos, influenciadas por fatores psicossociais, políticos, econômicos e compreendendo, entre outros, a cultura da sociedade e suas crenças. Já a dimensão informacional engloba as informações e os sistemas usados para obter, produzir, difundir e atuar sobre elas, conectando as dimensões física e humana.

A respeito da dimensão informacional, o General de Exército Richard Fernandez Nunes publicou, em 2022, um influente artigo no blog do Exército Brasileiro, no qual propõe um novo acrônimo para se juntar ao BANI – frágil (brittle), ansioso, não linear e incompreensível – e VUCA – volátil, incerto (uncertain), complexo e ambíguo: PSIC, que expressa a prevalência da precipitação, superficialidade, imediatismo e conturbação (Nunes, 2022).

Como visto, a informacional não é a única dimensão que compõe o ambiente, existindo espaço, portanto, para realizar reflexões similares às feitas pelo Gen Richard para as demais. Nesse sentido, cabe perguntar: se as características PSIC impactam a dimensão informacional, o que se pode dizer a respeito da dimensão humana? A proposta deste ensaio, nesse contexto, é apresentar para debate considerações sobre as características atuais da dimensão humana que afetam a prosperidade de grupos de todos os portes, desde agremiações até nações.

A reflexão e a observação crítica apontam a existência de três aspectos da dimensão humana que formam um triângulo da improsperidade, um ciclo de desagregação que chamamos de MAD: mediocridade, ausência de visão coletiva e desonestidade.

1. Cultura de mediocridade

A cultura de mediocridade nada mais é do que a aceitação do mal feito. Quando ela prospera, invertem-se os valores, passando-se a ridicularizar aquele que se esforça para fazer o melhor, ao passo em que se vangloria aquele que atinge objetivos com o menor esforço e o mínimo de desempenho. Quantas vezes nos deparamos com profissionais técnicos, tal qual os que fazem ligações elétricas ou hidráulicas, que não tomam os cuidados mínimos como calcular as capacidades dos materiais utilizados frente às demandas estimadas, concluindo seus serviços sem se importar com o funcionamento efetivo de sua obra? E quantas vezes observamos o desprezo aos melhores resultados de alunos ou funcionários em escolas ou empresas, sejam públicas ou privadas, negando-se a reconhecer os desempenhos mais elevados em prol de uma pretensa e mal orientada valorização da equidade? Estas são demonstrações diárias do espírito de mediocridade que, uma vez tomando conta do ideário de uma sociedade, levam os indivíduos a desistirem de fazer o esforço adicional necessário para alcançar feitos grandiosos.

2. Ausência de visão coletiva (individualismo e falta de espírito comunitário)

A ausência de visão coletiva tem como ponto de partida o individualismo. Este é uma mistura de hedonismo e egoísmo, e se revela quando apenas o próprio bem individual é o guia das ações. Um exemplo prosaico do individualismo na prática diária ocorre quando, ao encontrar uma fila de carros no trânsito, o motorista os ultrapassa pelo acostamento e retorna à via em uma posição mais avançada, diminuindo seu tempo parado mas aumentando o dos motoristas que ele ultrapassou. Fica clara a ideia de que o sujeito individualista se considera mais importante que os demais, não dando importância ao tempo e conforto dos seus semelhantes. Por isso, não se sente constrangido ao obter vantagens sobre outros. A ausência de visão coletiva se expande, ainda, do individualismo para a falta de espírito comunitário. O espírito comunitário representa não apenas a passividade de não fazer o mal, e sim a atividade de realizar o bem para o grupo ao qual pertence. Exemplos corriqueiros são a manutenção de praças ou mesmo de canteiros em calçadas, a fim de tornar os ambientes públicos mais aprazíveis para todos. Também o são a realização de serviços voluntários, como a participação em brigadas de combate a incêndio, ou mesmo como treinador de equipes esportivas locais de jovens. Essas atitudes, como muitas outras, denotam o ideal de progresso coletivo, fazendo com que se multipliquem as oportunidades para as coisas funcionarem e amplificando o efeito benéfico de cada ação individual. A ausência de visão coletiva leva, por meio do individualismo e da falta de espírito comunitário, ao descaso com os bens comuns, contribuindo para que aconteça a degradação explicada na teoria das janelas partidas. Como demonstrado no famoso experimento dessa teoria, uma vez que as pessoas identificam algo como abandonado, a propensão é que sua destruição ocorra de forma rápida; por outro lado, se algo está cuidado, a tendência é que permaneça cuidado por maior tempo (Wilson; Kelling, 1982). A visão coletiva faz com que os bens comuns de uma sociedade permaneçam cuidados por mais tempo, ao passo que, na sua ausência, a deterioração inicial causada pela falta de atenção para com eles causa um efeito em cadeia que dificulta a evolução material – e mesmo psicossocial – da comunidade.

3. Desonestidade (mentira e corrupção)

A desonestidade é entendida, neste ensaio, em um amplo espectro, tanto aquela ligada a pequenas mentiras cotidianas, perniciosas que são, como a que leva à corrupção em todos os níveis. Essa corrupção, por sua vez, não é somente a que gera desvios milionários de verbas públicas, que atraem a atenção da mídia, mas também a das pequenas atitudes, caracterizadas pela utilização de subterfúgios para obter vantagens indevidas. Ou seja, é a desonestidade que opera do pequeno jeitinho à macro corrupção. Ela é demonstrada por aquelas pessoas responsáveis por distribuir donativos e que separam para si as melhores partes. Também por quem usa meios ilícitos – “cola” – em provas para melhorar seus resultados. Ou, ainda, por quem omite ou distorce informações para pegar menos impostos do que o previsto em lei. Em meio a uma lista que é extensa, esses são alguns exemplos comuns da desonestidade comezinha que mina a correta aplicação dos recursos de toda ordem, sejam públicos, sejam privados.

Esses três tipos de atitude, que caracterizam uma sociedade MAD em sua dimensão humana, corroem, encadeada e colaborativamente, as possibilidades de desenvolvimento da comunidade. A forma como isso ocorre será abordada em um próximo ensaio.

REFERÊNCIAS

BRASIL. MINISTÉRIO DA DEFESA. EXÉRCITO BRASILEIRO. COMANDO DE OPERAÇÕES TERRESTRES. MC 3.0: Manual de Campanha Operações. 6ª Ed. 2025.

NUNES, Richard Fernandez. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército. Blog do Exército Brasileiro. 2022. Disponível em: < https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito?p_l_back_url=%2Fsearch%3FcFilter%3D258981%26q%3Dpsic&p_l_back_url_title=Search>. Acesso em: 06 OUT 2025.

WILSON, James Q.; KELLING, George L. Broken windows. The Atlantic Monthly. 1982.

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