Antes das “Smoking snakes”: Lições aprendidas na I Guerra

Autor: S Ten Julio Cezar Rodrigues Eloi
Sexta, 07 Agosto 2026
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A vitória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos campos da Itália em 1945 é o marco mais celebrado da nossa história militar recente. Contudo, as raízes de Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Collecchio-Fornovo mergulham nos eventos de 1914-1918. Nessa ótica, entende-se que a Primeira Guerra Mundial (I GM) foi um laboratório de lições aprendidas que permitiu ao Brasil obter uma instituição de defesa moderna.

Anteriormente ao conflito mundial, o Brasil já experimentava ensaios de modernização e graves crises institucionais. Enquanto a Força Pública de São Paulo (atual Polícia Militar do Estado de São Paulo - PMESP) já havia contratado uma missão militar francesa em 1906 (Rosemberg, 2011), o Exército Brasileiro (EB) lidava com o desgaste do Contestado, de 1912 a 1916, ao passo que a Marinha do Brasil (MB) analisava os resultados da Revolta da Chibata, de 1910.

Esse cenário de conflitos internos evidenciou a urgência de uma reforma profunda, que já dava seus primeiros passos com a criação embrionária das aviações Militar e Naval (Lavanére-Wanderley, 1975). A MB criou sua Escola de Aviação em 1919, na Ilha das Enxadas, enquanto o EB organizou sua congênere em 1919, no Campo dos Afonsos. Daróz (2018) explica ainda que os pioneiros foram os Tenentes Jorge Henrique Moller (MB), brevetado em 1911, de forma que Ricardo Kirk (EB) recebeu seu brevê em 1912.

O ingresso do Brasil na Grande Guerra, em 1917, acelerou o desmonte do sistema de milícias estaduais. O exemplo mais contundente foi o destino da Guarda Nacional que, subordinada ao Ministério da Guerra em 1918, teve sua extinção encaminhada para dar lugar ao Serviço Militar Obrigatório. Como analisa Carvalho (2005), o conflito forçou o Estado a buscar o monopólio da força e a centralização federal, transformando o Exército em uma instituição profissionalizada e superando o modelo oligárquico vigente desde o Império.

Figura 1 - A centralização da Força Terrestre

Fonte: O autor (2026).

Nessa conjuntura de transformação, a figura do então Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque é central. Integrado ao 4º Regimento de Dragões franceses, Pessoa foi o 1º oficial brasileiro a se especializar em carros de combate (blindados Renault FT-17) em operações reais (Bento, 2020). Certamente essa experiência tática no front europeu foi o catalisador que permitiu ao Marechal, anos depois, projetar a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e instituir os blindados no Brasil sob padrões internacionais.

Figura 2 – Blindado Renault FT-17

Fonte: Bento (2020).

Diferentemente da Segunda Guerra Mundial (II GM), o conflito de 1917 encontrou um Brasil em plena integração de seus imigrantes. O verde-oliva uniu filhos de portugueses, espanhóis, italianos (oriundi) e japoneses (nikkeis) em causa comum. E fora das nossas fileiras, há o exemplo de Oscar Lennox McMacking, o primeiro brasileiro "Ás" de todos os tempos, com seis vitórias na britânica Royal Flying Corps – RFC, falecido em combate em 11 de setembro de 1917 (Baumgartner, 2018). Essa união provou o amálgama brasileiro, consolidando a coesão social para a futura mobilização da FEB (McCann, 2007).

Figura 3 - Oscar McMacking, o primeiro “Ás” brasileiro

Fonte: https://theaerodrome.com/aces/england/mcmaking.php

O conflito marcou que o exílio não impediu que integrantes da família imperial, como Dom Antônio Gastão e Dom Luiz Maria de Orléans e Bragança, servissem voluntariamente em frentes aliadas (Kapa, 2014). Para Bittencourt (2006), essa "diplomacia de sangue" dos príncipes reafirmou o compromisso brasileiro com a segurança do Atlântico e a interoperabilidade aérea. Além da situação da família imperial no exílio, vale ressaltar que o Brasil enviou uma importante Missão Médica Militar (Filho, 2021).

Essa missão, criada pelo Decreto nº 13.092, de 10 de julho de 1918, foi integrada por médicos, farmacêuticos, pessoal de secretaria e intendência e por trinta e uma praças do EB, tendo atuado na Europa até fevereiro de 1919 (Filho, 2021). A Missão Médica Especial brasileira foi enviada à França em 16 de agosto de 1918 para operar um hospital temporário de apoio em saúde aos aliados (da Silva, 2014). Pelo sucesso dos profissionais de saúde brasileiros em Paris, vários médicos foram galardoados com a Legião de Honra.

Figura 4 - Foto oficial da Missão Médica com o Pres. Wenceslau Brás ao centro

Fonte: da Silva (2014).

A MB desempenhou ativamente seu papel de patrulhar nosso extenso litoral e emprestou à marinha aliada considerável número de barcos capturados aos alemães em nossos portos (Daróz, 2016). Nesse contexto, foi organizada uma Divisão Naval de Operações em Guerra (DNOG) composta por dois cruzadores, quatro contratorpedeiros, um tênder e um rebocador, com cerca de 1.500 homens.

A missão incluía o patrulhamento da área compreendida entre o Senegal, o Arquipélago de Cabo Verde e o Estreito de Gibraltar, relevante para o abastecimento dos Aliados e infestada por submarinos alemães (Daróz, 2016). Infelizmente, a DNOG, como única divisão naval latino-americana atuante na I GM, foi severamente acometida pelo surto da gripe espanhola (de Almeida et al., 2013).

Tabela 1 – Número de mortes pela influenza espanhola na DNOG

Postos

Mortes pela gripe espanhola

Mortes totais (espanhola e outras causas)

Total de tripulantes

Oficiais

10 (6,8%)

10 (6,8%)

146

Marinheiros

85 (7,7%)

106 (9,6%)

1.107

Foguistas

30 (10,8%)

41 (14,7%)

278

Total

125 (8,2%)

157 (10,2%)

1.531

Fonte: de Almeida et al. (2013).

Além das atuações da Missão Médica e da DNOG, e particularidades de José Pessoa, Oscar McMacking, e dos príncipes imperiais, há desconhecimento da “Missão Militar Brasileira à França”, que atuou no front francês e belga, em 1918 (Araújo, 2022). Junto a José Pessoa, evidenciaram-se nesse encargo, o Capitão Médico Ferreira, elogiado por bravura, o Tenente Cristóvão Barcellos e o Capitão Potiguara, de cuja maioria das ações ocorreram na “Ofensiva dos Cem Dias”, de 8 de agosto a 11 de novembro de 1918.

De acordo com Araújo (2022), o desempenho desses oficiais contribuiu para a aquisição de experiência considerável, e por conclusão permitiu a adoção de um padrão militar que seria aperfeiçoado após a contratação de uma Missão Militar Francesa em 1919. Cabe assinalar que os ensinamentos dessa missão reformariam o EB ao longo de vinte anos, ou seja, até as vésperas da II GM.

Ademais, a participação brasileira também foi marcada pelo heroísmo individual em solo europeu. Tertuliano Potiguara serviu como observador em Saint-Quentin, onde foi ferido em combate, trazendo lições vitais sobre a infantaria moderna. Essas experiências foram sistematizadas com a contratação da Missão Militar Francesa de 1919 para o Exército, que reorganizou o ensino militar e a tática de tropa (McCann, 2007).

Figura 5- Sistematizando o aprendizado: 1919

Fonte: O autor (2026), com base em McCann (2007).


 

As “smoking snakes” (cobras fumantes), pracinhas da FEB, puderam cumprir sua missão na Itália porque em 1918, o Brasil já havia colhido lições necessárias sobre a modernização da guerra. A I GM foi o ensaio indispensável para o sucesso da FEB e o marco de inserção do Brasil no cenário global. Honrar os pioneiros de 1918 é reconhecer que a eficácia do EB é fruto de um processo contínuo de aprendizado e adaptação estratégica às realidades do conflito.

Figura 6 – Legado para as “smoking snakes” de 1944 e 1945 (pracinhas da FEB)

Fonte: O autor (2026).

Referências

Araújo, J. S. D. (2022). A “Missão Militar Brasileira à França” nos Combates da Frente Ocidental (1918). Secuencia, (112). https://doi.org/10.18234/secuencia.v0i112.1908

Baumgartner, A. S. (2018). Dois pilotos brasileiros que voaram na 1ª e 2ª Guerra Mundial são condecorados, postumamente, com a Ordem Mérito Aeronáutico. https://abra-pc.com.br/index.php/noticias/857-dois-pilotos-brasileiros-que-voaram-na-1-guerra-mundial-sao-condecorados-postumamente-com-a-oma.html

Bento, C. M. (2020). Marechal José Pessoa: os seus méritos na fundação de Brasília e os valores de sua modelar carreira no Exército. Resende: Academia de História Militar Terrestre do Brasil.

Bittencourt, A. S. (2006). A Marinha e a Grande Guerra. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha.

Carvalho, J. M. (2005). Forças Armadas e Política no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

Daróz, C. R. C. (2016). O Brasil na Primeira Guerra Mundial: a longa travessia. São Paulo: Contexto.

Daróz, C. R. C. (2018). Voando na Grande Guerra: os aviadores brasileiros na 1ª Guerra Mundial. Revista Brasileira de História Militar, 10 (23), 35-48. https://www.historiamilitar.com.br/wp-content/uploads/2018/10/RBHM-IX-23.pdf

da Silva, C. E. M. (2014). A Missão médica especial brasileira de caráter militar na Primeira guerra mundial. Navigator, 10 (20), 94-108. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/navigator/article/view/554

de Almeida, F. E. A., Alonso, W. J., Schuck-Paim, C., & Shanks, G. D. (2013). A alta mortalidade da pandemia espanhola na Divisão Naval em Operações de Guerra em 1918. Navigator9 (17), 11-21. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/navigator/article/download/496/479

Filho, J. F. A. (2021). O Brasil durante a Primeira Guerra Mundial. Revista Marítima Brasileira141 (01/ 03), 59-82. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/revistamaritima/article/view/4096/3955

Kapa, R. (2014). Filhos de Princesa Isabel, nobres brasileiros participaram da Primeira Guerra Mundial. https://oglobo.globo.com/brasil/historia/filhos-de-princesa-isabel-nobres-brasileiros-participaram-da-primeira-guerra-mundial-13308833

Lavanére-Wanderley, N. F. (1975). História da Força Aérea Brasileira. Rio de Janeiro: Ministério da Aeronáutica.

McCann, F. D. (2007). Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras.

Rosemberg, A. (2011). Significados do militarismo na Força Pública de São Paulo (1870-1924). Simpósio Nacional de História. https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548855460_e097284432dce3b73d8493cf01dff99a.pdf

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História

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