160 Anos da Batalha de Tuiuti: História, Doutrina e Atualidade, observados sob o prisma do Conceito Operacional do EB (COEB)

Autor: Maj Fagundes
Segunda, 25 Maio 2026
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Em 24 de maio de 1866, nos campos alagadiços do Paraguai, travou-se a maior batalha campal da América do Sul: a Batalha de Tuiuti. Passados 160 anos, o episódio permanece como marco da Guerra da Tríplice Aliança e fonte relevante de ensinamentos para a formação profissional e o aperfeiçoamento doutrinário do Exército Brasileiro. Mais do que um confronto de grandes efetivos, o combate constituiu-se em um teste de liderança, coesão, logística e capacidade de adaptação — fundamentos que continuam a estruturar a Doutrina Militar Terrestre (DMT).

O Manual de Fundamentos EB20-MF-10.101 — O Exército Brasileiro — ressalta que a Força Terrestre é herdeira de tradições construídas ao longo da História e que o estudo das campanhas passadas é elemento essencial à formação do soldado e do comandante. A História Militar, nesse contexto, amplia a capacidade de julgamento, desenvolve o pensamento crítico e fortalece a consciência profissional, aliado a um robustecimento do arcabouço doutrinário, tanto no aspecto individual quanto no coletivo.

Na obra Maldita Guerra, o professor doutor Francisco Doratioto interpreta Tuiuti como momento decisivo da campanha, quando a ofensiva paraguaia buscou destruir, em um único golpe, o poder de combate aliado. O fracasso dessa manobra paraguaia alterou o curso estratégico da guerra e evidenciou o peso das decisões de comando, das limitações logísticas e das condicionantes do terreno no resultado das operações. Mais do que relembrar feitos heroicos, o estudo da batalha impõe uma reflexão crítica sobre decisões, riscos e consequências — aspecto essencial à formação do comandante contemporâneo.

Figura 1: Esboço do dispositivo da batalha de Tuiuti

Fonte: Arquivo Histórico do Exército - O autor (2018)

O Manual de Fundamentos EB20-MF-07.101 — Conceito Operacional do Exército Brasileiro (COEB) — destaca que capacidade de adaptação, evolução e transformação caracterizam os Exércitos vitoriosos. Em Tuiuti, tais atributos se manifestaram de forma clara: diante do impacto inicial do ataque inimigo, a firmeza das frações brasileiras e a atuação decidida de seus comandantes foram determinantes para estabilizar a situação e recuperar a iniciativa. Nesse contexto, destacaram-se lideranças como Sampaio, Emílio Mallet e Manuel Luís Osorio, cuja atuação foi decisiva nos momentos mais críticos do combate. A coesão e a disciplina, aliadas à flexibilidade e a um inegável arrojo, evidenciaram que a vontade de lutar pode ser fator determinante no campo de batalha. Essa constatação dialoga diretamente com o pensamento de Carl Von Clausewitz que, em sua obra seminal, Da Guerra, atribui às forças morais papel central na guerra, perspectiva plenamente incorporada pela doutrina contemporânea.


 

Integração de Capacidades e operações no Multidomínio

O terreno pantanoso condicionou a ação tática, dificultando a manobra e impondo desafios à coordenação aliada entre Infantaria, Cavalaria e Artilharia. A rápida reorganização após o choque inicial imposto pelos paraguaios e a manutenção da capacidade de combate evidenciaram a importância da sincronização de esforços. O Manual de Doutrina Militar Terrestre e o Manual de Operações destacam que o êxito nas operações depende da integração das Funções de Combate e da convergência de efeitos no tempo e no espaço, incluídas as 3 Dimensões e os 5 Domínios do campo de batalha. Embora inserida em contexto histórico do século XIX, a experiência de Tuiuti já demonstrava a relevância desses princípios. A sustentação logística, a recomposição das forças e a continuidade do combate foram fatores decisivos para impedir o colapso aliado, reafirmando a imprescindibilidade da logística na geração e manutenção do poder de combate.

Figura 2: Soldados diante de trincheira em Tuiuti (1866)

Fonte: Salles (2003)

Os conflitos contemporâneos são conduzidos em ambiente cada vez mais complexo, marcado pela integração de capacidades e pela atuação no multidomínio. Ainda assim, permanecem válidos os fundamentos observados em 1866 em Tuiuti: unidade de comando, preparo, disciplina, coesão e capacidade de adaptação ao ambiente operacional. O êxito aliado decorreu da atuação coordenada entre as armas: a Infantaria absorveu o impacto inicial, a Artilharia produziu efeitos decisivos e a Cavalaria explorou oportunidades táticas. Essa articulação permitiu conter o avanço inimigo e restabelecer a iniciativa.

Sob a ótica atual, essa integração pode ser compreendida como uma forma embrionária da lógica de convergência de ações e de efeitos, hoje aplicada às dimensões física, humana e informacional do campo de batalha.

Tradição, Transformação e Legado

A Guerra da Tríplice Aliança representou um momento de transformação para o Exército Imperial, exigindo aprendizado institucional e evolução organizacional. Sob a liderança do Duque de Caxias, que assumiu o Comando das tropas no final de 1866, consolidaram-se esforços de reorganização e profissionalização que deixariam marcas duradouras na Instituição. A análise historiográfica contemporânea permite compreender esse processo de forma crítica, contribuindo para o fortalecimento de uma cultura profissional baseada no estudo rigoroso da História Militar e no constante aperfeiçoamento doutrinário, como evidenciado pela constante atualização e projeção de cenários, materializados no COEB.

Ao completar 160 anos, a Batalha de Tuiuti reafirma que tradição e modernidade caminham juntas. A tradição militar não é estática: ela se renova quando o passado é compreendido à luz dos desafios do presente. Mais do que um episódio histórico, Tuiuti constitui um referencial permanente para a reflexão sobre a guerra e sua condução.

Em 1866, nos campos de Tuiuti, demonstrou-se que a vitória não é fruto do acaso, mas da integração entre liderança, preparo, logística, doutrina e espírito de corpo. Preservar essa memória não é apenas reverenciar o passado, é fortalecer, de forma consciente, a capacidade de enfrentar os desafios do futuro, alinhado estrategicamente com as Políticas e Estratégias de mais alto nível do País e com os anseios da Nação Brasileira, tendo como Estado Final Desejado o atingimento do Desenho Institucional preconizado no Conceito Operacional do Exército Brasileiro e a constante evolução do Exército de Osorio, Sampaio e Mallet, patronos eternizados no campo de batalha de Tuiuti.

Referências

BRASIL. Exército Brasileiro. Doutrina Militar Terrestre. EB20-MF-10.102. 3 ed., Brasília: EME, 2022.

BRASIL. Exército Brasileiro. EB20-MF-07.101: Conceito Operacional do Exército Brasileiro. Brasília: EME, 2026.

BRASIL. Exército Brasileiro. EB20-MF-10.101: O Exército Brasileiro. Brasília: Estado-Maior do Exército, 2014.

BRASIL. Exército Brasileiro. Operações. MC 3.0. 6 ed., Brasília: COTER, 2025.

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2003.

CATEGORIAS:
História

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